POLÍTICA
24/01/2019 16:28 -02 | Atualizado 24/01/2019 17:56 -02

Jean Wyllys desiste de mandato na Câmara após sofrer ameaças

Wyllys foi reeleito em outubro deste ano com mais de 24 mil votos e tomaria posse no próximo dia 1º de fevereiro, em Brasília.

MAURO PIMENTEL via Getty Images
“Preservar a vida ameaçada é também uma estratégia da luta por dias melhores”, escreveu Wyllys em sua página do Facebook.

Após sofrer ameaças, o deputado federal Jean Wyllys vai abrir mão de novo mandato na Câmara dos Deputados. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa do PSol, partido do então deputado federal reeleito.

“Preservar a vida ameaçada é também uma estratégia da luta por dias melhores”, escreveu Wyllys em sua página do Facebook.

Eleito pela terceira vez consecutiva, o parlamentar que está fora do Brasil, não deve voltar ao País e pretende se dedicar à carreira acadêmica. 

“Fizemos muito pelo bem comum. E faremos muito mais quando chegar o novo tempo, não importa que façamos por outros meios! Obrigado a todas e todos vocês, de todo coração. Axé!”, finalizou. 

 

Wyllys foi reeleito em outubro deste ano com mais de 24 mil votos e tomaria posse no próximo dia 1º de fevereiro, em Brasília. A assessoria de imprensa informou que o vereador carioca David Miranda, primeiro suplente da bancada do partido no Rio de Janeiro, assumirá o mandato.

Nesta quinta-feira (24), em entrevista à Folha de S.Paulo, Wyllys reiterou que vem sofrendo ameaças constantes e que quer “cuidar de mim, me manter vivo”. 

“O [ex-presidente do Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava ameaçado de morte, falou para mim: ‘Rapaz, se cuide. Os mártires não são heróis’. E é isso: eu não quero me sacrificar”, disse ao jornal. “Para o futuro dessa causa, eu preciso estar vivo. Eu não quero ser mártir. Eu quero viver”, completa.

A trajetória de Jean Wyllys

Durante 8 anos de mandato, o então deputado ― o primeiro assumidamente homossexual ― promoveu debate em diferentes esferas e das conquistas judiciais para a população LGBT, destacando a importância da representatividade LGBT na política no âmbito orçamentário, seja na destinação de emendas ou na participação no debate sobre recursos para políticas públicas que afetem essa população no Brasil.

Ele é autor do projeto de lei sobre igualdade de gênero conhecido como Lei João Nery, inspirado na legislação argentina. O texto facilita a mudança de nome e gênero sem que seja necessário recorrer à Justiça e prevê que tratamentos a pessoas trans deverão ser oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O texto aguarda para ser votado na Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara.

O parlamentar também teve participação significativa dentro dos partidos para provocar o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em 2013 para que as uniões estáveis homoafetivas pudessem ser convertidas em casamento. O pedido foi feito após o STF reconhecer a união estável homoafetiva.

Em entrevista ao HuffPost Brasil em 2018, o político destacou o impacto da atuação fora do Congresso. “O debate legislativo e político está relacionado com as conquistas culturais”, afirmou em referência à representatividade LGBT em obras da televisão.

Perseguição política

Na entrevista à Folha, Wyllys destacou que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) emitiu uma medida cautelar logo depois da eleição exigindo que o Estado brasileiro o protegesse.

Ao longo dos dois mandatos, Wyllys foi alvo de provocações homofóbicas de deputados como o atual presidente Jair Bolsonaro e seu filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Em um dos episódios, na votação do impeachment de Dilma Rousseff, o socialista respondeu com um cuspe.

Em depoimento no Conselho de Ética em 2016 Wyllys afirmou que Jair Bolsonaro o chamou de “queima rosca” e Eduardo Bolsonaro cuspiu nele. “Uma das primeira injúrias praticadas contra nós, homossexuais masculinos, é usar termos femininos para nos ofender porque a homofobia tem a mesma origem do machismo”,  afirmou o socialista.

Aliados lamentam e opositores debocham

A saída do socialista da política foi lamentada por aliados. A deputada federal Sâmia Bomfim (PSol-SP) exigiu o avanço das investigações de ameaças. “Não é normal que uma figura pública se veja obrigada a fugir do país para preservar a própria vida”, escreveu.

Futuro líder do Psol na Câmara, Ivan Valente (PSol-SP) lamentou a campanha de difamação contra o correligionário.

Candidata a vice-presidente em 2018, Manuela D`Ávila (PCdoB) lembrou da trajetória de luta por direitos humanos ao lado do colega. “Você, corajoso como sempre, ao decidir abrir mão do mandato e sair do Brasil desnuda por todos nós, meu amigo querido, o terror em que vivemos, o ambiente fascistoide que tomou conta da sociedade brasileira”, escreveu.

Do outro lado, alguns críticos ao deputado usaram a tag #VaiPraCubaJean para comemorar a decisão de deixar o Congresso. Um dos que celebrou foi o filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ).

O ex-presidente da bancada da bala, Alberto Fraga (DEM-DF), que não se reelegeu, disse que o Brasil fica contente com a saída do parlamentar.

Também derrotada nas urnas em 2018, a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) debochou do destino de Wyllys.