LGBT
19/06/2020 02:00 -03

Sou uma pessoa trans e fã de Harry Potter. Há algumas coisas que quero que J.K. Rowling saiba

“Não consigo sequer começar a explicar a dor que sinto por saber que a autora da série de livros que marcou a minha infância não acredita que eu tenho valor.”

Nota da autora: esta carta é escrita unicamente de meu ponto de vista, como mulher trans, sobre o mal que está sendo feito a outras mulheres trans. Reconheço que esse não é o único lugar onde mal está sendo feito. Esta carta inclui tópicos como ideação suicida, bullying e difamações.

J.K. Rowling,

Quando eu era criança, estava claro que eu era extremamente feminino. Na segurança de minha casa, meus pais eram relativamente tolerantes. Eles eram liberais e imaginaram que eu seria gay quando crescesse. Ser transgênero era algo que não figurava no radar deles. Para falar a verdade, tampouco estava no meu ... nem no de quase mais ninguém na época, o início dos anos 1990.

Minha expressão de gênero foi permitida enquanto eu era bem pequeno. Meus pais não se incomodavam quando eu me enrolava em toalhas, fazia de conta que eram vestidos e cantava músicas da princesa Disney mais recente.

Tudo isso mudou quando comecei na escola primária. Como uma pessoa designada do sexo masculino ao nascer, mas que obviamente era muito feminina, virei alvo de bullying torturante. Começou imediatamente e era uma coisa sem dó. Eu era alvo de bullying físico e verbal por minha feminilidade. A direção da escola não fez nada. Os professores não faziam nada. Com 6 anos de idade eu já estava sendo chamado de “viadinho”. Pense bem no que é isso.

Durante o recreio, as pessoas tiravam sarro de mim por brincar de casinha com as meninas, em vez de fazer esportes com os garotos. Antes da escola primária, quase todos meus amigos eram meninas. Mas logo as meninas chegaram à idade em que começaram a me falar que eu não podia mais brincar com elas porque “eu era menino”. Enquanto isso, os meninos eram agressivos e me maltratavam. Por isso tudo, passei pela escola primária com apenas um ou dois amigos.

Esse nível de isolamento e de agressão mental e física levou minhas notas a cair muito. O refrão que ouvi ao longo de toda minha infância era “você é tão inteligente, a gente não entende por que você não está se saindo melhor na escola!”. Mas ninguém queria encarar a verdade do que estava acontecendo. Como uma criança pode se concentrar na escola quando está sendo agredida diariamente por seus pares por sua feminilidade?

A primeira vez que pensei em suicídio foi alguns anos mais tarde. Eu acordava no meio da noite, muitas noites seguidas, morrendo de medo de ir à escola no dia seguinte e aguentar mais tortura. Eu descia até a cozinha na ponta dos pés e segurava uma faca com a ponta contra minha barriga, tentando criar coragem de usá-la.

Quero que você pare para refletir que o preço de viver como uma criança trans era tão alto que pensei em cometer suicidio antes de chegar aos 10 anos de idade.
Karwai Tang via Getty Images
A mensagem para J.K. Rowling: “Sim, mulheres trans e mulheres cis são diferentes, mas ninguém está tirando nada de você”.

Hoje sinto gratidão e me acho abençoada porque não me matei. Mas quero que você pare para refletir que o preço de viver como uma criança trans era tão alto que pensei em cometer suicídio antes de chegar aos 10 anos de idade.

A pessoa com quem eu me sentia mais em segurança durante essa época era meu avô. Nunca me senti humilhada por ele. Nunca senti que ele esperava que eu fosse outra coisa senão exatamente quem eu era. Ele me deixava brincar de casinha e ser a irmã ou a mamãe. Me deixava cantar a música da princesa Disney mais recente. Ele incentivava meu interesse pelas artes, e, quando o bullying ficou muito ruim, ele incutiu na minha cabeça que eu era válida e OK exatamente do jeito que eu era.

