ENTRETENIMENTO
28/08/2019 03:00 -03 | Atualizado 28/08/2019 03:00 -03

Agora é a hora de Jack Quaid brilhar

Filho de Meg Ryan e Dennis Quaid, o ator tenta desmascarar um grupo de super-heróis problemáticos em "The Boys".

Jack Quaid me lembra alguém.

Vendo-o em algumas cenas do piloto da série The Boys, da Amazon, fiquei pensando que ele parecia um misto de Joshua Jackson e Adam Brody – um pouco da confiança de Pacey Witter e uma pitada do senso de humor de Seth Cohen.

Até que percebi algo muito óbvio: ele se parece muito com seus pais famosos.

“A genética funciona sim”, Quaid me disse quando rimos de sua semelhança realmente marcante com sua mãe, Meg Ryan, e seu pai, Dennis Quaid, quando falamos ao telefone algumas semanas atrás. “Já me disseram que sou metade um, metade o outro, e acho que é isso mesmo.”

Apesar de ser filho da rainha das comédias românticas de Hollywood e do ex-marido dela, o ator com o sorriso de muitos megawatts (o casamento deles durou dez anos e terminou em 2001), Quaid disse que quis ganhar dinheiro à sua própria maneira em Hollywood. Ele não queria aproveitar suas circunstâncias privilegiadas para se promover.

Depois de completar 18 anos, começou a fazer testes e acabou sendo escolhido para um papel de “figurante glorificado” em Jogos Vorazes, de 2012, seu primeiro longa. Na franquia distópica baseada nos livros de Suzanne Collins, Quaid fez o papel de Marvel, o tributo do Distrito 1 encarregado de matar Rue (Amandla Stenberg), a favorita dos fãs, na 74ª edição dos Jogos Vorazes. “Não importa o que eu poste no Instagram hoje, sempre recebo pelo menos um comentário tipo ‘você matou Rue!’. Eu sei, eu sei. E sinto muitíssimo, oficialmente. Mas não a matei na realidade!”

Depois desse papel de vilão, Quaid atuou em vários curtas antes de conseguir papéis coadjuvantes na série de curta duração Vinyl, de Martin Scorsese, e no filme Logan Lucky - Roubo em Família, de Steven Soderbergh. Mas este ano parece ter sido um momento de virada em sua carreira.

Em junho, Quaid e Maya Erskine ganharam críticas positivas por sua química forte na comédia romântica indie Plus One, em que fazem amigos que concordam em ir juntos a vários casamentos ao longo do verão, fazendo-se passar por namorados. Agora Quaid se prepara para seduzir os espectadores em The Boys, série baseada na HQ de Garth Ennis e Darick Robertson, que conta a história de um mundo onde super-heróis existem, mas são corrompidos por serem celebridades.

Quaid faz o papel do mocinho Hughie Campbell, funcionário de uma loja de eletrônicos que mergulha a contragosto em um mundo de violência depois de uma tragédia pessoal o conduzir Billy Bruto (Karl Urban), antagonista maquiavélico cujo objetivo é eliminar um grupo de super-heróis de elite chamados Os Sete, que são controlados por Madelyn Stillwell (Elisabeth Shue, fantástica no papel), da Vought International. The Boys é ousado e vulgar, dúbio, mas divertido. Eric Kripke, Seth Rogen e Evan Goldberg, os criadores da série, empurram nossa fadiga de super-heróis ao limite, saturando a série de brutalidade, caos e humor de mau gosto.

O estranho é que funciona.

“A série não quer tanto derrubar franquias quanto subverter expectativas e promover uma discussão sobre nossa cultura”, comentou Quaid. “Falamos do poder absoluto, que corrompe absolutamente. Falamos do movimento #MeToo. E falamos de tudo isso de um jeito surpreendentemente realista, considerando que é uma série em que as pessoas conseguem voar. The Boys tem um sentido e uma relevância mais profundos, mas também se propõe a entreter o espectador.”

