OPINIÃO
18/03/2020 23:39 -03 | Atualizado 19/03/2020 08:25 -03

Janaina Paschoal, Olavo de Carvalho e a misoginia que atinge as mulheres na política

“Tudo pela saúde. Evitem o contágio: não comam a Janaina Paschoal”, disse Olavo de Carvalho em postagem no Facebook.

Em 2018, houve um aumento significativo na bancada feminina no Congresso Nacional. Mas em um País de cultura predominantemente machista, é difícil acreditar que o tratamento dado a uma mulher no campo da política seja equivalente à abordagem que um homem recebe em um cargo de poder.

“Tudo pela saúde. Evitem o contágio: não comam a Janaina Paschoal.” A frase é do autointitulado filósofo Olavo de Carvalho que, nesta semana, deu um exemplo da violência política de gênero que mulheres — seja com orientação à esquerda ou à direita — sofrem quando ocupam parlamentos pelo Brasil.

Nesta segunda-feira (16) à tarde, depois que a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) pediu, em plenário, o afastamento do presidente Jair Bolsonaro por julgar que ele vem minimizando os efeitos do surto do novo coronavírus no País, Olavo fez uma publicação ofensiva contra ela.

O “guru” do presidente Jair Bolsonaro se sentiu autorizado a desvalorizar a deputada, utilizando-se da exposição de sua sexualidade, após Paschoal ter afirmado que o mandatário deve sair do cargo por ter contrariado seu próprio ministro da Saúde e, em meio à pandemia de coronavírus, ter tocado em apoiadores durante manifestação no último no domingo (15), em Brasília.

“Esse senhor tem que sair da Presidência da República, deixa o [Hamilton] Mourão, que entende de defesa, conduzir a nação”, pediu a deputada no plenário da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo).

Paschoal acusou Bolsonaro de ter cometido crime contra a saúde pública ao estimular os atos do último domingo e ao participar da aglomeração. 

“Como um homem que está possivelmente infectado vai para o meio da multidão? (...) Ele está brincando? Ele acha que pode tudo? As autoridades têm que se unir e pedir para ele se afastar. Não temos tempo para um processo de impeachment”, disse a deputada na Alesp.

O presidente, na época, estava sob suspeita de ter contraído a covid-19. Ao menos 12 pessoas que se encontraram com ele recentemente estão com a doença. O resultado de seus dois testes, segundo o Planalto, deu negativo.

O Brasil tem 291 casos confirmados da doença, segundo último balanço oficial do Ministério da Saúde, mas a contagem das secretarias estaduais de Saúde indica mais de 500 infectados.

EVARISTO SA via Getty Images
A deputada estadual Janaina Paschoal, durante votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

Na campanha de 2018, Janaina foi cotada para ser vice de Bolsonaro. Em seu discurso, ela afirmou, pela primeira vez, que se arrependeu de ter votado nele. Em outras ocasiões, a deputada já havia feito críticas a Bolsonaro e nega o título de “bolsonarista”, apesar de manter apoio ao governo federal. 

Autora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff (PT), a advogada e professora da USP (Universidade de São Paulo) teve mais de 2 milhões de votos em sua eleição para deputada estadual, se consolidando como a deputada mais votada da História - tanto em âmbito estadual e federal.

Dando continuidade à violência e à misoginia - que é a expressão máxima do ódio às mulheres, não só às que ocupam cargos de tomada de decisão - nos comentários, seguidores de Olavo de Carvalho também atacaram a deputada.

“Essa nem cobrindo com a bandeira do Brasil e evocando o patriotismo”, escreveu uma mulher, seguidora do “filósofo”. “A plataforma dela é essa: histerismo, extremismo”, comentou um fã de Olavo. “Sempre tem um herói para essas missões”, postou um terceiro. “A cobra velha vai provar do seu próprio veneno”, postou outro. “Se ela passasse um batom pelo menos...”, disse outro.

Estes comportamentos ofensivos, perseguições e agressões cometidos contra mulheres que ocupam cargos no universo da política servem como combustível que inflamam a violência política de gênero a qual elas são submetidas - seja quando se posicionam, levantam sua voz, ou ocupam o ambiente parlamentar. 

Neste contexto, especialistas apontam que ataques são sempre relacionados à aparência da mulher, a um suposto descontrole emocional - que a coloca como histérica ou louca - ou são ligados à sua sexualidade. Os dois últimos exemplos aconteceram com Janaina. O primeiro, em 2016, no impeachment da ex-presidente Dilma, e agora, ao fazer críticas às ações de Jair Bolsonaro.

Apesar de não se reconhecer - e por vezes até criticar o movimento feminista -, a deputada não deixa de ser alvo de ataques que ferem sua integridade por ser mulher. No passado, uma das reivindicações centrais da primeira onda do movimento, que se alastrou pelo mundo a partir do século 19, foi o direito ao voto. Hoje, o direito ao voto é garantido, mas uma vida sem violência, não.

Alê Silva, deputada federal pelo PSL-MG, disse recentemente ao HuffPost Brasil, que apoia a aprovação do sistema de cotas para as mulheres - algo que, antes, era rechaçado por ela.

“Sou a favor, dadas as grandes desvantagens que nós enfrentamos lá fora e aqui dentro no meio político, que ainda é altamente machista. Eu era contra. Depois do que eu vivi aqui dentro, senti na pele toda a agressão psicológica, eu comecei a pensar que realmente se não existissem as cotas, nem as 77 deputadas estariam aqui. Não tenho a menor dúvida”, afirmou à época.

Na última eleição, a bancada feminina saltou de 51 para 77 integrantes, o maior patamar até o momento. Apesar do recorde, o Brasil ainda está distante da equidade de gênero na política. Ocupamos a 132ª posição na lista de 192 países que mede a representatividade feminina na Câmara dos Deputados, divulgada pela Inter-Parliamentary Union.

Acolhedor e dono de uma retórica que deslegitima parlamentares e jornalistas mulheres, o clã Bolsonaro e seu guru de primeira hora se mostram cada vez mais misóginos e ofensivos a elas. Enquanto a reação sobre o discurso de uma mulher que se posiciona frente a algo no mundo da política institucional, independentemente do partido que ocupa, for chamá-la de louca, atacar seu corpo e sexualidade, só haverá retrocesso.