Meu avô morreu muito de repente quando eu acabara de completar 12 anos. A única pessoa que me dava segurança desapareceu. No mesmo ano, descobri Harry Potter e a Pedra Filosofal. O primeiro livro havia saído um ano antes, mas, como pessoa “do contra” e da contracultura, eu me recusara a ler simplesmente por ser tão popular. Mas depois que meu avô morreu, abri o livro. Lá estava eu, uma criança passando por dor extrema, querendo desesperadamente encontrar uma fuga de qualquer espécie – e lá estava Harry.

Eu me identifiquei com o isolamento dele, com a rejeição e os maus-tratos que ele sofria. Me identifiquei com a tristeza dele. Eu sonhava em ser levada para Hogwarts para encontrar uma família entre amigos. Me perdi completamente no mundo que você criou. O estranho é que me lembro da emoção dolorosa que senti quando li o capítulo sobre o “Espelho de Erised”, porque eu sabia que o que esse espelho me mostraria se eu olhasse nele: eu mesma como menina.

Nessa idade eu já havia saído do armário e me assumido como gay, mas eu sabia que não era só isso. Eu sabia que era trans, mas meu único quadro de referência sobre mulheres trans era um episódio de “Jerry Springer” que assisti um dia quando faltei à aula. As mulheres trans eram retratadas como objetos de escárnio, objetos sexuais, pessoas às margens. Mesmo assim, a partir do momento que eu soube que era possível fazer a transição, encontrei um raio de esperança. Ao mesmo tempo, meu coração se partiu, porque eu acreditava sinceramente que me assumir como trans era algo além do que seria possível e que isso acabaria com minha vida antes mesmo de ela começar.

O bullying continuou. A falta de segurança continuou, e, infelizmente, mais pessoas que eu amava morreram do que qualquer pessoa da minha idade deveria ser obrigada a perder. Processei essas perdas do mesmo modo como Harry processou a perda de pessoas que ele amava: Cedric, Sirius, Edwiges, Olho-Tonto, Fred e inúmeros outros. 

Courtesy of Dana Aliya Levinson
A autora veste moletom temático para assistir à peça "Harry Potter e a Criança Amaldiçoada" em seu no aniversário há alguns anos.

Enquanto tudo isso estava acontecendo, meu corpo começou a me trair. Para mim, a disforia física que estava entrando em ação foi pura e simplesmente traumática. Eu me sentia totalmente impotente, vendo meu corpo se converter em algo irreconhecível. Eu me sentia desligado de cada átimo de meu ser. Enfrentei isso com drogas e álcool, que comecei a consumir aos 12 anos de idade.

Era esse o nível de sofrimento que eu enfrentava devido ao suposto crime de ter nascido trans. Volto a repetir – antes mesmo de virar adolescente, eu já estava pensando em suicídio e abusando de drogas e álcool. Reflita um pouco sobre isso. Deixe essa ideia penetrar em sua cabeça por um instante.

Tirando o sofrimento, as únicas constantes na minha vida eram Harry, Hermione e Rony. Eu ia aos lançamentos dos livros Harry Potter, à meia-noite. Estive na primeira exibição de cada filme Harry Potter. E continuei a me encontrar nas jornadas seguidas por seus personagens. Foi ali que encontrei algum grau de esperança para o meu próprio futuro. Foi onde aprendi a acreditar realmente que “nas horas mais escuras, a felicidade só pode ser encontrada se acendermos a luz”. Seus livros literalmente me ajudaram a continuar viva.

Com 20 e poucos anos, sofri um colapso nervoso devido à pressão de viver uma mentira. Eu continuava a me automedicar com drogas e álcool, porque não conseguia ficar sozinha comigo mesma quando cada pedacinho de meu ser gritava que o modo como estava avançando pela vida estava errado. Finalmente cheguei a um ponto em que me dei conta que só havia duas opções para mim: a transição ou o suicídio. Escolhi a transição. Me lembro de pensar: Dana, você é uma Grifinória. Você é corajosa demais. E isto pode parecer assustador, mas, como Harry, você vai sobreviver e vai encontrar seus amigos ao seu lado.

