LGBT
06/07/2020 17:32 -03 | Atualizado 06/07/2020 22:01 -03

J.K Rowling diz que tratamento hormonal de pessoas trans é igual a processos de 'cura gay'

Novos comentários da autora sobre a questão reforçam equívocos sobre pessoas trans, analisa especialista à Reuters.

A autora da saga Harry Potter, J.K. Rowling, enfureceu novamente não só a comunidade LGBT, mas também seus fãs como um todo. Nesta segunda-feira (6), Rowling comparou o tratamento hormonal para pessoas que procuram fazer a transição gênero com tratamentos de terapia de conversão conversão sexual.

“Estamos assistindo a um novo tipo de terapia de conversão para jovens gays”, escreveu a autora em seu perfil do Twitter na noite deste domingo (5), referindo-se a prescrições hormonais para jovens que questionam sua identidade de gênero como os “novos antidepressivos”.

A escritora citou artigos e estudos para afirmar que o uso de hormônios para a realizar a terapia hormonal no processo de transição pode levar a efeitos colaterais sérios, que ela acredita “ativistas ignoram”; ela afirmou que hormônios podem causar problemas com “fertilidade e/ou função sexual completa” e disse que “se o sexo não é real, não há atração pelo mesmo sexo”.

O comentário provocou reação furiosa dos ativistas de direitos trans, que criticaram as observações de Rowling sobre questões que dizem respeito às pessoas travestis, transexuais e transgêneros repetidamente nas últimas semanas

 “A sugestão de que alguém submeta uma criança a um tratamento de mudança de gênero para evitar que ‘cresça gay ou lésbica’ é uma calúnia para todos os pais que cuidam destas crianças”, disse Christine Burns, advogada norte-americana que faz campanha por direitos trans desde os anos 90.

REUTERS

“A noção que ela apresenta em seu comentário é tão fantasiosa que fica impossível abordar em uma ou duas frases. É uma mentira que se sustenta com base em uma montanha de outras mentiras. O mais escândaloso é que essas mentiras não são contestadas. Passam em branco”, disse Burns à Thomson Reuters Foundation.

Procurada pela Reuters, assessoria de imprensa de J.K Rowling disse que não iria se pronunciar sobre.

A autora da série de livros Harry Potter motivou a raiva de fãs e membros da comunidade LGBT no início d junho. Desde então, a escritora está sendo acusada de transfobia por publicar uma série de tuítes em um momento em que protestos contra a discriminação acontecem globalmente.

Os tuítes vieram em resposta a um artigo de opinião do site de desenvolvimento global Devex. Rowling, ressentida com a manchete, que dizia “criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam”, escreveu:

“Pessoas que menstruam’. Tenho certeza que costumava haver uma palavra para essas pessoas. Alguém me ajude? Wumben? Wimpund? Woomud? (modificações propositais da palavra “Woman”, inglês para mulher)”, disse Rowling, neste fim de semana.

Em resposta às críticas, Rowling provocou mais controvérsia ao publicar um artigo em seu site oficial em que vinculava sua experiência com abuso sexual no passado à sua preocupação com o acesso de mulheres trans a espaços exclusivos para mulheres cis. A escritora disse que permitir, por exemplo, o uso do banheiro feminino às pessoas trans é “acobertar predadores”.

O acesso a espaços exclusivos para um sexo, como casas de acolhimento de vítimas de violência e banheiros públicos, por exemplo, são pontos de tensão. Há alegações discriminatórias que apontam que homens poderiam se passar por mulheres trans para obter acesso a esses lugares e cometer violência.

A discussão é mundial e chegou ao STF (Supremo Tribunal Federal), no Brasil. Em janeiro, a expulsão de uma travesti de um banheiro em Alagoas gerou repercussão nacional e reacendeu importância de discussão pela corte. no Brasil, leis locais sobre práticas discriminatórias já garantem o uso do banheiro por trans, mas decisão do STF seria importante ao versar especificamente sobre o tema.

Em resposta aos comentários mais recentes de Rowling, a modelo e ativista trans norte-americana Munroe Bergdorf disse que a escritora é “perigosa” e uma “ameaça às pessoas LGBT”.

“J.K. Rowling não é cientista. Ela não é médica. Ela não é especialista em gênero. Ela não apoia a nossa comunidade”, disse Bergdorf no Twitter. “Ela é uma mulher branca bilionária, cisgênero, heterossexual, que decidiu que sabe o que é melhor para nós e nossos corpos. Esta não é a luta dela”.

Scott Leibowitz, psiquiatra infantil e adolescente do Nationwide Children’s Hospital em Columbus Ohio, disse à Reuters que os comentários de Rowling enviaram uma mensagem preocupante aos jovens trans, muitos dos quais entrariam em contato com a autora por meio de seus livros infantojuvenis.

“Para um jovem trans que deseja buscar aceitação dos membros da família, uma declaração como essa pode dar aos familiares céticos uma razão para rejeitar esse aspecto deles, pensando que eles ‘crescerão com um problema’, porque uma pessoa famosa disse isso”, disse Leibowitz.

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