MULHERES
23/06/2020 14:00 -03 | Atualizado 23/06/2020 14:00 -03

Em nome de Deus: Série documental sobre abusos de João de Deus estreia no Globoplay

Bastidores da apuração que levou à descoberta de crimes sexuais do líder espiritual, em 2018, são narrados em documentário. São "histórias horripilantes", define o jornalista Pedro Bial, que conduziu a série.

EVARISTO SA via Getty Images
Série documental sobre ascensão e queda de João de Deus, e as dezenas de acusações contra ele, estreia no Globoplay.

Como um dos mais conhecidos líderes espirituais brasileiros foi de ídolo de milhares, força-motriz de uma cidade inteira no interior de Goiás, admirado e seguido por celebridades brasileiras e estrangeiras, a criminoso, responsável por abusos e estupros, e algoz de dezenas de mulheres? João de Deus, a quem se atribui a cura de centenas de enfermos, já foi condenado a quase 60 anos de prisão, em regime fechado, por crimes sexuais contra mulheres de Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Ele foi preso em dezembro de 2018 e está em prisão domiciliar desde março deste ano por conta da pandemia do novo coronavírus.

A história de sua ascensão e queda, da infância ao sucesso até sua prisão, é o enredo de Em nome de Deus, série documental que estreia no Globoplay nesta terça-feira (23), dirigida por Monica Almeida, Gian Carlo Bellotti e Ricardo Calil. O 1º dos 6 episódios será exibido na TV Globo nesta noite, após Aruanas

O início do ocaso de João de Deus começa com o furo de reportagem de Conversa com Bial, com a veiculação das primeiras denúncias de mulheres que foram abusadas ao buscarem tratamento espiritual do médium na Casa Dom Inácio de Loyola. Algumas das acusações remontam há mais de 3 décadas. A coreógrafa holandesa Zahira Mous foi a única à época a mostrar o rosto.

Responsável pelo furo, a roteirista Camila Appel conta que as mulheres que entrevistou tinham medo da influência de João de Deus — no mundo físico e espiritual. Por isso, as vítimas não queriam aparecer.

“Elas temiam a rede de proteção dele, a violência dele e até retaliação espiritual. Até hoje escuto [dessas mulheres] se acabou a luz, se ficou gripada, foi porque ela denunciou. É muito difícil para nós, jornalistas, lidar com esse tipo de medo; exige muita delicadeza com a fé delas”, afirma Appel, em entrevista a jornalistas, da qual o HuffPost participou, na última sexta-feira (19).

As lentes de Gian Carlo Bellotti capturaram esse sentimento. “Consegui olhar no olho dessas mulheres, e era assustador de ver o medo delas”, descreve. “O que impressiona é a destruição da fé delas.”

Para o jornalista e apresentador Pedro Bial, que conduziu a série, o desespero que leva as pessoas doentes a procurar um “santo milagreiro” torna o caso ainda mais impactante.

Se aproveitar das pessoas desesperadas em seu momento mais vulnerável acrescenta uma camada de horror à história.Pedro Bial
Reprodução/TV Globo
Pedro Bial na série documental "Em nome de Deus", no ar no Globoplay.

“Como as histórias são nauseantes, horripilantes, você não pode manchetar, pesar a mão, porque já é pesado demais”, relembra Bial sobre a produção das reportagens que embasaram a série documental.

Além de momentos marcantes de Conversa com Bial e toda a repercussão do caso, o documentário traz depoimentos inéditos de 7 vítimas de João de Deus, moradoras de diversas regiões do País e de diferentes faixas etárias. Entre elas, a filha de João de Deus, Dalva Teixeira, abusada dos 10 aos 14 anos, e Zahira.

Essas mulheres se encontram numa roda de conversa exibida no decorrer dos 6 episódios da série. Camila Appel, que conduziu as mais de 8 horas de troca de experiência entre elas, faz uma reflexão sobre os bastidores das reportagens e do documentário:

Precisamos respeitar o tempo das vítimas. Essas mulheres precisavam de tempo — que é algo que o jornalismo tem pouco.Camila Appel
Divulgação/TV Globo/Maurício Fidalgo
Roda de conversa mediada pela roteirista Camila Appel com 7 vítimas de João de Deus.

Todos os episódios de Em nome de Deus estão disponíveis no Globoplay. A série também vai ser exibida pelo Canal Brasil a partir desta quarta-feira (24) até segunda-feira (29), às 20h50.

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