"A única coisa que faço é contar histórias que me representam e representam outras pessoas como eu.”
Carlos Pina for HuffPost
"A única coisa que faço é contar histórias que me representam e representam outras pessoas como eu.”
LGBT
17/06/2019 00:00 -03

O autoconhecimento de Javier Calvo

O ator espanhol de 28 anos quer que outros jovens se sintam livres para expressar sua sexualidade.

Fotos por Carlos Pina

MADRI, ESPANHA – O autoconhecimento pode ser uma jornada solitária – ou algo extremamente compartilhado. Não há meio termo. Para Javier Calvo, ela aconteceu diante de milhões de pessoas na televisão espanhola.

Quando ele tinha 15 anos, foi escolhido para fazer o personagem principal da série de TV Física o Química (Física ou Química, em tradução livre), que virou um sucesso nacional e referência para toda uma geração de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer ou intersexo.

À medida que seu personagem, Fer, foi descobrindo sua sexualidade, Javier foi tomando consciência da dele também. A série “me despertou, sob muitos aspectos”, ele explicou ao HuffPost Espanha. “A transição de Fer foi a minha transição também.”

Javier chegou a seu escritório no centro de Madri, para a entrevista, em uma noite usando um suéter amarelo da grife ASIF, que ele fundou com seu noivo Javier Ambrossi. Sua filosofia de vida pode ser lida na tatuagem que ele ostenta no braço: “Lo hacemos y ya vemos”, ditado popular que se refere à coragem de sempre se arriscar e tentar fazer algo diferente da norma.

O ator de 28 anos ― que não para quieto ― acendeu um cigarro e pegou uma cerveja da geladeira. Eram 21h30 e ele ainda tinha muitas horas de trabalho pela frente.

Em uma parte do escritório sua equipe ainda estava trabalhando na terceira temporada de Paquita Salas, uma comédia tremendamente bem-sucedida que Javier criou com Ambrossi e que apresenta todos os percalços de uma agente de talentos que vive mergulhada em problemas. A série foi lançada na web em 2016, mas acabou sendo comprada pela Netflix posteriormente.

Conhecer Ambrossi mudou a trajetória da vida pessoal e profissional de Javier Calvo. Ele se revelou gay para seus pais, e, com Ambrossi, criou o musical La Llamada (A Chamada, em tradução livre), que estreou em 2013 e acabou vendendo mais de 800 mil ingressos e levando para casa 13 prêmios da Broadway World. O musical também foi transportado para o cinema, e o filme recebeu cinco indicações ao prêmio Goya, o Oscar espanhol.

La Llamada foi reconhecido como Melhor Filme na edição de 2018 dos Prêmios Feroz, a segunda mais importante premiação de cinema na Espanha, e Javier dedicou o prêmio às crianças e adolescentes LGBTQ de seu país.

Com a voz embargada, ele disse: “Se alguém que está me vendo aqui está se sentindo assustado e perdido, pensa que não será amado, essa pessoa deve saber que será amada, que vai encontrar seu lugar, que vai realizar seus sonhos e que Javi e eu vamos escrever histórias para deixá-la inspirada”.

Carlos Pina for HuffPost
"Se alguém que está me vendo aqui está se sentindo assustado e perdido, pensa que não será amado, essa pessoa deve saber que será amada."

Para Javier, essa é a parte mais importante de ser um astro ou estrela: usar sua fama e sua voz para promover a justiça, igualdade e tolerância na sociedade.

A Espanha tem fama de ser um dos países do mundo mais abertos às pessoas LGBTQ; o casamento e os direitos de adoção de casais homossexuais foram legalizados no país em 2005. Mas Javier disse que, quando era garoto, tinha poucos modelos de comportamento a seguir. Apesar de ser uma pessoa perfeita para ser vista como exemplo, ele hesita em assumir essa posição.

“Ser um modelo de comportamento dá a entender que você não é capaz de errar. Mas eu cometo muitos erros, estou aprendendo. A única coisa que faço é contar histórias que me representam e representam outras pessoas como eu.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Espanha e traduzido do espanhol.

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