OPINIÃO
06/02/2020 03:00 -03 | Atualizado 06/02/2020 03:00 -03

'Jojo Rabbit' é o filme errado na hora certa

Satirizar o fanatismo é louvável, mas fazer isso em uma realidade em que muita gente acredita na Terra plana pode ser um tiro pela culatra.


Quando começaram a pipocar aqui e ali sobre o que seria o novo filme do cineasta neozelandês Taika Waititi (que revitalizou o até então perdido super-herói Thor em Thor: Ragnarok), o sinal de alerta de muita gente foi ligado. A história de um menino que tem Hitler como seu amigo imaginário não parece, pelo menos à primeira vista, uma boa ideia.

Algo parecido com o que aconteceu quando Quentin Tarantino disse que faria um filme contando a história da famigerada Família Manson. Mas Tarantino provou-se muito mais sensível que imaginávamos em Era uma vez em... Hollywood, e, mesmo que com algumas pitadas de controvérsia, soube lidar com o assunto de uma forma mais “delicada” do que se esperava dele.

O problema é que Waititi ainda precisa comer muito arroz com feijão para ser comparado a Tarantino. E não estamos falando aqui de questões técnicas, mas de atitude. Ao contrário de seu colega americano, Waititi quer causar choque, mas tem medo de ir até o fim.

Satirizar o nazismo como uma fábula infantil é, sim, uma ideia interessante na teoria, mas ao mudar o tom na metade final de seu filme, o diretor não banca seu argumento, deixando frouxa uma mensagem que pode parecer bem óbvia, a de que o fanatismo é uma praga e o nazismo foi um regime criminoso. Pode, porque na era da pós-verdade e das fake news, nada mais é o que deveria ser.


Por isso, a atitude - ou falta dela - de Waititi é algo bem compreensível. Não precisamos de uma análise antropológica profunda para perceber que a interpretação de texto da galera anda em baixa. Usar a ironia como uma ferramenta narrativa é como se equilibrar em um fio de navalha e ele acaba sucumbindo ao didatismo para deixar claro que sua obra não compactua com nazistas. O que ela faz é justamente o contrário.

Para piorar a situação, o próprio diretor cai em esteriótipos perigosos (e de mau gosto), como os personagens de Sam Rockwell e Alfie Allen, dois oficiais nazistas que formam um casal gay. Piada ao estilo Trapalhões que, felizmente, não é mais algo aceitável.

Jojo Rabbit, último concorrente ao Oscar de Melhor Filme em 2020 a estrear no Brasil, nesta quinta (6), conta a história do pequeno Johannes Betzler (Roman Griffin Davis), um garoto alemão de 10 anos que parte para um acampamento de treinamento da Juventude Hitlerista, já nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial.

Fisicamente frágil e extremamente ingênuo, Jojo, como é conhecido, tem um amigo imaginário que lhe dá conselhos e o encoraja em momentos difíceis, Adolf, uma versão infantilizada de Adolf Hitler (interpretado por Waititi). Mas suas convicções nazistas passam a mudar no momento em que ele descobre que sua mãe, Rosie (Scarlett Johansson) esconde em casa uma jovem judia, Elsa (Thomasin McKenzie).

Mesmo com todos os senões, há momentos em que Waititi é muito feliz. A sequência de abertura fazendo um paralelo entre o fanatismo a Hitler com a Beatlemania ao som de Komm gib mir deine Hand (versão em alemão da clássica I Want to Hold Your Hand é uma das melhores da última década.

Divulgação
Scarlett Johansson e Roman Griffin Davis são dois grandes acertos de "Jojo Rabbit".

Isso sem falar nas excelentes atuações de Roman Griffin Davis como Jojo (o garoto é incrível!) e Scarlett Johansson como sua mãe, Rosie. O papel de Johansson lhe rendeu, com muita justiça, uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Ela consegue balancear o estilo cartunesco dos personagens de Waititi com leveza e sinceridade, sem nunca cair no ridículo e torná-lo raso. Aliás, uma cena entre os dois, em que Rosie “interpreta” seu marido lutando na guerra para o pequeno Jojo é outra pérola do filme. 

Ah, e uma menção honrosa especial para Archie Yates, que vive Yorki, o melhor amigo de Jojo. Uma das crianças mais fofinhas da história do cinema. O amiguinho que todo mundo sonhou em ter quando criança. 

Dito tudo isso, este é o momento certo para se discutir os horrores do nazismo e de como o fanatismo banaliza o mal, vide o que está acontecendo em nosso próprio quintal atualmente. Porém, exatamente pelos rumos fascistas que boa parte do mundo está tomando, retratar o nazismo de um jeito fofo ao estilo Wes Anderson pode surtir o efeito contrário, tornando Jojo Rabbit no filme errado na hora certa.