ENTRETENIMENTO
19/09/2019 17:36 -03

É impossível ignorar o imenso impacto de 'Jane the Virgin'

A série chegou ao fim, mas merece ser elogiada por sua abordagem à representação latina, sua positividade sexual e protagonistas femininas fortes.

“Como assim, a telenovela vai acabar?” diz a jovem Jane Gloriana Villanueva, sentada no sofá entre sua mãe e sua avó, num flashback no início da final da série Jane the Virgin.

“As novelas sempre acabam”, fala sua avó, Alba. “Mas geralmente é um final feliz. As pessoas do bem recebem o que merecem. E geralmente há um casamento.”

Aviso: spoilers pela frente!

Depois de cinco temporadas que passaram como um turbilhão, a final de Jane the Virgin cumpriu essa promessa da avó, terminando como um conto de fadas moderno. Jane realiza seu sonho de virar escritora de sucesso, com livros publicados; ela se casa com Rafael, após anos de tensão, e cresce ao lado de sua família, numa história intergeneracional sobre a força, beleza e poder das mulheres.

“É raro vermos na televisão três mulheres latinas que estão no comando de suas próprias vidas”, comentou Ivonne Coll, que faz o papel da avó de Jane, no especial de retrospectiva que precedeu o episódio final.

Pelo fato de levar três protagonistas latinas para a tela, mulheres cheias de paixão e defeitos, Jane transformou a paisagem da televisão e levou a representação latinx a espectadores sedentos por isso.

Foi uma proeza transcultural realizada de modo tão natural e sincero que é até difícil lembrar como era o entretenimento antes de essa série virar nossa vida do avesso, em 2014.

Segundo um estudo de 2014 que analisou os papéis oferecidos a atores latinos, em outros programas de TV, os personagens latinos ainda costumam ser principalmente ou criminosos ou pessoas que trabalham para a justiça ou a polícia, como seres hipersexualizados e que trabalham em empregos mal pagos. Por isso mesmo é impossível exagerar o impacto de assistir às hipertalentosas Gina Rodriguez, Andrea Navedo e Ivonne Coll em Jane.

Jane the Virgin foi elogiado, e com razão, por ter levado o gênero da telenovela ao público de língua inglesa. É até possível que seja parcialmente responsável pela popularidade crescente de programas em língua espanhola entre o público anglófono nos últimos anos. Mas, apesar de seu histrionismo inegável, a série – uma adaptação aproximada da telenovela venezuelana Juana, la virgen – satirizou as telenovelas latino-americanas. Ela misturou realismo e drama, oferecendo aos espectadores personagens com quem podiam se identificar e por quem podiam torcer. Todos os elementos se combinaram para formar uma série simplesmente explosiva.

Como jornalista latina, eu não tive a menor dificuldade em me enxergar na personagem de Jane. Vê-la sentada diante do computador, tentando colocar em palavras toda a cacofonia de pensamentos que passavam por sua cabeça, e vê-la às vezes se meter em problemas por inspirar seus escritos em experiências de sua própria vida, todos esses foram momentos com os quais tenho grande familiaridade.

Jane se virou e fez o que foi preciso; ela lutou para poder contar suas histórias. Trabalhou turnos intermináveis no The Marbella, ao mesmo tempo em que procurava uma agente literária e editoras que quisessem publicar seus livros. Assim, quando ela fecha um contrato enorme para um livro no penúltimo episódio da série, depois de nem sequer se sentir à vontade em dizer que era escritora no início da série, você percebe o quanto suas realizações são merecidas.

Mas uma das maiores realizações da série foi o fato de ter revolucionado as conversas sobre sexo e o modo como o sexo é mostrado na televisão. Como Jane, eu cresci numa família católica, recebi todos os sacramentos e interiorizei a mensagem, aprendida na escola primária e secundária católica, que o sexo é um bem de escambo que você dá em troca do casamento.

Por sorte, ninguém nos deu uma flor branca e mandou que a amassássemos, como Alba fez com Jane. Não tivemos que pegar um pedaço de fita adesiva e grudar sobre um companheiro para tentar demonstrar que se depois tentássemos grudar em outra pessoa, não funcionaria, porque a fita teria perdido a capacidade de se colar a outras pessoas, que estaria usada e teria perdido o valor – como nós estaríamos depois de “entregar” nossa virgindade.

Tampouco nos mandaram tirar uma balinha de menta da embalagem e passá-la para todos na sala, um exercício cuja finalidade era mostrar que quanto mais pessoas colocassem as mãos no doce – e em nós ―, mais ele ficava sujo e indesejável – e que a mesma coisa aconteceria conosco. No meu caso, simplesmente não falávamos de sexo, e, ao ignorar sua existência, o sujávamos ainda mais.

Para uma mulher jovem e fácil de impressionar que não recebia mensagens positivas sobre sexo de ninguém naquela época, Jane the Virgin foi algo completamente novo, instigante. Pela primeira vez eu não estava assistindo a alguma coisa que me fazia sentir que eu não tinha autonomia. Estava vendo um seriado sobre uma garota que não precisava combater a influência da religião sobre uma das decisões mais pessoais da nossa vida.

Jane espera até se casar com Michael para fazer sexo. É uma decisão que ela acaba decidindo que foi a correta para ela, mas o fato é que o espectador viu uma jovem feminista complexa tentando separar suas crenças das de sua avó, desaprender as normas patriarcais e conciliar o fato de ser uma mulher de fé com ser uma mulher capaz de realmente sentir prazer com o sexo.