A seguir, Quaid fala mais sobre o que o levou a representar Hughie em The Boys, sua vida como celebridade mirim e o que seus pais lhe ensinaram sobre ser ator.

Amazon Studios
Jack Quaid as Hughie.

Vi você em julho esbanjando charme no Jimmy Kimmel Live e The Today Show. Curtindo a vida.

[Risos] Curtindo a vida e usando roupas que nunca uso na vida real, então tem sido legal. Estou gostando.

Estão sendo algumas semanas ótimas, com certeza, com Plus One e agora The Boys. Como você está vivendo este momento?

Tento absorver tudo e tirar pelo menos um momento a cada dia para sentir gratidão pelo que estou vivendo. Me sinto superfeliz por fazer parte de dois projetos que acho bacanas e dos quais gosto de falar, especialmente The Boys. Agora já sabemos que teremos uma segunda temporada, e todos do elenco estão super unidos. Fico muito grato por ter este trabalho. É maravilhoso. 

Uma segunda temporada decidida antes de a primeira sequer estrear! Como foi para o elenco ouvir a notícia de que o show ia continuar? 

Foi incrível, todos ficamos altamente empolgados. Eu estava fazendo um ensaio fotográfico na rua em Los Angeles, e Erin Moriarty, que faz Luz-Estrela, me viu, parou o carro e gritou que vamos fazer a segunda temporada. Foi assim que fiquei sabendo.

Isso soa como algo saído de uma comédia romântica.

Eu sei, a gente pensa que essas coisas não acontecem na vida real! Mas foi uma notícia incrível. Estamos todos altamente animados porque vamos voltar. 

Fale-me de Hughie Campbell. Por que você decidiu que queria esse papel? 

Eu me identifico com Hughie de várias maneiras. Adoro o relacionamento que ele tem com Billy Bruto – é uma relação divertida do tipo irmão mais velho com irmão menor, mas de um jeito demente. E adoro a relação dele com seu pai [Simon Pegg] e com Luz-Estrela, totalmente o oposto da relação dele com Billy Bruto. Gosto que ele é apenas um sujeito comum, mediano, mas que vive uma situação nada comum. É um papel que eu sempre quis. Já fiz vários papéis desse tipo na minha carreira. Chamo esses personagens de “Grandes Navios Brancos” – são pessoas que tentam antagonizar o personagem principal de alguma maneira. Então uma vez na vida estou tendo a chance de fazer um personagem legal! Isso foi muito bom. 

Hughie é um pouco inseguro, é um fã declarado de Billy Joel que dá um esporro super violento nos super-heróis que as pessoas adoram. Você pensou automaticamente “preciso fazer esse papel”?

Totalmente. Eu não sabia que a história era baseada numa HQ. Pensei que alguém tinha olhado o mundo como ele é hoje e inserido alguns super-heróis. Foi um roteiro ótimo de Eric Kripke, então pensei “quero fazer parte disso. Se eu não for Hughie, posso ser um sujeito qualquer na rua dando tchau para o Trem Bala [Jessie T. Usher], ou posso ser o Capitão Pátria [Antony Starr]. Mas me coloquem no show, por favor, não me importa como!”. E depois disso, fazer testes não apenas para Eric, mas também Seth [Rogen] e Evan [Goldberg], foi uma coisa super tensa. Sou um grande fã deles, de Supernatural, Superbad e isso tudo. Ainda mal consigo acreditar que é tudo verdade, aconteceu realmente. 

Você mencionou que a série é baseada numa HQ, mas ela remete muito ao que está acontecendo no mundo e até à indústria do entretenimento hoje – super-heróis e sucessos de bilheteria da Disney/Marvel. Qual é a mensagem de The Boys, para você?

