LGBT
08/06/2019 11:32 -03 | Atualizado 09/06/2019 11:49 -03

50 anos após Stonewall, James Green diz ser 'obrigação' ir contra onda conservadora no Brasil

Em entrevista ao HuffPost Brasil, ativista e professor da Brown University lembra da revolta que foi um marco para a população LGBT nos EUA e no mundo.

Arquivo Pessoal
James Green é ativista, professor de história latino-americana e brasileira da Brown University e coordena movimento sobre a atual conjuntura política do Brasil.

Poucas pessoas podem dizer que viram nascer um movimento que mudou a cara do mundo para sempre. O ativista LGBT norte-americano James Naylor Green, de 68 anos, não só viu, como participou e organizou alguns desses fenômenos, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.

Em 1969, aos 18 anos, Green era um universitário no estado americano da Indiana quando a Revolta de Stonewall estourou em Nova York, mas, mesmo assim, acompanhou de perto o movimento, que é considerado marco para a população LGBT não só nos Estados Unidos, mas no mundo. Quatro anos depois ele se assumiria como homem gay ao participar da Parada de NY. 

“Foi mais uma reação geral da juventude gay, lésbica e trans da cidade. Não se confiava na polícia, ela era o inimigo, e a reação se deu contra a violência policial”, afirma o hoje professor de história latino-americana e brasileira da Brown University, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Arquivo Pessoal
James Green na frente da fachada do bar Stonewall In, em Nova York.

Em 28 de junho de 1969, a polícia de Nova York invadiu o bar Stonewall Inn, localizado em Manhattan, e conhecido por ser um dos poucos locais que aceitavam a presença de gays, lésbicas, trans e drag queens. Essa população, à época, era mais do que marginalizada: até 1962, manter relações com pessoas do mesmo sexo era crime em todos os Estados norte-americanos.

Após a invasão, houve uma série de reações violentas dos membros da comunidade, o que desencadeou em um marco histórico na luta pelos direitos LGBT. É por causa desta revolta que o mês LGBT é comemorado em junho e que o “Dia do Orgulho” para esta população é celebrado no dia 28.

Segundo Green, a reação no Brasil chegou alguns anos depois, por conta da repressão da ditadura militar, vigente na época.

“As condições sociais estavam dadas para o movimento surgir muito antes. Porém, em 1968, tivemos o AI-5, o Congresso fechado, a repressão e a impossibilidade de qualquer grupo praticar atividades políticas”, aponta.

Cinco décadas depois, a Parada LGBT de São Paulo, que reunirá centenas de milhares de pessoas na Avenida Paulista no dia 23, será especialmente simbólica, por ser o primeiro evento do tipo no governo Bolsonaro e ter como tema justamente os “50 anos de Stonewall”.  

Green, que também coordena um movimento internacional nos Estados Unidos para informar sobre a atual conjuntura política do Brasil, demonstra entusiasmo para seguir militando em favor dos direitos LGBT em meio ao reforço do discurso conservador no País. ”É uma obrigação política responder a essa situação.”

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Como foi seu envolvimento nos acontecimentos que culminaram na Revolta de Stonewall, em 1969, nos Estados Unidos?

James Green: A primeira parada que eu participei foi a de 1973, quatro anos depois de Stonewall. Eu não estava em Nova York [durante as revoltas de Stonewall], estava na Universidade, em Richmond, e era ativista contra a Guerra do Vietnã. Só fui me assumir [como homem gay] ao participar da Parada de NY, mais tarde. Mas eu fiz parte do movimento LGBT nos Estados Unidos antes de chegar no Brasil.

 

Como era o clima naqueles primeiros anos após a revolta?

Alegria total e mobilização. Era o momento de beijar homens bonitos, paquerar, curtir o corpo, a sexualidade, depois ir para a boate e dançar por horas, transar… Foi maravilhoso. Ainda era a época hippie, então os homens tinham cabelo comprido, tudo era muito colorido, as mulheres feministas e as lésbicas assumindo uma postura mais radical. Estavam crescendo fortemente os grupos organizados, começando em outros lugares. Eu morava na Filadélfia, fazia a Parada lá uma semana antes da de Nova York.

 

Então a tensão dos confrontos com a polícia já havia se dissipado?

Existem muitos mitos sobre Stonewall. Antes de 1969 havia diversos bares gays e lésbicos, travestis participavam da vida de rua em Nova York. Era um verão quente e a juventude andava pelo Greenwich Village de noite para sair, tomar um sorvete, beber uma cerveja. Havia muitas mobilizações acontecendo: dos negros, das mulheres, contra a Guerra do Vietnã. Foi mais uma reação geral da juventude gay, lésbica e trans da cidade. Não se confiava na polícia, ela era o inimigo, e a reação se deu contra a violência policial. Já em 1970 era outra coisa, um movimento de afirmação da nossa sexualidade, nossa maneira diferente de entender as questões de gênero.

