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02/07/2020 17:54 -03 | Atualizado 02/07/2020 18:14 -03

O que a Itália pós-lockdown nos ensina sobre o 'novo normal'

Há dois meses o país, um dos epicentros da pandemia, vem relaxando as restrições. Eis as lições que estão surgindo.

Quando a Itália fechou o país inteiro em março, por causa da pandemia do coronavírus, 60 milhões de pessoas ficaram essencialmente confinadas dentro de suas casas. Lojas e restaurantes fecharam, e a entrada de estrangeiros foi proibida. Do dia para a noite, as grandes cidades do país viraram cidades fantasma.

Não foram só os lugares mais conhecidos dos turistas, como a Fontana de Trevi, em Roma, e a ponte Rialto, em Veneza. Bairros frequentados pela população local ficaram no mais absoluto silêncio.

Agora, dois meses desde o início do relaxamento das restrições, a vida vai aos poucos voltando ao normal. Em Veneza, a Piazza San Marco não está mais vazia. Praias de todo o país estão abrindo para a temporada de férias de verão. O campeonato italiano está de volta – mas as arquibancadas estão vazias.

É uma mudança e tanto para um país que, depois de subestimar a gravidade do surto do coronavírus, tornou-se tornou o epicentro da pandemia na Europa e serviu de alerta para o resto do mundo sobre as consequências da inação.

O custo foi enorme. Desde março, a Itália registrou quase 250.000 casos de coronavírus, e 35.000 mortes. Mas as infecções e mortes caíram de forma significativa nas últimas semanas. Na última semana de junho, a Agência de Proteção Civil da Itália registrou apenas 296 novos casos, a maioria delas na região mais afetada da Lombardia, além de 34 mortes. Os números são um contraste marcante com os Estados Unidos, onde o número de casos vem aumentando dramaticamente em mais de 20 estados.

Depois de conseguir achatar a curva, os italianos estão gradualmente levantando as restrições. As fronteiras foram reabertas para visitantes de outros países da União Europeia no início de junho.

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Garçons trabalham de máscara em restaurante na Piazza San Marco, em Veneza, 13 de junho.

Para um país cuja economia depende fortemente do turismo ― o setor responde por 13% do PIB da Itália, e o país recebeu 60 milhões de visitantes no ano passado ―, os primeiros sinais são positivos. Em Veneza, quando o Palácio Ducal reabriu, há três semanas, cerca de 1 000 ingressos foram vendidos no primeiro dia. A fila para entrar tinha o comprimento de três campos de futebol. Em uma cidade famosa por suas máscaras, as coberturas faciais agora são obrigatórias no museu. Estações com álcool gel foram instaladas em todo o edifício, os visitantes têm de seguir um percurso pré-determinado e foi imposto um limites para o número de pessoas que podem estar ao mesmo tempo em cada sala.

“É uma emoção muito forte, como o primeiro dia de aula”, disse à Agence France-Presse Maria Cristina Gribaudi, presidente da Fundação dos Museus Cívicos de Veneza. “As pessoas começaram a fazer fila às 8h.”

Em outros lugares da cidade, os turistas fizeram passeios de gôndola, tomaram drinques em cafés ao ar livre e puderam fazer compras nas lojas de souvenir.

Os principais pontos turísticos estão todos lá, o café segue sendo superforte, mas o turismo e o modo de vida dos italianos mudaram fundamentalmente.

A agência nacional de turismo da Itália prevê que o total de visitantes do exterior seja 55% inferior este ano em relação ao ano passado. O setor deve perder aproximadamente 23 bilhões de euros em 2020.

O resultado disso será um turismo mais “mais verde e mais lento”, segundo Giorgio Palmucci, presidente da agência nacional de turismo.

“Após a crise da COVID, teremos a oportunidade de tratar a questão da sustentabilidade e pensar em novas maneiras de propor e desfrutar do turismo”, disse Palmucci ao site The Local.

A desaceleração do turismo também está trazendo algumas vantagens potenciais e estimulando a inovação. Veneza sofre há anos com o turismo excessivo, e os moradores da cidade esperam que a crise do coronavírus represente uma oportunidade de pensar num futuro mais sustentável – um futuro em que residentes e artesãos consigam morar na cidade, em vez de serem obrigados a sair de Veneza por causa das hordas de turistas.

