ENTRETENIMENTO
17/08/2020 03:00 -03

De luto pela Ellen DeGeneres e a J.K. Rowling que conhecíamos

Duas das celebridades mais queridas do mundo estão enfrentando processos de "cancelamento" que questionam suas personas públicas.

Illustration: Isabella Carapella/HuffPost; Photos: AP
Ellen DeGeneres e J.K. Rowling são os estudos de caso mais recentes do branding de celebridade que deu errado.

Todas as tardes, Ellen DeGeneres termina seu popular programa na TV americana dizendo a mesma coisa: “Sejam gentis uns com os outros”. Em seus monólogos de abertura, ela diz coisas como: “Tente fazer algo gentil esta semana. Se todos nós fizéssemos uma boa ação, faria uma grande diferença”.

No 50º aniversário do discurso “I Have a Dream”, de Martin Luther King Jr., DeGeneres ― ou quem quer que seja responsável por sua conta no Twitter – tuitou: “Eu tenho um sonho em que todos escolhemos ser gentis uns com os outros”. Online, ela vende moletons, canecas e canudos de aço inoxidável sob o que ela chama de Be Kind Collection (coleção seja gentil). Por cerca de US$ 200 por ano, você pode receber uma caixa de produtos a cada três meses cheias de “produtos escolhidos a dedo por Ellen”.

É eufemismo dizer que DeGeneres fez da gentileza sua marca. Toda a sua identidade pública está embalada naquela frase de seis palavras, ou pelo menos estava, antes de seu véu dourado começar a cair. Em 2014, uma pesquisa do Q Score apontou DeGeneres como a apresentadora de TV diurna predileta dos americanos, consolidando sua reputação de simpatia.

Os apelos persistentes à benevolência também ajudaram a criar um ambiente de aceitação mais ampla da comunidade LGBTQ, permitindo que o sucesso multimilionário de DeGeneres fosse considerado um referendo sobre a homofobia que ameaçou sua carreira quando ela saiu do armário, em 1997.

Mas agora os Estados Unidos estão descobrindo que DeGeneres não vivia de acordo com suas próprias regras. Nos últimos meses, a natureza de sua personagem vem sendo questionada, levantando suspeitas sobre sua imagem e as intenções por trás dela.

Temos a tendência de celebrar os artistas ricos pela alegria que seu trabalho traz às nossas vidas. Na última década, representantes do progressismo social foram colocados em altares e transformados em símbolos. Mas símbolos podem ser enganosos, e os artistas ricos normalmente estão muito distantes da realidade para entender as preocupações das pessoas comuns que não têm uma equipe de bajuladores profissionais para protegê-los.

BRENDAN SMIALOWSKI via Getty Images
Hillary Clinton e Ellen DeGeneres durante um intervalo comercial em um episódio de 2016 do “The Ellen DeGeneres Show”.

Em março, o comediante Kevin T. Porter perguntou aos usuários do Twitter “as histórias mais insanas que você já ouviu sobre as maldades de Ellen”, o que abriu as comportas para milhares de respostas impossíveis de confirmar, mas muito contundentes. Em abril, funcionários do Ellen DeGeneres Show disseram ter recebido poucas informações sobre o impacto da pandemia de coronavírus em seu ganha-pão.

Dois relatos diferentes publicados em julho pelo BuzzFeed dão conta de um ambiente “tóxico” nos bastidores do programa. Alguns funcionários disseram ter sido instruídos a nunca falar com DeGeneres; também houve relatos de assédio sexual cometido por dois produtores contra subordinados.

A WarnerMedia, empresa responsável pelo programa, abriu uma investigação interna. Enquanto isso, uma ex-garçonete de Los Angeles disse ao jornal britânico The Daily Mail que DeGeneres pediu ao gerente do restaurante onde ela trabalhava que ela fosse suspensa porque estava com o esmalte lascado.

O ator Brad Garrett, de Everybody Loves Raymond, disse que todo mundo sabe da duplicidade de DeGeneres, um sentimento que lembra algo escrito por Kathy Griffin em seu livro de memórias, publicado em 2016: “Tenho quase certeza de que uma certa amada apresentadora de talk show diurno uma vez me expulsou de um camarim do Emmy. Não posso provar, mas essa pessoa, que tem cabelo loiro e curto, tem um lado maldoso que todo mundo de Hollywood conhece”.

As afirmações de Griffin são reveladoras. Esse “lado maldoso” de DeGeneres ao que tudo indica é um segredo amplamente conhecido faz algum tempo, mas que é mascarado por uma personalidade pública agradável, dancinhas desajeitadas, filantropia na televisão e festas de aniversário repletas de estrelas.

Para muitos que recebem DeGeneres diariamente em suas salas de estar, ela é a encarnação da positividade, o que torna esse tipo de revelação quase uma traição. As acusações não anulam o impacto positivo de DeGeneres nas percepções da América profunda em relação à comunidade LGBTQ, mas quem acreditou nessa criação calculada de uma persona tem razão em se sentir enganado.

Na internet, observei duas reações totalmente diferentes a essa saga. De um lado, há uma Schadenfreude previsível: finalmente a fraude foi exposta. Mas, do outro, existe algo mais matizado: uma sensação de perda. DeGeneres não foi cancelada ― até onde sabemos, seu programa será mantido ―, mas há um clima de enterro para a celebridade que a gente conhecia.