Então finalmente me assumi como trans e comecei a fazer a transição médica. Pouco depois de alcançar minhas metas de transição, fiquei sóbria. E sabe o que escolhi para festejar meu primeiro aniversário sóbria, vivendo como meu eu autêntico? Reli todos os livros da série Harry Potter, revi todos os filmes e, no meu aniversário, fui ver Harry Potter and the Cursed Child na Broadway. Eu queria fazer alguma coisa que alimentasse minha criança interior. Sabia que Harry Potter faria justamente isso. Afinal, foi a série que me ajudou a sobreviver.

Dana Aliya Levinson
Este ano, em seu aniversário, Dana Aliya Levinson assistiu a uma sessão de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, com a trilha sonora tocada pela Filarmônica de Nova York.

Por conta de tudo isso, não deve surpreender que eu não consiga sequer começar a explicar como foi doloroso para mim ver sua deslegitimação recente de minha existência. Não posso sequer começar a explicar a dor de saber que a autora da série de livros mais formativa de minha vida não acredita que eu seja válida.

Por isso resolvi escrever esta carta a você, porque há algumas coisas que quero que você entenda.

Primeiro, quero dizer que não vou repassar cada um dos pontos que você explicitou em seu texto e refutá-los um a um, porque me recuso a te encontrar no mesmo campo das mentiras facilmente desmentidas sobre pessoas trans que já circulavam muito antes de você optar por abrir a boca e promovê-las. Em vez disso, quero lançar um apelo puramente pessoal a você.

Sim, mulheres trans e mulheres cis são diferentes, mas ninguém está tirando nada de você. Reconhecer a validez das mulheres trans não tira nada de você. Adaptar sua linguagem para ser mais inclusiva de identidades trans não tira nada de você. Suas experiências como mulher cis são suas experiências como mulher cis, assim como minhas experiências como mulher trans são minhas experiências de mulher trans. Não são as mesmas. Mas isso não significa que nenhuma das experiências seja inválida.

Me lembro que quando inicialmente me assumi como trans para uma mulher cis que eu amo, uma das coisas que ela falou foi que ela havia suportado tanto sexismo na vida e que era duro de engolir que apenas agora eu estava “reivindicando a condição de mulher”. Acredito que esse sentimento seja comum a muitas mulheres cis que não entendem a identidade trans. Pouco a pouco ela foi aprendendo e crescendo, e hoje ela é uma apoiadora enorme da comunidade trans. Ainda acredito que você também possa aprender e crescer. Preciso acreditar nisso. Não quero acreditar outra coisa.

Porque o fato é que tanto as mulheres trans quanto as cis sofrem violência de gênero. O bullying implacável de que fui alvo quando era criança foi uma violência de gênero. Apenas tinha uma aparência diferente daquela que as mulheres cis enfrentam. Será que desfrutei de um pouquinho de privilégio masculino antes de fazer a transição? Tanto quanto é possível para uma pessoa femme em um corpo designado masculino. Isso veio acompanhado de muito sofrimento? Sim. Mas você teve o privilégio de ter seu gênero afirmado por sua vida inteira e não precisar brigar com outras pessoas para que elas reconhecessem a validez de sua existência. Opressão e sofrimento não são disputas, ou não deveriam ser. São diferentes, apenas.

Além disso, as mulheres trans têm probabilidade estatisticamente mais alta do que as mulheres cis de sofrerem agressão e violência devido a seu gênero. As mulheres trans negras, em especial, sofrem níveis desproporcionalmente elevados de violência. Você está atacando algumas das pessoas mais vulneráveis do mundo. E, sendo você alguém que escreveu sobre o fato de a opressão e o tribalismo causarem mal e violência, isso é especialmente surpreendente – e devastador. É ainda mais devastador que você tenha escolhido este exato momento para se lançar nesse discurso, agora que está ocorrendo uma levante global para clamar pelo fim do racismo e da brutalidade policial e reivindicar que valorizemos as vidas negras – incluindo as vidas de mulheres trans negras.

Boa parte da violência contra as mulheres trans é predicada sobre a ideia de que nós não somos quem afirmamos ser; que nosso gênero não é real. É baseada na ideia de que estamos enganando as pessoas, que estamos fingindo ser mulheres ou representando o papel de mulheres. Pelas coisas que você escreveu, entendo que você não crê que esteja prejudicando ninguém, mas, ao deslegitimar a identidade trans, você está perpetuando as próprias narrativas que exacerbam a violência contra nossa comunidade.

