OPINIÃO
28/03/2020 04:00 -03 | Atualizado 28/03/2020 04:00 -03

Porque é primavera

Jornalista brasileiro morador do norte da Itália, epicentro do coronavírus no país, descreve como foi a escalada das contaminações por lá e como a doença afetou seu cotidiano.

Pollenzo — As últimas atualizações do governo italiano não aplacam a ansiedade na terceira semana de quarentena domiciliar aqui no norte da Itália, epicentro europeu da pandemia do novo coronavírus. Acompanho perplexo como a estrutura do país foi pega desprevenida à medida que a covid-19 fazia suas primeiras vítimas em meio ao Carnaval. Nesta sexta-feira (27), após 4 dias de queda nos números diários de vítimas, a Itália volta a ver crescer a quantidade de contágios, se equipara à China no número total de casos e contabiliza mais de 1/3 de todas as fatalidades ocorridas em consequência da doença.

Menos de um mês após a explosão da epidemia deste coronavírus, o fim da estiagem de inverno trouxe cenas assustadoras. Não parece uma zona de guerra, apesar da massiva presença militar. Está mais para uma distopia de Philip K. Dick. Caminhões do Exército faziam fila no centro de Bérgamo transportando corpos das quase 500 novas vítimas da doença para o crematório e há relatos de médicos na linha de frente (conforme publicado originalmente pelo jornal italiano Corriere della Sera e o diário inglês The Telegraph) de que a falta de equipamentos tem forçado a brigada hospitalar a escolher quem vive e quem morre.

No início da epidemia fora do território chinês, ao final de janeiro, protegidos por certa arrogância europeia, os italianos tentaram usar como agente imunizante o vírus da xenofobia. Imigrantes asiáticos em geral eram vistos com desconfiança senão fisicamente agredidos. Negócios de imigrantes chineses foram os primeiros a fechar, de forma voluntária, pois já havia um boicote silencioso a eles.

Vatican Pool via Getty Images
Papa Francisco chega nesta sexta-feira (27) a uma Praça de São Pedro vazia, no Vaticano, para oração extraordinária ante a pandemia de coronavírus.

O governo da Itália se viu entre a cruz e a espada com o rápido escalonamento do contágio dessa ágil cepa de coronavírus na semana de 21 de fevereiro. De um dia para o outro, os três casos confirmados no país subiram para 150. Não em tempo. Especulou-se arriscar o tal isolamento vertical em nome da economia. Mas a velocidade com o qual o SARS-CoV-2 se espalhava levou ao pronto cancelamento da famosa folia de rua de Veneza, o midiático desfile de moda de Milão e a suspensão das atividades didáticas, mas apenas em algumas regiões ao norte, como Lombardia, Vêneto e Piemonte.

A Itália foi atingida com força. Sua maior vulnerabilidade é explicada por duas razões principais: congregar uma vasta população idosa (a idade média das vítimas da covid-19 é de quase 80 anos) e, no caso específico do norte da Itália, haver uma concentração populacional enorme para um espaço territorial pequeno (densidade demográfica de 230 habitantes por quilômetro quadrado). Há ainda uma malha viária de transporte coletivo eficiente, que facilita a locomoção entre praticamente todos os municípios com mais de 20 mil habitantes. Demorou-se demais para se interromper o frenético trânsito no pulmão da economia italiana.

Ainda é um dado que requer aprofundamento, segundo pesquisadores locais, mas esses seriam os motivos pelos quais a Itália se tornara o país mais contagiado depois da China. Especulo que, ao menos na Europa Central e Meridional, a Itália também sofre consequências de ser o país mais afetuoso.

Aqui não se dispensam apertos de mãos, abraços e a saudação de dois beijinhos na face independentemente de gênero. Lembrando: tudo começou no Carnaval. Brincávamos por aqui vestidos de Arlequim, Gianduja, Colombina e Pierrot. A folia terminou com outro tipo de máscara no rosto.

