19/02/2019 00:00 -03 | Atualizado 19/02/2019 12:05 -03

Janine Rodrigues, a escritora infanto-juvenil que desperta o amor pela literatura

Inspirada pela sua infância e ancorada nas suas preferências, carioca criou produtora e editora focada em promover atividades pedagógicas e culturais em escolas do Brasil.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Janine Rodrigues é a 349ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Ainda na infância, Janine Rodrigues vivia, literalmente, em um cenário que certamente poderia ser de um livro infanto-juvenil: era uma chácara enorme, com pés de frutas que tinha até uma nascente de água natural que ecoava o silêncio e a calmaria do interior. Inspirada por esse lugar “quase mágico”, como ela mesma define, começou a escrever histórias e mais histórias. Até que, mais velha, resolveu tirar (parte delas) do papel. Foi assim que a consultoria em arte-educação e editora Piraporiando nasceu. Com ela, Janine já lançou cinco livros infanto-juvenis e atingiu ao menos 23 mil crianças com projetos de incentivo à literatura que promove em escolas públicas e privadas no País. Até fevereiro de 2019, ela já tinha viajado por mais de 16 estados com o projeto.

A escrita precisa ser livre, não tem como se prender.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
No livro O Reino de Pirapora, Janine se inspirou em uma amiga de infância e escreveu uma história sobre bullying.

A mudança de Janine, ainda criança, para o pequeno distrito de Cardoso Moreira ― que hoje já é considerado um município do estado do Rio de Janeiro ―, aconteceu quando seus pais decidiram sair da loucura de uma grande metrópole. O motivo? O tratamento de diabetes de seu pai.

Naquela cidadezinha ela estudou em uma escola que incentivou o que havia de mais lúdico em sua mente. Mas hoje, aos 37 anos, reconhece que, se não fosse seu cunhado, um professor de português que até hoje tem o hábito de presentear as pessoas com livros, não teria tanta intimidade com eles.

 “Quando meu pai morreu, eu tinha oito anos e meu cunhado se tornou a minha referência de figura masculina. E ele sempre dava ou emprestava livros, sempre fez isso de maneira muito natural. Foram vários elementos que me trouxeram para a literatura, mas ele estar na minha vida fez muita diferença porque foi um incentivo contínuo”, relembra. 

Meus amigos diziam que eu tinha um ótimo emprego, salário e que eu era louca de largar isso para viver de escrever livros.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
“Sou muito grata porque desenvolvi algo que gosto, que é escrever."

Ele regou uma semente que já existia. Janine sempre gostou de escrever. Por essa paixão, mantinha diários, agendas. Registrava tudo. Além de enviar bilhetes e pedidos para a mãe via cartas, claro. Estes últimos, aliás, fizeram com que ela percebesse que se comunicava melhor escrevendo do que falando. E, então, ela nunca mais parou.

“Sou muito grata porque desenvolvi algo que gosto, que é escrever. E por causa da escrita comecei a gostar muito de ler. Também tive sorte de ter uma família que sempre me incentivou, mesmo sendo super tradicional, mas sempre muito afetuosa e que nunca travou meus sonhos”, lembra.

Apesar do amor pela escrita desde a infância, a formação de Janine é em Gestão Ambiental, e foi nessa área que ela trabalhou por 12 anos até arriscar de vez entrar na literatura. Acostumada a apresentar em uma escrita leve e acessível os empreendimentos ambientais e seus impactos, começou a se questionar se poderia lançar um livro.

Incentivada pelos amigos, transformou uma das histórias no livro O Reino de Pirapora, inspirado em uma amiga de infância e que versava sobre bullying. Além de amigos e familiares presentes no lançamento, Janine também teve surpresas:

“Uma professora me convidou a ir até a escola levar o livro e conversar com os alunos. Essa visita se transformou em um projeto de um ano na escola, e foi a partir disso que eu pensei que podia unir em um trabalho o que eu mais amo fazer, que é estar perto da infância, e escrever”, conta.

Eu sou muito grata porque desenvolvi algo que gosto.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Janine define o impacto dos projetos e livros como “responsabilidade e realização”.

Depois desse primeiro ano debatendo bullying e promovendo a leitura na escola, ela viu que não dava mais para voltar atrás. Lançou mais um livro, fez um projeto semelhante em outra escola por mais um ano e começou a preparação financeira para largar o emprego estável na área ambiental:

“Meus amigos diziam que eu tinha um ótimo emprego, salário e que eu era louca de largar isso para viver de escrever livros”, relembra. Mas ela largou, e completa: “Chegou num ponto em que eu precisei fazer uma escolha, porque não dava para investir numa coisa que eu gostava sem tempo”.

Em 2015, a Piraporiando passou a ser também uma editora de livros infanto-juvenis, além de continuar os projetos para discutir temas relacionados à diversidade cultural. Em fevereiro de 2019, a última contagem da empresa dava conta de ao menos 23 mil crianças atingidas pelo projeto, que já alcançou 16 estados.

Uma das frentes de ação da Piraporiando, que hoje conta com mais quatro funcionários, é a capacitação de professores para discutirem em sala de aula os temas levantados pela empresa, como bullying, racismo e diversidade.

“A gente trabalha habilidades emocionais, como a capacidade de ser tolerante, saber conviver, compartilhar, ter paciência e resiliências, e também a diversidade cultural, porque as crianças precisam ter a dimensão de que o Brasil não é o Sudeste”, contextualiza a empresária.

A gente trabalha habilidades emocionais, como a capacidade de ser tolerante, saber conviver, compartilhar, ter paciência e resiliências.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Em fevereiro de 2019, a última contagem da empresa dava conta de ao menos 23 mil crianças atingidas pelo projeto, que já alcançou 16 estados brasileiros.

Janine define o impacto dos projetos e livros como “responsabilidade e realização”.

“Receber e-mails de professores e responsáveis por crianças, do Piauí ao Rio Grande do Sul, é uma responsabilidade. Vejo que a dimensão do trabalho começou na infância mas foi reverberando para outras vidas, então o sentimento também é de realização.”

O que já até rendeu homenagens ao projeto. Ela reconhece que um dia pode escrever uma livro que não se encaixe no estilo atual, até porque tem a prática de só determinar em qual gênero um livro se encaixa quando o finaliza.

O que fortalece a identidade infanto-juvenil da minha escrita é que a coisa que eu mais gosto é a infância.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Janine sente que hoje consegue regar sementes ou plantar novas delas na imaginação de crianças.

“O que fortalece a identidade infanto-juvenil da minha escrita é que a coisa que eu mais gosto de ver, ler e me relacionar na vida é a infância, então isso acaba ficando muito impresso no meu texto”, explica. 

Inspirada também por Ziraldo, além de sua família, Janine sente que hoje consegue regar sementes ou plantar novas delas na imaginação de crianças que estão desenvolvendo seu gosto pela literatura:

“Eles investiram em mim de todas as formas, agora pego tudo e transformo em trabalho”. E a nova geração de crianças e futura geração de escritores te agradece, Janine.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.