Desde o fim do isolamento, houve protestos contra a construção de um novo píer, que atrairia ainda mais navios e turistas para a cidade.

“Veneza pode ser uma cidade em que se trabalha, não apenas um lugar para as pessoas visitarem”, disse Andrea Zorzi, um dos organizadores do protesto, ao The New York Times. “Pode ser [uma cidade] normal.”

É uma situação paradoxal para uma cidade em que três quartos da população dependem do turismo. Veneza é “a cidade que morre de turismo e morre sem turismo”, escreveu Ottavio Di Brizzi, morador de Veneza, em um artigo para o HuffPost Itália.

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Turistas fazem fila para visitar o Palácio Ducal, em Veneza, no dia da reabertura ao público, 13 de junho.

Em Roma, os italianos aproveitaram a rara oportunidade de visitar atrações populares como a Capela Sistina e o Coliseu sem ter que lutar contra as hordas de turistas habituais. Antes do coronavírus, o Coliseu recebia 20.000 visitantes por dia, 70% dos quais eram estrangeiros. Agora, estima-se que no máximo 1 600 entrem diariamente.

Em Florença, 4,5 milhões de pessoas visitaram a Galeria Uffizi no ano passado. O museu, um dos mais populares do mundo, tem obras de artistas renascentistas como Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Botticelli.

Agora, no entanto, apenas 450 pessoas podem estar no museu ao mesmo tempo ― metade da capacidade normal. Todos devem usar máscaras e manter uma distância de dois metros. 

Mas esse número reduzido também significa uma experiência mais agradável para o visitante. Em vez de se acotovelar para ver uma pintura famosa como “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli, é possível navegar pelas galerias mais livremente, passar mais tempo admirando as obras.

“É uma maneira muito mais profunda e descontraída de visitar museus em comparação com o que víamos antes: a visita apressada para tirar várias selfies e fotos”, disse o diretor da Galeria Uffizi, Eike Schmidt, ao Wall Street Journal. “As pessoas vão aproveitar muito mais.”

E a transformação não se restringe às grandes cidades. Em todo o país,  as cidades medievais das montanhas ― que há anos lutam com infraestrutura em ruínas e fuga da população mais jovem ― têm investido em manutenção e campanhas de turismo, na tentativa de oferecer uma alternativa às cidades lotadas.

“O isolamento nos ajudou a apreciar a importância dos espaços verdes, e entendemos que não dependemos dos escritórios nas grandes cidades para trabalhar”, disse o arquiteto Stefano Boeri ao jornal britânico The Guardian. As cidadezinhas “são uma forma mais lenta de turismo. ... Pessoalmente, quero visitar lugares onde eu possa interagir com os locais, conhecer sua história, visitar as fazendas que produzem a comida que está no meu prato.”

Stefano Mazzola/Awakening via Getty Images
Manifestantes protestam contra o turismo excessivo e os navios de cruzeiro em Veneza, 13 de junho.

O setor agrícola da Itália também sofreu com a pandemia. O fechamento das fronteiras impediu que trabalhadores sazonais da Europa Oriental ajudassem na colheita. Em resposta, os italianos, muitos dos quais ficaram desempregados por causa da crise, foram trabalhar no campo, colhendo morangos e preparando os produtos para exportação.

“O setor agrícola foi o que permitiu que o povo italiano sobrevivesse ao confinamento”, disse ao HuffPost Itália Romano Magrini, gerente sindical da Coldiretti, a associação nacional de agricultores da Itália. “Houve uma redescoberta, diria que num sentido patriótico, desses produtos, da sua qualidade, do seu frescor e de sua autenticidade.”

Mais de 40 000 italianos se registraram nas principais organizações agrícolas do país. Para lidar com a escassez de mão de obra, em abril eles criaram plataformas para conectar quem buscava emprego com as empresas com vagas abertas.

Essa experiência pode mudar a sociedade para melhor, disse Magrini. “Agora, mais do que nunca, devemos investir em um setor que garanta a segurança alimentar do país”, diminuindo assim o percentual de alimentos importados. Para Magrini, isso também vai significar “melhor qualidade do ar, maior proteção da terra e mais trabalho para todos”.

“Temos ouro dentro de casa”, disse Magrini.  “Precisamos valorizá-lo.”