 

Desde o começo esse caráter festivo que a gente encontra nas paradas do Brasil já estava presente nas edições americanas?

Como sempre houve no Brasil, lá era uma combinação de militância e festa. No primeiro ano, tinha pessoas com cartazes, faixas, e também um clima festivo. Mas tem uma diferença fundamental: como a sociedade civil americana e o movimento LGBT+ são mais organizados nos EUA, as paradas são oficiais, têm um caráter formal demais. Você precisa registrar seu grupo e desfilar com ele em determinada ordem. Pode ter carro de som, mas como se fosse um bloco no sambódromo. No Brasil é uma confusão. As pessoas vão em volta do carro de som com o grupo que quiserem, é mais misturado, informal e, nesse sentido, é melhor. Mais bonito e participativo.

 

O início da mobilização por direitos LGBT no Brasil

 

A primeira edição da Parada de São Paulo aconteceu em 1997, mas a organização do movimento começou a tomar forma no País no final da década de 1970, inicialmente lutando pelos direitos de gays e lésbicas. À época, diversos movimentos sociais e grevistas ganharam força na luta pela redemocratização do País, que vivia, desde 1964, uma ditadura militar. Dentre as forças políticas que se engajaram nessa mobilização pelos direitos civis e pela cidadania, estava o então chamado “movimento homossexual”, formado majoritariamente por homens gays.

 

Entre o final de 1978 e o início de 1979, é criado o primeiro grupo de mobilização por direitos, o “Somos - Grupo de Afirmação Homossexual”. O grupo se manifestou em público pela primeira vez durante um debate promovido pela Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), em 1979, abrindo caminho para que outras organizações se estruturassem nos anos seguintes. Em 1980, ocorre o primeiro encontro de grupos homossexuais organizados.

 

Nesse mesmo ano, o Somos se divide e surge o primeiro grupo exclusivamente lésbico, o Grupo de Ação Lésbica Feminista (GALF). Em 1981, é fundado o ChanacomChana, primeira publicação ativista lésbica do Brasil. O jornal era comercializado no Ferro’s Bar, mas, em 1983, os donos do estabelecimento expulsaram as ativistas do local. No dia 19 de agosto do mesmo ano, o GALF organiza um ato político no local que resulta no fim da proibição da venda do jornal. O episódio é muitas vezes lembrado como o “Stonewall brasileiro”. Por causa dele, no dia 19 de agosto comemora-se o Dia do Orgulho Lésbico no Estado de São Paulo.

 

Leia mais sobre a mobilização no Brasil aqui.

 

Como foi sua vinda para o Brasil e o envolvimento com grupos LGBT?

Eu conheci o escritor brasileiro João Silvério Trevisan em Berkeley [na Califórnia]. Tivemos um caso, e eu fui passar um tempo em São Paulo. Me envolvi com um cara de um movimento e acabei entrando para essa organização. Tive que ir aos Estados Unidos para renovar meu visto e quando voltei, em 1978, já estava sendo fundado o grupo Somos. Acabei dirigindo uma ala progressista que queria formar laços com outros movimentos sociais que surgiam nesse momento. Eu queria criar conexões com os movimentos feminista, o negro e o operário, que representava o movimento sindical e as greves do fim dos anos 1970.

 

Qual foi o seu papel na primeira parada realizada por aqui?

Cheguei no Brasil em 1976 já militante LGBT+, e levei essa experiência quando entrei no Somos. Participei por 5 anos. Eu fui a pessoa que propôs fazer a primeira parada, em 1980. Estava nervoso, levantei e falei que propunha que nós organizássemos uma parada em 28 de junho, o dia da luta homossexual de Stonewall. O pintor Darcy Penteado disse que era uma cópia americana, que deveríamos fazer no 7 de setembro, mas não colou. Na realidade, nesse mesmo ano, houve a primeira mobilização contra o delegado [José Wilson] Richetti [e sua “Operação Limpeza”]. A gente acabou fazendo um ato antes do dia 28 de junho, no dia 13, que foi a primeira parada do movimento. Tinha entre 800 e mil pessoas. Foi o ano que o movimento floresceu com 15 grupos, e aconteceu esse evento contra a repressão policial, exatamente como em Stonewall.

