OPINIÃO
31/01/2020 02:00 -03 | Atualizado 31/01/2020 02:00 -03

'Joias Brutas' vai fazer você perder todos os seus preconceitos com Adam Sandler

Filme dos irmãos Safdie, que entra no catálogo da Netflix nesta sexta (31), é um thriller alucinante e tenso pelas ruas de NY.

Talvez você não saiba disso, mas nesta sexta (31) entra no catálogo da Netflix um dos melhores (e mais subestimados) filmes de 2019: Joias Brutas. E antes que você pergunte, sim, a produção é estrelada por Adam Sandler. Mas, prepare-se, pois assim que você apertar o play, todos os seus preconceitos sobre ele vão desaparecer.

Logo de cara somos apresentados ao seu personagem - o joalheiro novaiorquino Howard Ratner - em uma das mais bizarras e criativas sequências de abertura das últimas décadas. E a partir daí, você o seguirá em uma jornada alucinante e tensa por uma Nova York que mais parece um zoológico que teve todas as suas jaulas abertas.

Estamos na primavera de 2012. Ratner é um judeu dono de uma loja de joias no Diamond District, uma área bem no centro de Manhattan. Viciado em apostas, ele tem a grande chance de sanar suas dívidas com um violento agiota quando recebe uma rara opala africana. O astro da NBA Kevin Garnett se interessa pela pedra, mas Howard quer leiloa-la para poder ganhar a maior quantidade de dinheiro possível com ela.

Porém, Garnett, que está prestes a fazer o primeiro jogo das semifinais da Conferência Leste contra o Philadelphia 76ers, fica obcecado pela pedra e convence Howard a ficar com ela por um dia. Com o leilão se aproximando e a pressão de seu agiota ficando cada vez maior, o joalheiro entra em desespero quando Garnett desaparece com a opala que ele acredita valer mais de US$ 1 milhão.

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Adam Sandler brilha intensamente como o autodestrutivo Howard Ratner.

Um dos favoritos para entrar na lista de finalistas ao Oscar de Melhor Ator em 2020, Sandler é a alma de Joias Brutas. Ele faz aqui o melhor trabalho de sua carreira e merecia ter sua chance na premiação, em vez de ser sumariamente esnobado pela Academia.

Contudo, por mais que Sandler brilhe intensamente como o autodestrutivo Howard, sua incrível performance não chegaria a lugar nenhum não fosse o talento dos Safdie. Em 2017, ainda relativamente desconhecidos, eles surpreenderam a crítica com o excelente Bom Comportamento.

Suas crônicas urbanas recheadas de “perdedores” têm uma autenticidade invejável. Um nível de credibilidade que eles atingem por entender os lugares e as pessoas que retratam. A Nova York tanto de Bom Comportamento quanto de Joias Brutas é rápida, suja, sedutora, perigosa, fascinante, decadente... Tudo ao mesmo tempo. 

Eles são adeptos de um cinema que é quase de guerrilha. Filmam nas ruas, muitas vezes sem autorização, fazendo suas estrelas atuarem em espaços públicos em que interagem com pessoas comuns, que às vezes nem sabem que estão no meio de uma filmagem.

Aliás, o uso de não atores em papéis de suporte é um dos trunfos do “estilo Safdie”. Os capangas do agiota que perseguem Howard, por exemplo, são malandros locais de verdade, que dão um tempero todo especial às interações com Sandler.

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A química entre Kevin Garnett, LaKeith Stanfield e Adam Sandler é impressionante.

E por falar em atores amadores, Garnett talvez seja uma surpresa ainda maior que Sandler, que já fez alguns trabalhos reconhecidos com diretores do porte de Paul Thomas Anderson (Embriagados de Amor) e Noah Baumbach (Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe). Tudo bem que o astro - hoje aposentado - da NBA interpreta ele mesmo, mas ele se mostra surpreendentemente natural na função e sua química com Sandler - e com o também ótimo LaKeith Stanfield - é impressionante.   

Joias Brutas é, sim, uma verdadeira joia, mas que não tem nada de bruta. É turbilhão claustrofóbico minuciosamente lapidado pelos Safdie para que você termine a sessão exausto, mas satisfeito. Aquele tipo de excitação nervosa de alguém que acabou de andar em uma montanha-russa e que, ainda sob o efeito da adrenalina, sorri porque o passeio acabou e você ainda está inteiro.