Essa dualidade me lembra as reações a J.K. Rowling, outra celebridade que recentemente contradisse sua reputação. Quando Rowling desafiou a validade da feminilidade das mulheres trans no Twitter e em seu site pessoal, em junho, pareceu um golpe terrível para todos os discípulos de Harry Potter que acreditam que vidas trans importam.

A reação foi imediata. Rowling falou em “cancelamento”, embora ela ainda tenha seu contrato com uma editora e uma franquia de filmes em Hollywood. “Esses tempos já são difíceis o bastante sem VOCÊ, uma mulher branca rica, tuitando transfobia da sua mansão”, respondeu a modelo e ativista Munroe Bergdorf, que é trans. A atriz Sarah Paulson disse que Rowling deveria “calar a boca”.

Dave Hogan via Getty Images
J.K. Rowling na estreia de “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, em Londres.

Não é só pelo fato de a série de Rowling ter rendido oito adaptações para o cinema e ter entrado no nosso vocabulário a ponto de inspirar comparações entre Donald Trump e o vilão todo-poderoso Voldemort. O problema da ideologia antitrans de Rowling é que ela contraria a mente aberta que ela busca promover em seus livros. O que é Harry Potter senão a história de um menino indesejado que descobre seu valor depois de encontrar uma comunidade acolhedora?

Muitos leitores LGBTQ que cresceram fantasiando sobre Hogwarts viram um subtexto queer na fantasia de Rowling. E a autora validou ainda mais essa perspectiva apoiando continuamente as causas gays. Vê-la impugnar as mulheres trans não faz sentido quando pensamos em J.K. Rowling, que antes parecia uma fortaleza da tolerância. Ela era justamente a “bilionária do bem”.

O luto que se seguiu às declarações de Rowling foi ainda maior do que sobre a suposta maldade de DeGeneres, em parte porque Harry Potter tem uma gigantesca base global de fãs. Imagine como deve ter sido doloroso para os responsáveis por sites como MuggleNet e The Leaky Cauldron falar contra sua heroína.

Imagine como se sentiram Daniel Radcliffe, Eddie Redmayne e outros colaboradores ao procurar as palavras certas para se distanciar da dona de seus personagens. Rowling, há muito tempo, recebeu e aceitou um papel descomunal na imaginação popular, e agora o empoderamento que ela pregou pertence àqueles que se opõem às suas convicções equivocadas. É a pior das ironias.

Assistir às quedas de Rowling e DeGeneres levanta questões existenciais sobre a natureza da celebridade contemporânea. Se duas das mulheres vivas mais confiáveis não podem, de fato, ser confiáveis, quem pode? O papel de uma animada apresentadora de talk show ou de uma autora de literatura juvenil que afirma a vida é diferente do de uma estrela pop ou do cinema; Rowling e DeGeneres eram mais como companheiras do que semideusas. DeGeneres deixou isso muito claro em Relatable, seu especial para o Netflix de dois anos atrás, dizendo: “É uma coisa maravilhosa. Eis a desvantagem: eu nunca mais posso fazer nada desagradável. Nunca mais. Sou a garota ‘seja gentil’”. A persona que ela construiu virou uma armadilha.

Robert Gauthier via Getty Images
DeGeneres apresentando o Oscar de 2014.

Talvez DeGeneres fosse tão adorável quanto afirma ser. Revisitar clipes de 17 anos atrás do piloto do Ellen DeGeneres Show me faz pensar. Ela tinha uma energia diferente na época, mais envolvida e grata. Seu clássico especial da HBO Ellen DeGeneres: Here and Now (Ellen DeGeneres: Aqui e Agora) ― lançado em 2003, menos de dois meses antes da estreia de seu talk show ― é um exemplo perfeito de um show de comédia stand-up cativante.

Me pergunto se o tempo afetou DeGeneres, se o dinheiro a endureceu, se tornar-se uma das celebridades de maior visibilidade do planeta contaminou sua psique. A maioria de nós nunca viverá uma realidade em que não possamos sair sem ser assediados, em que nosso direito à privacidade esteja sob ataque constante. Nunca saberemos até que ponto esse estilo de vida rouba a sanidade dos famosos, forçando-os a erguer paredes, literais e metafóricas.

Em 2020, durante a pandemia de covid-19, estamos vendo muitos artistas diminuírem seu próprio valor. Kanye West está cumprindo sua ameaça de concorrer à presidência. Madonna postou (e depois apagou) um vídeo perturbador sobre uma teoria da conspiração sobre o coronavírus. Lana Del Rey publica diatribes sem sentido no Instagram, nas quais ela compara seu feminismo ao das mulheres negras. M.I.A. parece ser contra as vacinas. Gal Gadot se convenceu de que um medley de estrelas cantando Imagine, de John Lennon – uma música que não tem nada a ver com uma crise de saúde ―, ajudaria as pessoas a se sentir melhor. Na esteira da recente onda de Black Lives Matter, Terry Crews tem alertado sobre uma potencial e absurda “supremacia negra”. O vocalista do Smash Mouth, Steve Harwell, disse a uma multidão sem máscara: “Foda-se essa porra de Covid!”.

Não é nosso dever educar os ricos e famosos nem convencê-los a ter mais cuidado com o que dizem, fazem ou pensam. Eles têm os meios ― e, agora, o tempo ― para examinar suas deficiências. Talvez alguns deles o façam. Enquanto isso, o público está enlutado pela harmonia progressista que Rowling e DeGeneres representavam, não porque ela não pode existir sem elas, mas porque ambas ajudaram a fazer um mundo melhor e depois se afastaram de seus princípios. Se você está triste com isso, não está sozinho.

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.