E a positividade sexual não é reservada apenas a Jane. Alba, que ainda sente vergonha de ter transado antes de se casar, tem sua própria jornada de conscientização a seguir, na qual Jane a ajuda a comprar um vibrador. Foi uma história que empoderou os espectadores, mostrando que podemos crescer e amadurecer em qualquer idade.

Pelo fato de a série ter conseguido um equilíbrio delicado entre a representação latinx americana e uma trama novelesca hiperdramática, cheia de viradas inesperadas, Jane conseguiu abordar algumas das questões mais espinhosas de nossos tempos de modo nuançado e sem didatismo.

Em Chapter Sixty-One, Alba está contabilizando os artigos comprados por uma freguesa na loja de presentes The Marbella, enquanto sua colega ajuda uma freguesa de língua espanhola a encontrar uma loção. Antes de sair da loja, a freguesa de Alba fala à outra mulher: “Estamos nos Estados Unidos. Você devia aprender a falar inglês.”

Alba, que é imigrante venezuelana, fica chocada e não consegue responder na hora, mas ao voltar para casa sua indignação se converte em raiva.

“Sabe o que eu deveria ter dito? “ ‘Nós, o povo dos Estados Unidos’”, ela fala, para então recitar o começo do texto da Constituição. “Você acha que ela conhece esse preâmbulo?”

Foi especialmente a personagem de Alba que impulsionou a representação latinx na televisão, já que ela falou quase exclusivamente em espanhol, apesar de a série ser falada em inglês, com essa exceção, e ser voltada a plateias de língua inglesa. 

Richard Shotwell/Invision/AP
A partir da esquerda: Justin Baldoni, Gina Rodriguez, Ivonne Coll, Andrea Navedo, Jennie Snyder Urman, Yael Grobglas, Jaime Camil e Brett Dier, do elenco de Jane the Virgin.

Abrangendo desde o multiculturalismo até a xenofobia e o aborto, as tramas se encaixaram perfeitamente no momento cultural atual, razão porque Jane sempre pareceu instigante e relevante. Igualmente importante, a série é cômica e irônica.

O pai de Jane, o bombástico Rogelio De La Vega (Jaime Camil), queria virar ator de telenovela nos Estados Unidos. Sua trajetória mostra todas as dificuldades enfrentadas por quem tenta penetrar numa indústria onde os latinos são tremendamente subrepresentados – uma trama bastante meta. Mas Rogelio alcança seu objetivo e acaba fazendo sucesso com a plateia americana no final da série com o episódio piloto de This Is Mars.

Dado o lugar que Jane ocupou na minha vida nestas últimas cinco temporadas, é estranho pensar que quase parei de assistir à série após a morte de Michael.

Como a série poderia se recuperar depois de matar o grande amor da vida da protagonista titular pouco depois de eles se casarem? Michael (Brett Drier) já tinha superado tanta coisa no relacionamento deles. Os dois superaram a inseminação artificial acidental de Jane que a deixou grávida de outro homem; superaram o sequestro do filho por um chefão do crime, e, possivelmente o mais difícil de tudo, superaram o triângulo amoroso que é um elemento tão clássico da televisão. Jane acabou escolhendo Michael em vez de Rafael (Justin Baldoni), o bonitão pai de seu filho Mateo.

Você pode argumentar que quando a série chegou à terceira temporada, eu já devia estar mais cética e ter percebido que os roteiristas estavam brincando comigo e me fazendo sentir todas as emoções enquanto eles próprios se matavam de rir em alguma redação de Los Angeles.

Mas, enquanto muitos espectadores desconfiavam que Michael na realidade não tinha morrido, eu fiquei ruminando sobre a injustiça da vida e a crueldade desses roteiristas. Foi apenas quando a série voltou que eu percebi que os roteiristas já estavam pensando muito para frente. E mesmo assim eu não poderia ter previsto todas as outras 2.946 viradas e reviravoltas que ainda estavam por acontecer. (Para que fique claro: agora sou totalmente a favor de Rafael, e se você não for, talvez seja o caso de reavaliar sua vida.)

Depois de sofrer de amnésia induzida pelo acima mencionado bandido, Sin Rostro, Michael já não é a mesma pessoa que antes. E parece estar superfeliz com Charlie (Haley Lu Richardson) ― que, em mais um detalhe perfeito, é a noiva de Drier na vida real.

Mas, apesar de eu ter passado tanto tempo falando dos homens da série – tenho que admitir que eles são um aspecto importante da trama ―, Jane sempre foi muito mais do que apenas um drama caracterizado pelas eternas perguntas do tipo “será que eles vão...?” ou “quando é que eles vão...?”.

“A série trata de muitos aspectos interessantes do significado de ser uma heroína”, disse Baldoni no especial de flashbacks. “ Jane the Virgin pega uma pessoa comum e a converte em heroína.”

É difícil aceitar que o narrador cheio de opiniões próprias – que, na final, ficamos sabendo que é Mateo – disse “Fim” de modo definitivo nos derradeiros segundos da final. Mas Jane the Virgin ofereceu a muitos de nós uma oportunidade de nos vermos na tela – não apenas como somos hoje, mas como as pessoas que temos o potencial de nos tornarmos.

E, por causa disso, a série vai continuar viva.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.