As grandes cidades também veem a crise atual como uma oportunidade de reimaginar o que é uma metrópole. Muitas cidades esperam incentivar as pessoas a usar formas alternativas de transporte, não só para evitar aglomerações no transporte público, mas também para reduzir o uso de carros.

O uso de bicicletas em todo o país cresceu de forma explosiva ― cerca de 540.000 bicicletas foram vendidas em todo o país desde que as lojas reabriram no início de maio ― graças em parte a um subsídio do governo de até 500 euros para a compra de bicicletas tradicionais ou elétricas.

Milão apresentou um plano ambicioso de reconfigurar a paisagem urbana, tirando a ênfase dos carros e abrindo mais espaço para pedestres e ciclistas. 

A cidade está transformando mais de 35 quilômetros de ruas em ciclovias temporárias e calçadas mais largas para os para pedestres. O limite de velocidade para carros será reduzido em partes da cidade, e bicicletas e pedestres terão prioridade em certas ruas.

“Trabalhamos durante anos para reduzir o uso de carros. Se todo mundo dirigir, não sobra espaço para as pessoas, não sobra espaço para se movimentar, não sobra espaço para atividades comerciais fora das lojas”, disse Marco Granelli, vice-prefeito de Milão. “É claro que queremos reabrir a economia, mas estamos buscando uma nova forma de fazê-lo. Temos de reimaginar Milão.”

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Visitantes observam quadros na Galeria Uffizi no dia da reabertura. A capacidade do museu foi cortada pela metade, e os visitantes têm de usar máscara e guardar distância de dois metros.

Ainda assim, a reabertura não foi indolor. Muitos empresários temem não conseguir sobreviver caso os turistas não voltem em grande número e os escritórios continuem fechados por muito tempo.

A primeira semana em que bares e restaurantes reabriram foi um fracasso total, segundo o HuffPost Itália. As receitas foram 70% menores em comparação com os níveis pré-pandemia.

A situação não melhorou muito desde então. O faturamento ainda está 50% abaixo do normal, de acordo com a FIPE, principal associação de bares, restaurantes e turismo da Itália.

Na Giolitti, uma doceria e sorveteria histórica no coração de Roma, os clientes estão demorando para reaparecer. “São pouquíssimos em comparação ao período pré-COVID e ao mesmo período do ano passado”, disse Giovanna Giolitti, que, juntamente com seu irmão, irmã e a mãe de 92 anos, é dona do negócio.

Em quatro gerações, o negócio dos Giolitti – que passou por duas guerras mundiais ― nunca viu um “evento mais assustador e perturbador”, disse Giovanna ao HuffPost Itália. O coronavírus causou uma queda de pelo menos 65% nas vendas.

O negócio de catering da loja está “completamente parado”, disse ela, bem como os acordos para fornecer doces e sorvetes a hotéis, pousadas e restaurantes. Normalmente, a Giolitti contrata entre oito e dez funcionários extra durante a alta temporada (de março a setembro), mas, sem aumento da demanda, esses empregos evaporaram.

Os primeiros turistas estrangeiros depois de meses ― oito alemães – apareceram alguns dias atrás, disse Giovanna. “Nós os recebemos com aplausos”, disse ela. “Em outra época, eles estariam misturados na multidão. Agora eles aparecem claramente.”

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O cemitério Maggiore, em Milão, os túmulos das vítimas da Covid-19 não reclamadas pela família são marcadas com simples cruzes de plástico, 23 de abril de 2020.

As cicatrizes da pandemia também são aparentes de outras maneiras ― particularmente na Lombardia, o epicentro original do surto de coronavírus da Itália. A região foi de longe a mais atingida no país, com cerca de metade do total de mortes do país e a maioria das novas infecções.

As famílias das vítimas na região querem respostas para a demora da ação governamental. Promotores da cidade de Bergamo recentemente questionaram o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, sobre a resposta do país ao surto.

Em Milão, as famílias querem acesso aos restos mortais de parentes enterrados às pressas e sem identificação durante o caos registrado no auge da pandemia.

Entre as imponentes lápides e mausoléus do cemitério Maggiore, s túmulos das vítimas não reclamadas pelas famílias são marcados com uma pequena cruz branca de plástico. 

Com reportagem do HuffPost Itália.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.