REPRODUÇÃO/A HISTÓRIA DO MOVIMENTO LGBT BRASILEIRO
Protesto contra "Operação Limpeza" promovida pelo delegado José Wilson Richetti no centro de São Paulo, 13 de junho de 1980. Desde abril daquele ano, as polícias civil e militar vinham prendendo e espancando prostitutas, travestis e homossexuais em SP.

 

Por que só dez anos depois é que essa mobilização chegou no Brasil? Houve algo que motivou esse atraso?

Não é questão de chegar atrasado. As condições sociais estavam dadas para o movimento surgir muito antes. Porém, em 1968 teve o AI-5, Congresso fechado, a repressão e a impossibilidade de qualquer grupo praticar atividades políticas abertas. Havia grupos em Buenos Aires entre 1967 e 1968, e as mesmas condições que permitiram o surgimento e estabelecimento desses grupos na Argentina aconteceram no Brasil, mas não eram possíveis pela repressão. Quando começa o processo de abertura, a partir de 1974, há tentativas de organizar grupos, mas ainda sob censura, pessoas sendo presas. Em 1977 tentaram novamente, e estudantes da USP foram presos e torturados. Então 1978 é o primeiro ano depois das últimas repressões diretas de tortura. E surge de maneira muito vigorosa nos primeiros anos, com crescimento rápido.

 

Mas logo enfrentou um grande desafio que foi a epidemia de AIDS...

O fato de terem sido fundados grupos no fim dos anos 1970 formou as primeiras pessoas com experiência política de afirmação das sexualidades para poder enfrentar a doença. Então foi muito importante. Aprenderam a fazer atuação política e a combater a homofobia embutida nas primeiras reações, tanto do governo quanto da sociedade civil, contra as pessoas vivendo com HIV e AIDS. Os governos Sarney e Collor tinham políticas horríveis para HIV, houve brigas muito fortes para exigir do Estado uma resposta. Foi uma época difícil e só nos anos 1990 é que foi ter uma segunda onda de crescimento dos movimentos, culminando na parada.

NurPhoto via Getty Images
Todos os anos, a Parada LGBT de São Paulo, que reúne centenas de milhares de pessoas na Avenida Paulista.

 

A ala conservadora que chegou ao poder no Brasil hoje, ao mesmo tempo que é obrigada a conviver com o sucesso de fenômenos como a drag queen Pabllo Vittar, insiste em um discurso que é preocupante para a população LGBT. Também parte desse grupo consome vídeos de pornografia na categoria transexuais. O brasileiro é reprimido?

Não existe um brasileiro, existem brasileiros, muitos tipos de valores culturais, de alta complexidade. A sociedade católica tradicional reprimia, a moral conservadora contra o pecador nefasto reprimia. No final do século 19, a Praça Tiradentes era um lugar de pegação, eles estavam lá contra um costume em uma cultura marginalizada. Só nos anos 1950 é que essas pessoas começaram a ficar mais visíveis.

A partir dos movimentos políticos de conquista do espaço, sem ficar escondido, provocou-se uma reação dos setores que querem voltar a um passado que não existe, que eles imaginam que estava tudo perfeito com a família heterossexual. É uma reação que está sendo representada por Bolsonaro e seus discursos. De um lado a gente tem a parada, e do outro Bolsonaro: os dois convivem no Brasil.

 

Você, que tem todo esse histórico de luta e militância, está desmotivado?

Totalmente motivado. Chamei vários americanos nos Estados Unidos e no Brasil, convoquei uma reunião na Columbia Law School, e fundamos a “U.S. Network for Democracy in Brazil”, uma rede nos Estados Unidos pela democracia no Brasil, da qual eu sou coordenador geral. Estamos com 1.500 filiados em nível nacional, temos contatos em 235 universidades de 45 estados. Ou seja: estou animado para ir com toda a força contra o Bolsonaro. São essas pessoas que o enfrentaram e ele ficou com medo de ir a Nova York para receber o prêmio (...) Eu não queria assumir essa batalha, queria escrever outros livros, ter uma vida acadêmica deliciosa, mas é uma obrigação política responder a essa situação.

 

Como você vê a militância da comunidade LGBT no atual contexto?

O Bolsonaro foi eleito. Vai ser horrível? Vai. Mas é uma indicação de que a gente já tem tanto poder que eles estão fazendo qualquer coisa para nos eliminar. Só que não vão conseguir. É um processo, uma sucessão de derrotas, mas estamos começando a recuperar, e o primeiro sinal foram as mobilizações maciças do dia 15 contra os ataques às universidades. Eu acho que as paradas desse ano serão outro sinal de que o movimento está respondendo. O fato de o STF ter tido essa posição maravilhosa [sobre a criminalização da homofobia] também é uma indicação de que a gente já ganhou o debate, é só uma questão de paciência e vigilância.