É interessante porque Eric Kripke sempre fala que quando conversou com Garth Ennis e Darick Robertson sobre a HQ, os dois disseram “ficamos fascinados com o que acontece quando o que a política tem de pior encontra o que o mundo das celebridades tem de pior”. Na época, eles acharam isso uma ideia maluca. E hoje temos um presidente de reality show, e a impressão é que nosso mundo e o mundo mostrado na série estão ficando parecidos demais de várias maneiras. Em todo caso, acho que falamos de coisas que precisam ser discutidas.

Ainda mal consigo acreditar que é tudo verdade, aconteceu realmente.

Na verdade há alguns diálogos na série que para mim, como mulher, pegam muito mal. Mas depois a série ataca a misoginia, mostrando coisas como nudez masculina frontal ou expondo os problemas que Madelyn enfrenta como mãe de um bebê pequeno. Eric Kripke encontrou um jeito interessante de contrabalançar a vulgaridade que ele próprio diz que o caracteriza. 

Sem dúvida alguma. Com uma série chamada The Boys, é preciso contrabalançar com o máximo possível de “girl power”, e acho que a série tem isso de sobra. Sim. Ela tem muita vulgaridade, é super bombástica e maluca, mas acho que o que vai surpreender as pessoas é o conteúdo emocional e as tramas com as quais as pessoas podem se identificar. Todos os personagens, não apenas os mocinhos, mas também os vilões, são mostrados com profundidade. Acho que isso vai pegar muita gente de surpresa.

No piloto da série vemos Luz-Estrela numa situação incômoda com um dos super-heróis, Profundo [Chace Crawford], que a agride sexualmente. É uma cena forte e que dá o tom geral da série. E se os super-heróis na realidade não forem os mocinhos?

Acho legal abordar o gênero dos super-heróis desde outra perspectiva, algo que até agora não tínhamos visto realmente. Sempre fui fã enorme dos super-heróis. Gosto que The Boys não é exatamente uma paródia do gênero, mas coloca a pergunta “se os superpoderes existissem realmente, como seria o mundo?”. Acho que essa deve ser a resposta mais realista à pergunta, tirando algumas coisas malucas que acontecem. Adoro o fato de que consegui trabalhar numa série de super-heróis, e não só isso, uma série diferente de todas as outras. 

Você acha que Seth e Evan também ajudaram a ampliar os limites desse gênero, mas com um pouco de humor? 

Com certeza. Acho que eles ganham muito crédito por serem “os caras divertidos”, algo que eles são sem dúvida, mas muita gente esquece que eles também são contadores de histórias maravilhosos, e eles contribuíram demais para esse projeto inteiro. Eles estiveram ali o tempo todo que filmamos o piloto, e foi bom demais contar com os insights deles. Acho que eles nos ajudaram a alcançar um novo nível.

Amazon Studios
Jack Quaid and Simon Pegg em cena de "The Boys"

Você disse que Seth Rogen era meio que seu herói, então trabalhar com ele foi algo que te deixou nervoso? Se bem que você cresceu em sets de filmagem, então já devia estar acostumado a ver heróis em carne e osso. 

Não, não. Ainda fico embasbacado quando estou diante dos meus ídolos. Fiquei assim com Simon Pegg. Ele é um herói de verdade meu, e o fato de que ele representou meu pai foi totalmente maluco, porque na HQ original Darick Robertson desenhou Hughie inspirado em Simon Pegg como ele estava em Spaced – que estava no ar naquela época ―, e a presença dele em The Boys é um gesto de reconhecimento disso. Adoro o fato de que pude trabalhar com um de meus heróis. E ele é o sujeito mais bacana do mundo. Aprendi muito só de observá-lo. Foi incrível.

E houve um pequeno reencontro entre Simon e Karl Urban, que tinham trabalhado juntos em Jornada nas Estrelas. E agora você acaba de ser chamado para participar da série de animação Star Trek: Lower Decks.

Eu sei, pude contar isso para eles na nossa première no festival Tribeca. Mas, como nerd, filmamos isso antes de me chamarem para Lower Decks. Então quando eu estava no set, pude ver aquele reencontro lindo entre eles.

