LGBT
02/01/2020 05:00 -03 | Atualizado 02/01/2020 05:00 -03

João Silvério Trevisan: ‘O direito de amar é reivindicado em 1ª mão pela comunidade LGBT'

Em entrevista ao HuffPost, ativista e escritor três vezes vencedor do prêmio Jabuti fala sobre novo livro e perspectivas para o movimento LGBT sob Bolsonaro.

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João Silvério Trevisan

Para o ativista e escritor João Silvério Trevisan, 75 anos, a comunidade LGBT pode ser “muito visada, atacada” sob o governo de Jair Bolsonaro, mas não será essa postura combativa que impedirá que “novas consciências” sobre gênero e sexualidade surjam ou que o movimento deixe de lutar por direitos.

“O direito de amar é reivindicado em primeira mão pela comunidade LGBT deste País. Isso, para mim, é uma conquista sem tamanho. É o mais importante de tudo o que está acontecendo, e eu creio que continuará acontecendo. Essa comunidade não vai abrir mão de suas conquistas”, afirmou de forma otimista em conversa por telefone com a reportagem do HuffPost. 

Este direito citado por Trevisan, o de amar, era algo ainda incipiente para LGBTs no País em 2009, ano escolhido para ambientar seu novo livro, A Idade de Ouro do Brasil (Alfaguara, 2019). Escrito originalmente como um roteiro de cinema em 1987, o romance parte de uma disputa de poder entre o submundo da política e um grupo de seis travestis para fazer uma crítica à ideia de que o Brasil é o “País do futuro” e viveu a chamada “idade de ouro” nos anos 2000.

“A minha intenção, eu acho que explícita, ao escrever o romance é tentar mostrar para as pessoas como essa ‘idade de ouro’ foi responsável por tudo o que está acontecendo hoje na política brasileira”, pontua Trevisan, ao citar a polarização e ascensão do conservadorismo no País. “Eu acho que está faltando esse tipo de análise, esse tipo de tomada de consciência. Muita gente acaba achando que o que aconteceu na eleição de 2018 caiu do céu.”

Vencedor de três prêmios Jabuti, com mais de 14 livros publicados, Trevisan viveu parte dos anos de chumbo no Brasil (1964 e 1985) ― quando ser LGBT e se afirmar como tal poderia ser sinônimo de vergonha. Ele deixou o País em exílio voluntário após o filme Orgia ou o Homem que Deu Cria, escrito e dirigido por ele, ter sido censurado pelos militares em 1973.

“Naquele período, nós tivemos coisas absurdas e semelhantes ao que está acontecendo hoje na história brasileira”, disse o escritor em referência às ofensivas do governo federal a produções culturais, em especial, de temática LGBT. “Nós tivemos muita coisa que emergiu naquele tempo [da ditadura] como tentativa de sobrevivência”, lembra o escritor, ao citar manifestações artísticas do período de forte repressão à cultura no Brasil, como o Teatro Oficina, de Zé Celso.

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"Quando você vai a uma Parada [LGBT], o que você vê é uma imensa alegria, de pessoas que estão mostrando a sua própria cara e estão celebrando o fato de estarem vivas", diz João Silvério Trevisan.

De volta em 1976, ainda em plena ditadura militar, o ativista foi um dos criadores do grupo Somos, considerado o primeiro coletivo de liberação homossexual do Brasil. Também foi um dos editores do Lampião da Esquina, o primeiro jornal brasileiro voltado para a comunidade LGBT ― em especial, a letra G. Em 1986, publicou Devassos no Paraíso, livro que ganhou sua quarta edição em 2018 e é entendido como a “bíblia” da homossexualidade no Brasil.

Na conversa com a reportagem, o filho mais velho de uma família de classe média de Ribeirão Bonito, no interior de São Paulo, falou não só de seu 15º livro, mas também de sua história como ativista pelos direitos da comunidade LGBT e apontou quais são suas perspectivas para o movimento sob o governo Bolsonaro.

Leia a entrevista completa.

