LGBT
18/10/2020 02:00 -03

Por que 'The Boys In The Band' ainda tem muito a dizer sobre a vida dos homens gays em 2020

Estrelada por Jim Parsons e Zachary Quinto, a nova adaptação do drama gay seminal, dirigida por Joe Mantello, estreou na Netflix recentemente.

Dependendo de para quem você pergunta, a peça The Boys in the Band, de 1968, ou é um marco que captou os sentimentos de homens gays antes da revolta de Stonewall ou é um retrato estereotipado que, em última análise, representa uma traição à comunidade LGBT em geral.

Com esse legado controverso em mente, o diretor Joe Mantello espera que os espectadores abordem sua adaptação cinematográfica de The Boys in the Band como “uma história específica sobre pessoas específicas numa noite específica”, levando em conta os avanços sociais que pareciam fora do alcance de pessoas LGBT na época em que a peça foi escrita.

Dono de dois prêmios Tony, Mantello primeiro dirigiu The Boys in the Band na Broadway em 2018. Dois anos mais tarde, ele e o produtor Ryan Murphy reuniram outra vez o elenco integralmente gay dessa produção – incluindo Matt Bomer, Jim Parsons e Zachary Quinto – para fazer o filme, que estreou na Netflix recentemente. Graças a esse elenco fortíssimo, o novo Boys pode ter ganhado sua versão mais acessível de todas até agora.

“Mart Crowley (autor da peça) identificou determinadas verdades sobre a identidade gay, coisas que, apesar de essa história ser específica de um momento determinado de nossa história, parecem estar muito presentes também hoje”, disse Mantello ao HuffPost.

“Olhando desde uma perspectiva histórica – considerando que foi a primeira peça de teatro sobre a vida de homens gays que fez sucesso junto ao público mainstream e que ainda mobiliza as pessoas mais de 50 anos mais tarde ―, foi uma realização espantosa.”

Netflix
Joe Mantello (primeira fileira, à esquerda) dirigiu a nova adaptação ao cinema de "The Boys in the Band", que estreou na Netflix semana passada.

Ambientado em 1968, o filme acompanha Michael (representado por Jim Parsons), que dá uma festa de aniversário em um loft elegante de Nova York para seu amigo Harold (Zachary Quinto).

Entre os convidados, estão o namorado intermitente de Michael, Donald (Matt Bomer), o decorador de interiores Emory (Robin de Jesús) e o artista Larry (Andrew Rannells), que está em um relacionamento com Hank (Tuc Watkins), que está prestes a se divorciar de sua mulher.

O clima ganha um tom dramático com a chegada do antigo colega de quarto de Michael, (Brian Hutchison), que é casado com uma mulher mas cuja sexualidade é questionável. A noite avança com álcool correndo solto e socos e insultos trocados. Quando o dia amanhece, cada um dos homens terá sido forçado a encarar sua sexualidade e identidade de frente.

Ryan Murphy chamou Joe Mantello – que é gay e tem em seu currículo profissional as peças de teatro queer seminais Angels in America, Love! Valour! Compassion! e The Normal Heart – para dirigir The Boys in the Band na Broadway para o cinquentenário da peça, dois anos atrás. 

Scott Everett White/Netflix
Os astros de “The Boys in the Band” (da esquerda para a direita) Tuc Watkins, Andrew Rannells, Matt Bomer, Jim Parsons, Zachary Quinto, Robin de Jesús, Brian Hutchison, Michael Benjamin Washington e Charlie Carver. Todos os atores são gays.

Juntos, Murphy e Mantello fizeram testes com uma multidão de atores, tanto gays quanto héteros. O fato de cada ator que acabou sendo escolhido ser gay não foi uma decisão intencional, disse Mantello, mas “um acaso feliz”.

