POLÍTICA
12/03/2019 20:57 -03 | Atualizado 12/03/2019 21:04 -03

'Tenho fotos com milhares de policiais', diz Bolsonaro sobre imagem com ex-PM preso no caso Marielle

Escândalos recentes sugerem proximidade da família Bolsonaro com milicianos, mas investigadores têm cautela sobre caso Marielle.

Ueslei Marcelino / Reuters
"Não conhecia ela apesar de ela [Marielle] ser vereadora lá com o meu filho no Rio de Janeiro. E também estou interessado em saber quem mandou me matar”, disse Bolsonaro.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) teve que responder nesta terça-feira (12) sobre uma foto em que aparece ao lado de Élcio Vieira de Queiroz, ex-policial militar preso horas antes por suposto envolvimento com a morte da vereadora Marielle Franco, em 2018.

“Eu tenho fotos com milhares de policiais, do Brasil todo”, disse a jornalistas.

A foto tinha sido publicada em um perfil no Facebook atribuído a Queiroz, e que foi deletado ao longo do dia. Segundo a revista Veja, a imagem é de 2011, antes da expulsão de Queiroz da PM, em 2015, e faz parte do material em poder da polícia.

A família Bolsonaro se viu recentemente envolvida em escândalos que expuseram a proximidade do clã com ex-policiais associados a milícias (leia mais abaixo), mas os investigadores têm sido cautelosos para não dar um passo além com relação a uma possível ligação entre a família e os suspeitos da morte da vereadora.

Além de Queiroz, que, segundo o Ministério Público do Rio, dirigia o Cobalt prata usado na emboscada, também foi preso nesta terça (12) o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, suspeito de ter disparado a arma que matou Marielle e seu motorista, Anderson Gomes.

Lessa foi preso em sua casa, no condomínio de Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, onde o presidente Jair Bolsonaro também tem casa - mas isso não passa de uma coincidência, segundo o Ministério Público. 

“Não há nenhum fato que diga que tem alguma vinculação. Muito pelo contrário, não temos controle dos nossos vizinhos. Até esse momento, o fato foi coincidência”, disse a coordenadora do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP-RJ, Simone Sibílio.

Em entrevista coletiva, o delegado responsável pela investigação do assassinato de Marielle, Giniton Lages, disse que que uma filha de Lessa teria sido namorada de um dos filhos do presidente.

“Isso tem [namoro], mas isso, para nós, hoje, não importou na motivação delitiva. Isso vai ser enfrentado num momento oportuno. Não é importante para esse momento”, afirmou Lages, segundo o Valor Econômico, em resposta a um jornalista. Não ficou claro, na declaração do delegado, quem seria o filho de Bolsonaro que namorou uma filha de Lessa.

Nesta terça, Bolsonaro disse esperar “realmente que a apuração tenha chegado de fato a esses [dois presos], se é que foram os executores, e o mais importante: quem mandou matar”.

O presidente, no entanto, aproveitou o momento para dizer que também “está interessado em saber quem mandou” matá-lo. Bolsonaro foi alvo de um atentado a faca em setembro, durante a campanha e correu grave risco de vida. O autor do crime, Adélio Bispo, tinha sido filiado ao PSol, mesmo partido de Marielle, e não raro Bolsonaro e os filhos sugerem envolvimento do PSol com o atentado. 

“Eu conheci a Marielle depois que ela foi assassinada. Não conhecia ela apesar de ela ser vereadora lá com o meu filho no Rio de Janeiro. E também estou interessado em saber quem mandou me matar”, disse.

 

Proximidade dos Bolsonaro com milícias

Em janeiro, foi revelado que a mãe e a esposa do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, alvo do Ministério Público pela suspeita de chefiar o Escritório do Crime, foram empregadas no gabinete do senador e ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). A organização, especializada em assassinatos por encomenda, é investigada pela morte de Marielle.

Nóbrega foi homenageado duas vezes por Flávio, então deputado estadual. Na primeira, em 2003, o filho de Jair Bolsonaro ressaltou o “brilhantismo e galhardia” do ex-integrante do Bope. Em 2005, Flávio indicou Nóbrega para receber a Medalha Tiradentes por sua atuação em uma operação no Morro da Coroa, em 2001.

O próprio Jair Bolsonaro já defendeu abertamente a atividade das milícias. Em 2003, na tribuna da Câmara, disse que “enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio será muito bem-vindo”. Em, fevereiro de 2018, já em campanha, disse à rádio Joven Pan que “na região onde a milícia é paga, não tem violência”. 

 

Delação premiada

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, disse, nesta terça, que os suspeitos do assassinato de Marielle presos poderão fazer delação premiada.

Ele explicou que a Polícia Civil utilizou métodos criados pela Operação Lava-Jato para poder chegar aos nomes dos dois presos.

“A Lava-Jato tem sido um exemplo. A investigação tem de ser fragmentada para que resultados apareçam. Tenho certeza de que nós avançamos muito e vamos avançar mais ainda”, disse o governador durante a entrevista coletiva no Palácio Guanabara.

A operação batizada de Operação Buraco do Lume também apreendeu documentos, telefones celulares, notebooks, computadores, armas, acessórios, munições e outros objetos.

O GAECO/MPRJ pediu ainda a suspensão da remuneração e do porte de arma de fogo de Lessa, além de indenização por danos morais aos familiares das vítimas e a fixação de pensão em favor do filho menor de Anderson até ele completar 24 anos.

Na denúncia, as promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile afirmam que o crime foi “meticulosamente” planejado três meses antes do atentado, de acordo com o jornal Extra. “A barbárie praticada na noite de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito”, escreveram.

Negra, feminista, lésbica e nascida na Favela da Maré, Marielle atuava no combate à desigualdade social, racial e de gênero.

Ainda segundo o jornal, a principal prova colhida que permitiu a operação desta terça foi acessada a partir da quebra do sigilo dos dados digitais do PM.

De acordo com os investigadores, o suspeito monitorava a agenda de eventos que Marielle participava. A polícia e o MP também colheram depoimentos de informantes, inclusive presos no sistema carcerário.

O inquérito está desmembrado em duas partes. A primeira, transformada em denúncia, identifica os atiradores. A segunda, em andamento, busca os mandantes do crime. De acordo com o Extra, os investigadores sabem que havia três pessoas dentro do veículo.