Nada mais funciona aos domingos, e supermercados agora fecham as gôndolas de produtos que não são bens essenciais. Ração para pets e material de papelaria só podem ser adquiridos de segunda a sexta. Estão vetadas caminhadas, corridas e passeios de bicicleta em público, mesmo individualmente.
Emanuele Cremaschi via Getty Images
Ruas desertas em Bérgamo, próximo a Milão, no norte da Itália. Bergamo é uma das cidada mais atingidas por covid-19 e fica na Lombardia.

Se o cenário italiano serve de laboratório para compreender os próximos estágios da quarentena, é importante que o brasileiro saiba o que acontecerá após a fase do pânico e das medidas governamentais atabalhoadas, resultado natural da negligência do Estado – e, no caso do Brasil, da irresponsabilidade do próprio presidente da nação.

Após assegurado à população o acesso a bens essenciais de consumo, aprovado algum tipo de concessão às pequenas e médias empresas e garantia de renda ao trabalhador, a rotina começará a se organizar e não haverá mais gente estocando sal e papel higiênico. Dependerá das medidas específicas e cada região.

Aqui no norte da Itália, as medidas estão cada vez mais restritivas. Polícia na rua com alto-falante conclama a população a ficar em casa. É exigida uma declaração de deslocamento para quem está fora de casa, em caso de ser abordado pelas autoridades.

Nada mais funciona aos domingos, e supermercados agora fecham as gôndolas de produtos que não se configuram como bem essencial. Ração para animais de estimação e material de papelaria só podem ser adquiridos de segunda a sexta. Estão vetadas caminhadas, corridas e passeios de bicicleta em público, mesmo que praticados individualmente.

Para fazer compras, recomenda-se frequentar os empreendimentos mais próximos de sua casa e fazê-lo apenas uma vez por semana. Os poucos negócios que se mantêm em funcionamento se reinventam com sistemas de entrega via aplicativos (algo pouco usual fora dos grandes centros urbanos por aqui). Mesmo grandes empresas com sistema de e-commerce, como a Decathlon, diminuíram a capacidade de entrega e limitam as compras online dos usuários.

Contudo, no início, a quarentena nos levou a um certo comodismo positivo, o que não é a mesma experiência de alguns conhecidos aqui, sobretudo imigrantes, que dependiam de um sustento que não têm mais, devido à brusca interrupção da maioria das atividades econômicas. Quanto a isso, o governo anuncia medidas de isenção fiscal e apoio financeiro emergencial para quem paga imposto (negócios informais, que são raros, diga-se, não são contemplados).

PIERO CRUCIATTI via Getty Images
Caixões de 35 italianos mortos por coronavírus em armazém na Ponte São Pedro, perto de Bérgamo, na região da Lombardia.

Inicialmente, a quarentena parece uma oportunidade para organizar a casa. Não sobra muito tempo para a crise pessoal. O baque aqui veio depois do 10º dia de quarentena. Foi necessário adotar uma rotina com horários muito bem estabelecidos, deixando o binge-watching de séries em plataformas de streaming para o fim de semana.

Tenho o privilégio de, neste momento, já poder trabalhar remotamente, embora com relevantes perdas. Deste modo, o faço em horário comercial de segunda a sexta. As escolas daqui estão entupindo as crianças de lições, o que contribui para a organização do horário como tal para quem tem filhos.

Mas é preciso arrumar um jeito de tapear a mente. Meu método tem sido assim: de manhã cedo preparo o café, visto uma “roupa de trabalho”, arrumo minha mochila e me despeço da família. Saio de casa, dou uma volta rápida num raio de não mais do que 50 metros da porta e volto para o, agora, “escritório”. Monto minha estação de trabalho, separo a garrafa d’água e sigo com meus escritos.

Após o almoço, disponho uma mesinha e cadeiras do lado de fora do apartamento para minha esposa, meu filho e eu. Sirvo-nos café, chá e bolo de bolo. A população canta e toca instrumentos musicais da varanda de suas casas às 18h e ora ao badalar dos sinos às 19h.

Mesmo diante de toda a apreensão, fitamos horizontes azuis sob dias ensolarados, com ainda uma ou outra ameaça de chuva e neve. Mas observamos o desabrochar das primeiras flores da primavera, que saiu mais cedo em forma de arco-íris pendurados nas portas das residências com os dizeres: Andrà tutto bene (“ficará tudo bem”).

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.