Jantei num restaurante do Brooklyn, a região mais atingida pelo coronavírus nos Estados Unidos

A ideia de voltar a comer fora é animadora, mas também dá nervoso. Clientes e funcionários correm um risco calculado.

BROOKLYN, NY – Quando o governador de Nova York disse que poderíamos voltar a frequentas restaurantes, ninguém tinha certeza se estava pronto. Existem riscos envolvidos; uma pandemia em uma cidade de 8 milhões de pessoas significa um risco toda vez que você coloca o pé fora de casa.

Há alguns meses, o número de mortos fez do Brooklyn o condado onde houve mais mortes nos Estados Unidos por causa da COVID-19. Paramos de ir ao escritório, paramos de ir a restaurantes, paramos de ver nossos amigos, paramos de sair. Por dias a fio, ouvimos o som constante das sirenes de ambulância ― um lembrete de que o vírus estava silenciosamente matando nossos amigos e vizinhos.

A sensação foi de perder Nova York da noite para o dia. O vírus nos privou de estar perto de outras pessoas, em bares e parques e jantares. Mas concordamos com as restrições, porque entendíamos as implicações de ignorá-las. Sair significava arriscar a nossa segurança e a dos nossos vizinhos. Inicialmente, o vírus estrangulou a cidade de tal maneira que parecia uma irresponsabilidade sair de casa, mesmo que você tivesse a sorte de possuir máscaras, luvas e álcool gel.

Agora, muitas das restrições estão sendo levantadas. O número de mortos e as taxas de novas infecções estão caindo. O governo do estado está reabrindo a economia em fases. Desde o final de junho, quando entrou em vigor a segunda fase, restaurantes podem voltar a funcionar, mas somente com mesas do lado de fora e separadas por pelo menos dois metros. Fiquei muito empolgado. Passei quase quatro meses saindo pouquíssimo de casa, e não fazia um programa com a minha namorada havia muito tempo – a menos que você conte tomar uma garrafa de vinho num canto do parque de cães local.

A gente queria muito sair, e sabíamos que nossos restaurantes favoritos precisavam urgentemente de apoio, mas ainda assim estávamos ansiosos. Já vínhamos fazendo algumas coisas por um certo senso de dever ou porque controlamos os riscos: começamos a fazer caminhadas com amigos no parque (mantendo distância e usando máscara) e participamos dos protestos contra o racismo e a opressão. Foi fácil racionalizar essas saídas.

Mas mergulhar num prato de macarrão do nosso restaurante italiano favorito não parecia algo particularmente necessário ou moralmente justificável.

“A coisa mais perigosa que você pode fazer agora é estar em um espaço fechado com várias outras pessoas, e isso é basicamente um restaurante.”

- - Michael Schall, co-proprietário do Locanda Vini e Olii

As coisas ainda estão muito ruins: 32 000 pessoas morreram no estado de Nova York até agora, e atividades sociais como tomar uma bebida em um bar lotado são comprovadamente perigosas. Como alguns estados norte-americanos ainda estão passando por picos catastróficos de infecções e mortes, não nos sentimos seguros saindo de casa só por causa de uma declaração do governador.

Mas também queríamos ter um gostinho da vida pré-pandemia. Queríamos estar com as pessoas novamente. Tivemos a sorte de manter nossos empregos e nossos salários, apesar dos cortes devastadores no nosso setor e em vários outros. Queríamos esbanjar por uma noite apenas. A de tudo, queríamos um Aperol spritz (ou três) e um prato de ragu de linguiça do Locanda Vini e Olii, um dos nossos restaurantes favoritos do Brooklyn.

Mas o essencial era sentir segurança. E, como se vê, a equipe do restaurante estava enfrentando o mesmo dilema ético e emocional.

<i>O distanciamento social &eacute; importante durante a pandemia do coronav&iacute;rus, especialmente com a reabertura dos estabelecimentos.</i>
O distanciamento social é importante durante a pandemia do coronavírus, especialmente com a reabertura dos estabelecimentos.

“Isso também é novidade para a gente”, disse Michael Schall, sócio do Locanda, por telefone. “O Locanda existe há quase 20 anos e, até alguns meses atrás, era uma máquina. Tudo era coordenado, desde o lugar dos copos ao fluxo do salão. Mudamos tudo para priorizar a segurança.”

Sentimos essas mudanças no momento em que nos sentamos: fomos servidos em pequenas mesas ao ar livre, cada uma a pelo menos 2 metros de distância da outra. Não pisamos no salão interno, onde o risco de infecção seria muito maior. Os garçons estavam de máscaras e ofereciam álcool gel. O cardápio indicava um site que poderia responder a qualquer dúvida alimentar, a fim de minimizar as interações com os funcionários.

“É uma sensação estranha tentar ser hospitaleiro, mas também limitar essas interações”, disse Schall. “Mas queremos que todos, incluindo nossa equipe, sintam que estamos indo além das recomendações. As pessoas estão ansiosas, e com razão.”

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Clientes e empresários estão entendendo como como navegar com segurança a nova realidade das refeições ao ar livre.

Nos sentimos tão seguros sentados naquela mesa ao ar livre quanto num parque. Mas também fomos confrontados com novas questões de etiqueta. Devemos colocar máscara toda vez que conversamos com nosso garçom? Será que postar uma foto causaria problemas a alguém? Seríamos cancelados? Esse tipo de ansiedade permeia a maior parte da vida da cidade agora (mas pelo menos sabemos que a ansiedade diminui em algum lugar entre um martíni e um spritz).

Garantir uma boa experiência a alguns clientes inquietos é só uma das peças do quebra-cabeça para restaurateurs como Schall.

Ele disse que está preocupado com dois grandes problemas. O primeiro é o clima. Quando o tempo esfriar, será que ele será obrigado a depender de novo da venda de comida e coquetéis para viagem? (Os coquetéis de viagem foram uma tábua de salvação durante o confinamento, mas não um plano de negócios sustentável, disse Schall.) A outra é a liberação dos salões internos, com limitações estritas no número de pessoas. Apesar de planejada para julho, a medida ainda não foi implementada em Nova York.

Schall acredita que ainda é cedo para restaurantes de Nova York abrirem seus salões; estados como o Texas voltaram a impor restrições rígidas depois de grandes aumentos no número de infecções associadas a lugares lotados.

“Só porque podemos fazer algo não significa que devemos fazê-lo imediatamente”, disse ele. “Por enquanto, as mesas estão a pelo menos um metro e meio de distância, estão ao ar livre. ... Não dá para ser muito mais seguro que isso. Mas comer do lado de dentro? A coisa mais perigosa que você pode fazer agora é estar em um espaço fechado com muitas outras pessoas, e isso é basicamente um restaurante.”

É uma sensação estranha, tentar justificar uma ida ao restaurante com o espectro da pandemia à espreita. Tudo envolve um risco calculado, começando pelas perguntas que fazemos a nós mesmos antes de sair de casa: Qual é o meu impacto potencial nas pessoas ao meu redor? Como minimizo esse impacto? Esse esforço vale o risco?

Não faz muito tempo que a resposta para essa última pergunta geralmente era “não”. Mas agora que sabemos que nosso lugar favorito também está se preocupando ― e preparando a mesma massa que a gente pedia antes da pandemia – nos sentimos mais à vontade para dizer “sim”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.