LGBT
24/06/2020 16:35 -03 | Atualizado 24/06/2020 16:38 -03

Autores pedem demissão de agência de J. K. Rowling após fala sobre direitos trans

Falta de abertura para o debate após falas da escritora fez com que funcionários LGBT se desligassem da empresa.

Três autores deixaram a agência literária de J.K. Rowling devido a opiniões da escritora britânica sobre pessoas trans. Todos justificaram a saída devido a decepção com o fato de a empresa não aceitar uma oferta para debater direitos LGBT a partir do episódio ou sequer fazer declaração em apoio à comunidade.

O escritor trans Fox Fisher, a autora Ugla Stefania KristjonudottirJonsdottir, conhecida como Owl, o romancista Drew Davies e um quarto autor anônimo afirmaram estar “tristes” em deixar a The Blair Partnership, após a agência se recusar a se posicionar publicamente após repercussão da fala de Rowling. 

“Nunca se tratou de mudar a opinião de alguém ou censurar”, afirmou Jonsdottir à Thomson Reuters Foundation em um telefonema conjunto com o parceiro Fisher.

“Mas, para nós, tratava-se de ter uma conversa aberta e honesta dentro da agência sobre direitos e sermos pessoas trans dentro da editora ― para nós como clientes, mas também para outros em potencial ou até funcionários”.

Autora da saga Harry Potter, J.K Rowling provocou mais controvérsia ao publicar um artigo em que vincula sua experiência de agressão sexual no passado à sua preocupação com o acesso de mulheres trans a espaços exclusivos para mulheres cis, o que a escritora disse oferecer acobertamento a “predadores”.

O artigo foi escrito após Rowling ser acusada de transfobia nas redes sociais após publicar uma série de tuítes considerados preconceituosos em um momento em que protestos contra a discriminação acontecem globalmente.

Cindy Ord via Getty Images
Autora criticou artigo de opinião intitulado 'Criando um mundo mais igualitário pós-covid-19 para pessoas que menstruam'.

As publicações, feitas no início do mês, foram feitas em resposta a um artigo de opinião do site de desenvolvimento global Devex. Rowling, ressentida com a manchete, que dizia “criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam”, escreveu:

“Pessoas que menstruam’. Tenho certeza que costumava haver uma palavra para essas pessoas. Alguém me ajude? Wumben? Wimpund? Woomud? (modificações propositais da palavra “Woman”, inglês para mulher)”.

O comentário gerou repercussão mundial. Atores como Daniel Radcliffe, famoso pelo papel do aprendiz de bruxo da saga escrita por Rowling, disse que se sentiu “compelido” a falar em apoio à comunidade de transgêneros.

Assim como ele, Eddie Redmayne, protagonista de Animais Fantásticos e Onde Habitam disse que queria deixar “absolutamente claro” que não concordava com os comentários da autora. Já Emma Watson, que interpretou Hermione na saga Harry Potter, disse que quer que seus seguidores trans “saibam que eu amo vocês por quem vocês são”.

Uma porta-voz da The Blair Partnership, que também representa o boxeador Tyson Fury e o ciclista olímpico aposentado Chris Hoy, disse em comunicado enviado por e-mail que a agência estava “desapontada” com os quatro autores.

“Acreditamos na liberdade de expressão para todos; esses clientes decidiram sair porque não atendemos às demandas de sermos reeducados conforme o ponto de vista deles”, afirmou. “Valorizamos todas as vozes de nossos autores e, como agência, defendemos a igualdade e a inclusão”.

J. K. Rowling se recusou a comentar.

Um assunto que ganhou visibilidade durante a pandemia

Devenorr via Getty Images
“Valorizamos todas as vozes de nossos autores e, como agência, defendemos a igualdade e a inclusão”, disse a The Blair Partnership à Reuters.

Em pleno mês de comemoração do Orgulho LGBT diante da pandemia do novo coronavírus, no Reino Unido e nos Estados Unidos, há um debate acalorado sobre o que significa ser mulher. Neste sentido, feministas radicais, que acreditam que os direitos conquistados devem permanecer restritos a pessoas nascidas com o sexo feminino, se colocam contra as mulheres trans.

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O acesso a espaços exclusivos para um sexo, como casas de acolhimento de vítimas de violência e banheiros públicos, por exemplo, são pontos de tensão. Há alegações discriminatórias que apontam que homens poderiam se passar por mulheres trans para obter acesso a esses lugares e cometer violências.

A discussão é mundial e chegou ao STF (Supremo Tribunal Federal), no Brasil. Em janeiro, a expulsão de uma travesti de um banheiro em Alagoas gerou repercussão nacional e reacende importância de discussão pela corte. Leis locais sobre práticas discriminatórias já garantem o uso do banheiro por trans, mas decisão do STF seria importante ao versar especificamente sobre o tema.

“Agências trazem autores como eu para fazer parte dessa voz diversa”, disse Drew Davies. “Mas, quando se trata de ter conversas significativas em termos de diversidade, isso se torna muito mais desafiador”.

A agência The Blair Partnership se recusou a comentar mais sobre o assunto.