Quero deixar claro também que o sofrimento pelo qual eu passei – o sofrimento pelo qual tantas pessoas trans passamos – não aconteceu e não acontece em um vácuo. Não temos altos níveis de suicídio, violência e dependência química em nossa comunidade pelo fato de sermos trans. É por sermos trans em um mundo que nega ou demoniza nossa existência, e o estresse psicológico decorrente disso é enorme. E agora você está usando sua plataforma para amplificá-lo.

Quando Daniel Radcliffe divulgou um comunicado outro dia em apoio à comunidade transgênero, li o último parágrafo, que diz, em parte, “Se você encontrou alguma coisa nestas histórias que calou fundo em você e o ajudou em algum momento de sua vida, isso é entre você e o livro que você leu, e é sagrado”, e me debulhei em lágrimas. Foi só quando li aquilo que me dei conta de o quanto precisava lê-lo.

Será que desfrutei de um pouquinho de ‘privilégio masculino’ quando era esse o rosto que eu apresentava ao mundo? Sim. Isso veio acompanhado de sofrimento extremo? Sim. Mas você teve o privilégio de ter seu gênero afirmado por sua vida inteira e não precisar brigar com outras pessoas para que elas reconhecessem a validez de sua existência. Opressão e sofrimento não são disputas, ou não deveriam ser. São diferentes, apenas.

Sei que você sabe que o consenso da comunidade médica é que a identidade trans é real. Sei que você sabe que o consenso da comunidade de psicólogos é que a identidade trans é real. Existimos há milênios em todas as culturas. Não estamos em guerra com vocês. Você não está sendo atacada por erguer-se em defesa de mulheres. Simplesmente somos outro grupo de mulheres que pedimos que você se erga em defesa nossa, também.

Hoje eu me olho e vejo uma pessoa quase irreconhecível, totalmente diferente da criança trans assustada que fui no passado. Já realizei sonhos que, por ser trans, me pareciam impossíveis. Já apareci na televisão. Fui a Sundance para a estreia de um filme em que apareci. Minha música já foi tocada de San Francisco a Paris. Tenho amor em minha vida e tenho a família de amigos com que sempre sonhei. Sinto confiança em mim mesma como artista e como pessoa. Sei me cuidar e defender os direitos de outros. É isso que minha transição me deu.

Serei eternamente grata a Harry Potter por me ajudar a passar pela escuridão e me lembrar de acender a luz. Escrevo esta carta porque esse é um privilégio que tenho, enquanto muitas pessoas trans não o possuem. Muitos de nós ainda sofremos dor e encaramos dificuldades. E muitos de nós já perdemos e continuamos a perder tantas coisas – família, amizades, nossos meios de subsistência, nossa casa e até nossa vida – simplesmente por ousarmos sonhar em ser exatamente quem somos.

Ousar sonhar com um mundo melhor é algo que você ensinou a todos nós. Por favor não nos tire essa dádiva, maculando-a com a transfobia. Rezo para isto não ser um fim, mas, em vez disso, o início de uma jornada rumo ao entendimento. 

Para informações sobre como você pode apoiar mulheres trans negras, visite o The Okra Project e The Marsha P. Johnson Institute, nos Estados Unidos.

No Brasil, é possível ajudar pessoas trans entrando em contato com a Antra (Associação Nacional de Transexuais e Travestis) e Rede Trans Brasil (Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil).

Dana Aliya Levinson é atriz, escritora, compositora e defensora trans. Ela pode ser vista na terceira temporada, ainda inédita, de “American Gods”, na temporada atual de “The Good Fight” e no longa “Adam”, que está na Hulu e na Amazon. Seu álbum visual, “FALLING”, dirigido por Zen Pace e contando com o patrocínio generoso de V Ensler e One Billion Rising, estreou na Paper Magazine este ano. Ela já escreveu sobre questões trans para The Huffington Post, Nylon e Women’s Health. Foi Dramatists Guild Fellow em 2014-2015, segunda colocada na disputa pelo primeiro Billie Burke Ziegfeld Award e finalista do 2019 Sundance Episodic Lab. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.