HuffPost Brasil: Em que você se inspirou para escrever A idade de ouro no Brasil?

João Silvério Trevisan: Ele é um romance que foi originalmente escrito como um roteiro de cinema em 1987. Escrevi pensando no Marco Nanini como ator e eu nunca consegui filmar. Você imagine este nível de narrativa, com seis travestis na história, em um ano como 1987, não é? Naquela época não era possível filma-lo, apesar de eu ter feito inúmeras tentativas. Mas, assim como outros roteiros que eu tenho ― eu gosto muito de criar, de escrever roteiros ―, chegou uma hora que, por gostar muito da ideia do texto, resolvi transformá-lo em um romance até porque a ideia de misturar linguagens [de cinema e literatura] é muito atraente para mim. Eu já fiz isso em mais de um romance meu, comecei com Vagas Notícias de Melinha Marchiotti (1984), meu segundo romance. 

Em momento algum tentei esconder essa origem, que começa pelos títulos dos capítulos. Ao invés de capítulos 1, 2, 3, por exemplo, eu coloquei como “sequencial”, que remete à sequência do roteiro cinematográfico, que é  todo dividido em sequências. Eu tive uma preocupação muito grande na mudança dessa passagem de linguagem em criar um espaço cinematográfico através da mise en scene, ou seja, da encenação. Na literatura, em geral, a gente não pensa muito no ambiente em que as coisas estão acontecendo. Você não tem muita ideia de qual é o ponto de vista, a referência dentro da cena onde está tal personagem, por exemplo. Quando muito a gente se refere aos movimentos dentro da cena. E, no romance, eu tomei cuidado para isso. Inclusive, muitas vezes pensando em uma câmera escondida. Ou uma câmera invisível. De tal modo que eu poderia trabalhar com esse ponto de vista da câmera, sem me referir diretamente à ela. E existem outras partes em que se vê claramente a presença de uma câmera. Ou seja, a cena está sendo de fato filmada e eu faço um trabalho metalinguístico de inserir a linguagem do cinema, dentro da linguagem literária. Então, pra mim, isso foi muito instigante. Eu gostei muito de fazer isso porque em nenhum momento eu deixei de lado os recursos literários. Essa mistura me pareceu muito frutífera e muito gratificante. 

O livro se passa há dez anos, em 2009. Como foi fazer esse paralelo temporal ― sendo que o que inspirou o romance foi escrito nos anos 1980?

Isso já dá uma ideia do sentido do romance. Que quer dizer o seguinte: um roteiro de 1987 se aplica perfeitamente mudando detalhes a uma história de 2009. O processo foi quase miraculoso. Quando eu escolhi 2009, foi porque eu precisava de um momento em que se configurasse, de fato, na história brasileira, uma imaginação sobre, finalmente, chegarmos à tão desejada “idade de ouro”. Da ideia de que “finalmente, o País do futuro chegou ao presente”. E, no governo Lula, muita coisa foi apresentada como “finalmente o Brasil chegou lá”. Eu dou alguns detalhes factuais, com os Brics [mecanismo de cooperação formado por países emergentes, consolidado em 2006, composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], por exemplo, a questão do pré-sal e com uma democracia florescente.

Mas o que me parece fascinante é que é como se a história do Brasil fosse um contínuo e eterno retorno. Aquilo que, em 1987 se configurava com uma ideia parecida com a “idade de ouro” ― ou seja, tínhamos entrado em um período de redemocratização ― de repente, depois de todos os inúmeros problemas que fizeram a gente rodar, caímos novamente em uma possibilidade dessa “idade de ouro”, quase 20 anos depois do meu roteiro ter sido escrito. Isso me parece revelar a grande problemática já presente no roteiro e que passou para o livro. Ou seja, o Brasil é um país à deriva ― dentro do imaginário europeu imposto a nós ―, quase como o paraíso perdido, mas que não passa de uma falácia. E é assim que a história do Brasil se configura: alguma coisa que não deu certo. Nesse sentido, ele é um romance muito duro. Eu espero que ele cumpra a função de ser dura. 

