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25/03/2020 20:00 -03 | Atualizado 25/03/2020 20:15 -03

Isolamento vertical: Lockdown vertical é ineficaz no Brasil neste momento, diz infectologista

Para preservar a economia, Bolsonaro quer flexibilizar medidas de isolamento adotadas nos estados brasileiros.

Depois de o presidente Jair Bolsonaro minimizar a política de isolamento social para prevenir a contaminação pelo novo coronavírus, grupos de WhatsApp estão sendo invadidos por mensagens de apoio e incentivo ao que tem sido chamado de isolamento vertical ou lockdown vertical. Essa medida significa isolar apenas as pessoas do grupo de risco e é amplamente criticada por profissionais de saúde e desaconselhada pela OMS (Organização Mundial de Saúde). 

Médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, Jamal Suleiman explica que isolar apenas o vírus podia ter sido uma política adotada no início da pandemia, ao testar todas as pessoas e manter em quarentena apenas aquelas com teste positivo. “Mas desde o início a orientação do Ministério da Saúde foi outra, foi para casos suspeitos com sintomas leves ficarem em casa. Isso foi adotado até porque não tem teste para todo mundo, os testes estão em falta. Se não tem teste, se não sabe quem está com o vírus, vai isolar quem?”, questiona. 

Se não tem teste, se não sabe quem está com o vírus, vai isolar quem?Jamal Suleiman, infectologista

Suleiman é enfático ao dizer que a medida de lockdown vertical neste momento é “descabida”. “Isolamento vertical é fora de propósito nesta altura do campeonato”, frisa. Isso porque, com mais pessoas expostas ao vírus, mais serão infectadas e precisão do sistema de saúde, que tem capacidade limitada e não conseguirá atender a todos. 

À medida que o vírus se dissemina de forma sustentada pela comunidade, segundo o infectologista, não tem como isolá-lo. “Não tem como isolar. Qual a estratégia? A gente precisa tentar entender o que ele (Bolsonaro) está tentando falar. Esse é um discurso sem nexo.” 

Impacto do isolamento na economia

A intenção do presidente é que boa parte da população volte à normalidade, como afirmou em pronunciamento na noite de terça-feira (24) e reafirmou na manhã desta quarta-feira (25). Ele voltou a minimizar a pandemia e afirmou que conversaria com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para adotar o isolamento vertical “daqui para frente”. A justificativa é prezar pela economia. 

“Se a economia colapsar, não vai ter dinheiro para pagar servidor público. (...) O que precisa ser feito? Botar esse povo [com menos de 60 anos] para trabalhar. Preservar os idosos, aqueles que têm problema de saúde. Mais nada além disso.”

Para o presidente, governadores que adotam medidas restritivas nos estados “estão arrebentando com o Brasil, estão destruindo empregos”. “Aqueles caras que falam ‘a economia é menos importante que a vida’, cara pálida, não dissocia uma coisa de outra. Sem dinheiro, sem produção… O homem do campo também vai deixar de produzir. Nós vamos viver do quê?”

O infectologista, no entanto, deixa um recado ao presidente: “Da falência, a gente sai. Agora, só tem um jeito de sair da falência: vivo. Morto não se sai. E todos são importantes. Não há um menos importante. Todos são, até ele [o presidente]. A gente vai cuidar de todo mundo, inclusive dele, se ele adoecer”. 

Isolamento só dos grupos de risco

Nesta quarta, o presidente afirmou que deveriam ser isolados apenas os idosos e portadores de comorbidades, que são duas ou mais doenças crônicas. “Tem que isolar quem você pode. A família tem que cuidar em primeiro lugar, o povo tem que parar de deixar tudo nas costas do governador. (...) Se não tiver ninguém, aí pega um asilo...”

NurPhoto via Getty Images
Para o presidente, apenas as pessoas do grupo de risco deveriam ser mantidas em isolamento social. 

Bolsonaro vem dizendo que apenas idosos são afetados gravemente pela doença. “O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine”, disse no pronunciamento. 

Também em rede nacional na noite de terça, Bolsonaro disse que, por ter histórico de atleta, se fosse infectado pelo novo coronavírus teria apenas uma “gripezinha”. A fala do presidente ocorreu no mesmo dia em que o COI (Comitê Olímpico Internacional) adiou para 2021 as Olimpíadas de Tóquio e atletas de alta performance informaram que foram infectados. 

O nadador sul-africano Cameron van der Burgh, medalha de ouro nas Olimpíadas de Londres, é um dos atletas que foi testado positivo para a covid-19. No Twitter, o nadador de 31 anos afirmou que esse é o “pior vírus” que já enfrentou. “Apesar de ser uma pessoa jovem, saudável, e com pulmões fortes, pois não fumo e faço desporto”, emendou. 

Além de Suleiman e da OMS, entidades como a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, a Sociedade Brasileira de Imunizações, a Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo e a Associação Paulista de Medicina condenaram a defesa de Bolsonaro pela flexibilização das medidas restritivas no combate à disseminação do coronavírus.