Karl Urban está em todos esses filmes de ação e franquias. Mas eu sempre me lembrarei dele como Éomer em O Senhor dos Anéis

Totalmente. Ele está em tipo oito franquias diferentes, e todas são incríveis. Então fica difícil não agir como nerd quando você está com ele. 

Você também trabalhou numa franquia grande – Jogos Vorazes, é claro. Não passou muito tempo nela, mas aposto que virou alvo de muito ódio por ter feito o papel de Marvel.

É disso que estou falando! Eu fui o Grande Navio Branco. Para mim, ainda é surreal pensar que pude fazer parte de Jogos Vorazes e desta série. Quem diria?

Jogos Vorazes foi seu primeiro papel, correto?

Isso mesmo. Pensei que meu primeiro papel seria por exemplo o do melhor amigo numa comédia romântica, mas não, fui um assassino juvenil num futuro distópico. Foi inesperado. O clima no set era como um acampamento de férias. Tínhamos todos mais ou menos a mesma idade, e não pareceu um filme importante quando estávamos rodando, apesar de vermos que os sets eram gigantescos. Mas foi uma coisa maluca fazer parte de algo que as pessoas já conheciam antes de termos acabado de filmar, porque os livros tinham feito tanto sucesso. Até hoje as pessoas ficam revoltadas comigo porque eu matei Rue naquele filme.

Ainda estou aprendendo e buscando me aprimorar todos os dias.

Posso visualizar as manchetes. “Filho de Meg Ryan e Dennis Quaid mata personagem querida de ‘Jogos Vorazes’.” 

“Ele é o vilão!”. Exatamente. Acho que isso nunca vai desaparecer. E tudo bem. Vou abraçar os fãs de Jogos Vorazes para sempre. 

Parece que você quis abrir seu próprio caminho nesta indústria e não aproveitar seus pais famosos para lhe abrirem uma brecha. Pode falar sobre sua carreira e essa escolha de segurar as rédeas você mesmo?

Começou quando eu estava no colégio e participei de uma produção de Sonho de Uma Noite de Verão. Eu estava fazendo o papel de Fundilho, arranquei risadas da plateia pela primeira vez e pensei “sim, quero trabalhar com isso”. Com aquela experiência, percebi que eu realmente curto fazer isso (representar), e se você realmente curte uma coisa, quer fazer o melhor possível. Para começar, meus pais não me deixaram abusar de minha situação privilegiada. Mas de qualquer jeito não era isso que eu queria fazer. Eu queria fazer o melhor trabalho possível. Ainda estou aprendendo e buscando me aprimorar todos os dias. Acho que não vale a pena trabalhar se você não estiver tentando dar o melhor de si ou se esperar que tudo lhe seja dado de bandeja. É preciso trabalhar muito para ser bom naquilo que você faz.

Alguma vez seus pais foram contra a ideia de você ser ator? Eles tiveram alguma relutância? 

Não. Pelo contrário, o fato de os dois serem atores me mostrou que aquilo seria uma carreira sustentável. Os dois se divertiam tanto com o que faziam que eles nunca me desencorajaram nem me encorajaram. Disseram apenas “é isso que ele quer fazer? Tudo bem então”. Eles não foram realmente positivos nem negativos em relação a isso, mas sempre me deram o maior apoio. 

Qual é seu filme favorito com Dennis Quaid e seu filme favorito com Meg Ryan? 

Aahhn... Meu filme favorito com Dennis Quaid acho que é Os Eleitos. Adoro esse filme e acho que ele esteve tão bom nele. E quanto à minha mãe, vou ter que dizer Harry e Sally - Feitos um para o Outro. Foi incrível.

E Mensagem para Você?

Qualquer um deles, na verdade. 

No caso do seu pai, confesso que meu filme favorito dele é Operação Cupido

Siiiiiiim! É um empate. Adoro esse filme.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.