Muita gente acaba achando que o que aconteceu na eleição de 2018 caiu do céu. E não. Não caiu do céu. A história tem precedentes, antecedentes e tem consequências.
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Parada LGBT de 2019, a primeira sob o governo Bolsonaro, teve protestos contra o presidente, que é conhecido por declarações homofóbicas e postura conservadora.

Como foi atrelar todas essas questões ao universo LGBT?

Veja. Isso não é nenhuma novidade para mim. Em 1986, escrevi a primeira edição do Devassos no Paraíso. E o que era o Devassos? Era um olhar sobre a história LGBT que estava escondida até então. Eu fiz uma análise imensamente política no sentido de que eu estava apresentando ao Brasil uma história que havia sido dissimulada, esquecida e tampada porque era uma história considerada “vergonhosa”. Ora, isso, para mim, já é um gesto extremamente político. Já naquela época eu estava olhando para a população brasileira como uma população que escondia uma história e como isso revela características que não eram conhecidas antes de um País.

E o fato, também, de eu ter uma militância, um ativismo na área LGBT, me permitiu, tranquilamente, compreender que a presença de personagens LGBTs em produções culturais já tem uma marcação política muito particular. As protagonistas [em A Idade de Ouro] que são as seis travestis cumprem uma função política muito grande: é através delas que as máscaras caem. As máscaras de hipocrisia, de machismo descarado, de crueldade. Elas, de certo modo, desfazem esse contexto político formal que estava tentando formar um novo partido com os mesmo cacoetes de corrupção da política já conhecida.

O direito de amar é reivindicado em primeira mão pela comunidade LGBT deste País.
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Em 2018, 9.520 casais homoafetivos decidiram se casar, frente a 5.887 em 2017, o que representa um aumento de 61,7% deste tipo de união no País, segundo o IBGE.

De 2009 para cá, o cenário político brasileiro foi agitado pela Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão do ex-presidente Lula e eleição de Bolsonaro... 

Veja, em 2009, existia um impulso de esperança muito grande. Com A Idade de Ouro do Brasil, o que eu fiz foi implicar até no título um sentido absolutamente irônico. E na narrativa, esse sentido irônico, se aprofunda. Exatamente no período da “idade de ouro” é que você, enquanto leitor, vai descobrir que havia, nos subterrâneos, uma “idade podre”. A minha intenção ― eu acho que explícita ― ao escrever o romance é tentar mostrar para as pessoas como essa idade de ouro foi responsável por tudo o que está acontecendo hoje. Eu acho que está faltando esse tipo de análise, esse tipo de tomada de consciência. Porque muita gente acaba achando que o que aconteceu na eleição de 2018 caiu do céu. E não. Não caiu do céu. A história tem precedentes, antecedentes e tem consequências. Tudo o que acontece tem uma causa. A história não segue os nossos manuais. Nós gostaríamos que tudo fosse muito lindo, que tudo fosse muito bem resolvido, mas acontece que a realidade não é assim. Não há uma realidade em que o mundo seja dividido entre bandidos e mocinhos. Há ciclos. Há momentos em que ele está mais de um lado, e momentos em que está mais do outro ou mais sombrio. 

Nas eleições de 2018 uma barreira se rompeu e nos vimos diante de uma barbárie. Nós estamos vivendo um período de barbárie na política brasileira em vários sentidos. Porque o grau de hipocrisia em que estamos envolvidos enquanto País hoje é assustador. O que não significa que não havia hipocrisia antes. Toda a corrupção que eu mostro no romance claramente existia em 2009. Ela era uma corrupção vivíssima, ela não apareceu do nada. É como se eu tentasse colocar os olhos em quem lê o romance através de uma proposta bastante irônica que continua a acontecer e que, provavelmente, é uma quimera, um sonho irreal. 

Em 2018, você relançou Devassos no Paraíso e agora, em 2019, lança um novo livro em um contexto político em que produtos culturais estão sendo questionados e determinadas temáticas, como a LGBT, estão sendo “garimpadas” pelo governo federal. Por que publicar o livro neste momento? 

