MULHERES
06/07/2019 09:43 -03

A trajetória de Irmã Dulce: Da acolhida aos pobres operários na Bahia até a canonização

A partir de outubro, ela será conhecida como Santa Dulce dos Pobres, a primeira santa brasileira.

Reprodução/Obras Sociais Irmã Dulce
Irmã Dulce é a primeira mulher nascida no Brasil a se tornar santa.

Ela era apaixonada por música, principalmente a de Roberto Carlos. Gargalhava com as piadas de Didi (Renato Aragão) e Os Trapalhões todos os domingos na televisão. Escondida atrás da porta do convento, comia o tradicional bolinho de estudante por acreditar estar cometendo o pecado da gula. Foi ela, também, quem construiu um dos mais importantes hospitais filantrópicos do Brasil a partir da ocupação de um espaço que era destinado a galinhas. Irmã Dulce é a primeira mulher brasileira escolhida para se tornar santa.

A primeira notícia veio do Vaticano em maio e confirmou um processo que teve início ainda em 2010. Nesta semana, Roma divulgou a data para a cerimônia de canonização: a partir do dia 13 de outubro.

Com a presença do papa Francisco, Irmã Dulce passará a ser chamada de Santa Dulce dos Pobres. Uma outra celebração acontecerá depois, no dia 20 de outubro, em Salvador, na Fonte Nova, para os seus fiéis. 

Mas muito antes de ser reconhecida como a bem-aventurada, Maria Rita de Souza Brito Lopes Ponte, seu nome de batismo, era conhecida nas ruas da capital soteropolitana por sua dedicação aos mais pobres.

Resiliente, dedicada, subversiva e teimosa, Irmã Dulce deixou um legado que vai além da fé. Após duas décadas de sua partida, ela continua sendo referência de acolhida, empatia e inspiração para muita gente.

Reprodução/Obras Sociais Irmã Dulce
O Vaticano reconheceu dois milagres de Irmã Dulce, que possibilitou a sua canonização.

Como foi o processo que elegeu Irmã Dulce como santa

O processo de canonização de Irmã Dulce começou nos anos 2000. Após sua morte em 1992, a freira já era popularmente conhecida como a “santa da Bahia”. 

Para ser reconhecido como santidade pela Igreja Católica, o postulante precisa primeiro se tornar um “servo de Deus”. Depois, caso apresente as virtudes necessárias, como fé e compaixão, passa a ser proclamado como “venerável”. Após a comprovação de um primeiro milagre, ele é “beatificado”. A canonização só vem ocorrer após um segundo milagre.

O primeiro milagre de Irmã Dulce veio em 2001. O segundo filho de Cláudia Cristina dos Santos tinha acabado nascer, e a mulher sofria com uma hemorragia que durava mais de 18 horas. Os médicos já tinham perdido a esperança de que ela se recuperasse. Foi então que um padre da cidade veio orar por sua vida e pediu que Irmã Dulce intercedesse. O sangramento foi controlado, e a mulher sobreviveu.

Já o segundo milagre aconteceu em 2014. O maestro Maurício Moreira estava sem enxergar há mais de 10 anos. Em uma noite de desespero, após sofrer de dor por conta de uma infecção, Moreira pediu que Irmã Dulce aliviasse o seu sofrimento. No dia seguinte, o homem tinha melhorado da doença e voltou a enxergar.

Para se comprovar a veracidade do milagre, a Igreja Católica exige que o fato seja preternatural, ou seja, que a ciência não consiga explicar, instantâneo (que aconteça logo após a oração), além de ser duradouro e perfeito.

O Vaticano validou as duas situações como milagre e é por isso que Irmã Dulce será a primeira mulher nascida no Brasil a se tornar santa. 

A trajetória de Irmã Dulce

Nascida em 26 de maio de 1914, em Salvador, Maria Rita era a segunda filha de Augusto Lopes Pontes, importante cirurgião-dentista da cidade, e perdeu a mãe, que se chamava Dulce Maria, muito nova, aos 7 anos.

Ainda menina, ela já demonstrava um forte senso de justiça e a necessidade de ajudar os mais necessitados. Por volta dos 13 anos, ela passou a acolher moradores de rua em sua própria casa e transformou a residência em um centro de atendimento. Foi também no início da adolescência que ela manifestou interesse pela vida religiosa.

Antes dos 20 anos, após ter estudado para se tornar professora, Maria Rita entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus e foi para Sergipe. Foi lá que ela vestiu pela primeira vez o hábito de freira e passou a ser chamada de Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe.

Reprodução/ Obras Sociais Irmã Dulce
A freira era conhecida por sua dedicação aos mais pobres.

Já de volta a Salvador, em uma de suas primeiras missões como freira, Irmã Dulce passou a lecionar em uma escola mantida por sua congregação, mas não se contentava com o trabalho em sala de aula.

A freira passou a trabalhar diretamente com a comunidade dos Alagados. O bairro era formado por um conjunto de palafitas onde centenas de famílias moravam em condições insalubres. Na mesma época, ela também passou a atender muitos operários e, em 1936, fundou a União Operária São Francisco que mais tarde se transformou no Círculo Operário da Bahia.

Em 1939, Irmã Dulce liderou o movimento que definiu o rumo de suas ações sociais. Ela promoveu a invasão de cinco casas na Ilha do Rato e ocupou os imóveis com os seus doentes. A freira foi alvo de repressão por parte da prefeitura e precisou desocupar o local. 

“Ela era uma mulher libertária, muito à frente de seu tempo. Ela fazia um trabalho com os miseráveis que ia muito além do assistencialismo, que era de organizá-los para que eles pudessem reivindicar coisas que não tinham”, conta o cineasta Vicente Amorim em entrevista à Época.

Amorim foi responsável por uma extensa pesquisa sobre a vida da freira que resultou em um filme. Para o cineasta, muito mais do que os milagres conferidos a ela, Irmã Dulce se destacou por seu caráter de “militante humanista”. 

“Era curioso porque ela usava o dinheiro da embaixada americana, daqueles programas de assistência, que tinham o objetivo de apaziguar os ânimos, e também trabalhava com sindicatos ligados ao Partidão (PCB). Esse ecumenismo político foi o que fez dela uma pessoa extraordinária”, compartilha.

Durante uma visita do então presidente Eurico Gaspar Dutra a Salvador em 1947, a freira organizou uma comissão de meninos para interpelar o general e pediu dinheiro para finalizar a construção de um centro de atendimento aos pobres. O general autorizou a verba, e o local foi inaugurado no ano seguinte.

A freira era conhecida por sua insistência e, em alguns casos, o comportamento fez que fosse tachada de “pidona demais”, segundo o Correio da Bahia. Ela não tinha constrangimento em pedir ajuda de quem quer que fosse, desde vendedores de colchão no comércio até militares da alta patente. Tudo isso com um único objetivo: amar e servir àqueles que sofriam.

O galinheiro que se tornou um hospital importante

Eram cerca de 70 enfermos e uma freira em busca de um local para descansar e se curar. Em 1949, Irmã Dulce conseguiu a autorização de sua superiora para ocupar o galinheiro do Convento de Santo Antônio com os doentes. 

Foi assim que começou a construção do hospital filantrópico que atualmente atende mais de 3,5 milhões de pessoas por ano por meio do SUS (Sistema Único de Saúde).

Fundada em 1959, as Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) hoje ocupam uma área de 40 mil metros quadrados e possui 954 leitos hospitalares destinados ao atendimento de pessoas de baixa renda. E é por meio dos atendimentos do hospital que a memória e o lema da santa seguem vivos, para além de seus milagres.