“Não nos limitamos a fazer testes apenas com atores declaradamente gays”, ele explicou. “Mas, quando ficou claro que os nove escolhidos eram todos gays, é claro que isso influiu sobre o trabalho. Havia uma espécie de entendimento inato, sem palavras, que eles tinham entre eles e da temática do filme.”

A produção de The Boys in the Band na Broadway foi elogiada pela crítica e recebeu o prêmio Tony de Melhor Revival de uma Peça de Teatro em 2018. Murphy estava ansioso por repetir o mesmo sucesso com o filme.

O filme que vemos na Netflix utiliza o roteiro de Mart Crowley escrito para o filme de 1970 (no Brasil, Os Rapazes da Banda), com atualizações de Ned Martel, e se mantém bastante fiel à peça de teatro.

Crowley morreu em março, aos 84 anos, mas não antes de ter filmado uma ponta no lendário bar gay Julius, em Nova York, para a sequência de abertura. O filme de Mantello é dedicado à memória do dramaturgo.

Netflix
Jim Parsons (à esquerda) e Matt Bomer em cena de "The Boys in the Band".

Crowley “deixou muito claro para nós desde o início que queria que criássemos nossa própria versão da peça. Ele não era superprotetor em relação ao material”, disse Mantello. “Isso não quer dizer que ele não tivesse insights e ideias a oferecer, mas que o processo envolvia generosidade de espírito e confiança.”

Para plateias acostumadas a assistir a obras modernas de temática LGBT, como Com Amor, Simon e Moonlight: Sob a Luz do Luar, o novo The Boys in the Band pode parecer ultrapassado em seus detalhes específicos. Mas o filme está longe de ser uma lição de história seca e desinteressante. Zachary Quinto e Jim Parsons estão altamente espirituosos e irônicos, e a atuação de Michael Benjamin Washington no papel de Bernard, o único convidado negro da noite, é uma revelação. Mesmo a ambientação restrita do filme em um apartamento traz um toque não intencional de nostalgia em meio à pandemia de covid-19.

Embora Mantello seja mais conhecido por seu trabalho no teatro, a Netflix está mostrando ser uma plataforma digna de seu talento, agora que as apresentações ao vivo continuam proibidas devido à crise da covid. Em junho o diretor voltou para diante das câmeras para fazer o papel de Dick Samuels, executivo de estúdio que se mantém no armário no seriado Hollywood, produzido por Murphy, uma visão revisionista da Era de Ouro de Hollywood que recebeu quatro indicações ao Emmy.

Netflix
“Não nos limitamos a fazer testes apenas com atores declaradamente gays”, diz Mantello. “Mas, quando ficou claro que os nove escolhidos eram todos gays, é claro que isso influiu sobre o trabalho.”

Mesmo assim, Mantello está ansioso por voltar ao seu primeiro amor, o teatro ao vivo, assim que for possível fazê-lo em segurança. Na primavera americana deste ano, ele iria dirigir Laurie Metcalf e Russell Tovey em um revival na Broadway de Quem tem medo de Virginia Woolf?. Mas essa produção foi fechada antes de sua noite de estreia, em abril, depois de apenas nove apresentações de pré-estreia, tornando-se uma das primeiras baixas que a pandemia impôs à Broadway.

“Não sinto falta de ir ao cinema, porque nunca senti o cinema como sendo uma experiência coletiva, mas sinto falta enorme do teatro”, disse Mantello. Ele acredita, porém, que o teatro vai continuar e pode até se beneficiar do extenso hiato que lhe foi imposto. “Acho que haverá uma reavaliação geral e que as pessoas voltarão valorizando ainda mais a possibilidade de assistir a uma peça excelente com atores extraordinários”, ele disse.

É impossível prever se o próximo trabalho de Mantello vai se concretizar sobre um palco ou nas telas, mas, seja como for, ele promete que todos seus projetos vão nascer “de uma verdade”.

“Faço coisas que são interessantes para mim, só isso”, disse o diretor. “O mundo vai dizer o que o mundo quiser dizer.”

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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