Eu acho fundamental e obrigatório. Quase como uma necessidade natural [continuar produzindo]. Veja, no período da ditadura brasileira, que foi um período bravíssimo, eu tive muita coisa proibida, eu tive que ir embora do País em exílio voluntário, mas tive que ir porque não havia mais condições de continuar aqui. Naquele período, nós tivemos coisas absurdas e semelhantes ao que está acontecendo hoje na história brasileira. O Cinema Novo, por exemplo, o Tropicalismo, por exemplo, o Grupo Oficina, por exemplo, o Teatro do Oprimido, do Augusto Boal... nós tivemos muita coisa que emergiu naquele tempo como tentativa de sobrevivência [diante da repressão] e é muito parecido com o que nós estamos vivendo agora. 

Hoje, nós temos a oportunidade de, uma vez rompida a bolha, nos confrontarmos com a realidade que se apresenta na atualidade e que nós desconhecíamos ou fazíamos de conta que não existia. E ao nos confrontarmos com ela, dialogarmos com essa realidade duríssima por meio da criação artística e colocá-la naquilo que produzimos enquanto artistas, escritores, enfim. Esse é o papel da ficção, inclusive. Ela tem uma função profética. 

Muito mais importante do que qualquer política pública é a própria comunidade tomar o seu destino em mãos e tomar posse da sua voz e da sua história.
Divulgação
A "Idade de Ouro do Brasil", de João Silvério Trevisan, pela editora Alfaguara.

Tendo em vista a sua história como ativista pelos direitos da comunidade LGBT, o que é urgente no atual cenário brasileiro?

Eu escrevi a nova edição do Devassos, em 2018, e nele existem duas partes novas: uma delas eu analiso o que aconteceu politicamente com a extrema direita em Brasília, e ponho em perspectiva uma organização sistemática desde 1990 das igrejas evangélicas e o impacto que o pensamento fundamentalista teve para a comunidade. Em seguida, eu mostro como a comunidade LGBT veio conquistando espaço no Brasil. Essa, para mim, é a parte mais importante. Se você olhar a comunidade LGBT hoje ― como eu posso olhar e ter uma visão retrospectiva que é e do que eu vivi ―, é fascinante o nível de evolução do ponto de vista de consciência política de seus próprios direitos. Se você vai a uma Parada LGBT, você pode constatar com muita clareza como as coisas evoluíram.

Muito mais importante do que qualquer política pública é a própria comunidade tomar o seu destino em mãos e tomar posse da sua voz e da sua história. Então quando você vai a uma parada o que você vê é uma imensa alegria, de pessoas que estão mostrando a sua própria cara e estão celebrando o fato de estarem vivas e serem sobreviventes e estarem oferecendo a este País uma grande lição que é a lição do amor. O direito de amar é reivindicado em primeira mão pela comunidade LGBT deste País. Isso para mim é uma conquista sem tamanho. É o mais importante de tudo o que está acontecendo, e eu creio que continuará acontecendo. Eu creio que essa comunidade não vai abrir mão das suas conquistas. Ela poderá ser muito visada, atacada, mas certamente esses ataques serão fonte de novas consciências e eles não vão conseguir abafar o que já conquistamos. 

Esta seria uma perspectiva otimista, então?

Sim. Tanto que eu termino Devassos dialogando com um filósofo francês [Georges Didi-Huberman, autor de Sobrevivência dos Vaga-lumes]que estuda a questão dos “vagalumes” do ponto de vista político e poético. Eu desdobro essa ideia no sentido de que existem os vagalumes do desejo que, em outras palavras, poderiam ser a purpurina do nosso desejo. E esses vagalumes brilham o quanto mais escuro estiver o seu entorno. É assim que eu termino essa nova edição do Devassos, tanto que saiu um livro recentemente para o qual eu fiz uma introdução que e usou essa mesma ideia, chama-se A Resistência dos Vagalumes (Editora Nós, 2019). Acho que a maior urgência é continuarmos donos do nosso destino, da nossa voz e do nosso corpo.