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09/01/2020 16:55 -03 | Atualizado 13/01/2020 14:10 -03

Ataque do Irã aos EUA não tinha intenção de causar mortes e arrefeceu clima de guerra

Chefe da Força Aérea da Guarda Revolucionária diz que mísseis não foram lançados para matar americanos em bases no Iraque; Trump afirmou que Irã 'se acalmou'.

O ataque do Irã a duas bases militares no Iraque que eram usada pelas forças americanas, na última terça-feira (7), não tinha a intenção de causar mortes. E não deixou, já que os mísseis encontraram as bases já desocupadas. A informação foi dada pelo chefe da Força Aérea da Guarda Revolucionária, o general Amir Ali Hajizadeh, segundo a mídia iraniana. 

O general afirmou ainda que o objetivo de atirar mais de uma dezena de mísseis às bases era atacar o “maquinário militar” do inimigo.

Retaliação iraniana ao assassinato do general Qassim Soleimani, o ataque sem mortos ou feridos demonstrou uma falta de disposição do país islâmico de escalonar o clima de hostilidade.

ATTA KENARE via Getty Images
Funeral do general Qasem Soleimani, com imagem dele ao receber uma honraria do líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei.

“Não tínhamos a intenção de matar”, disse o chefe da força aérea da Guarda Revolucionária. No Twitter, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, já havia seguido a mesma narrativa do general. “Nós não procuramos escalar o conflito ou uma guerra, mas vamos nos defender contra qualquer agressão.”

Ele acrescentou ainda que Teerã tomou medidas proporcionais de autodefesa, seguindo o artigo 51 da Carta das Nações Unidas.

Reforça a tese de que o Irã não tinha a intenção em escalonar o conflito o fato de o país ter avisado com antecedência ao Iraque que atacaria as bases usadas pelos EUA em seu território. 

Agências de espionagem americanas alertaram a Casa Branca, três horas antes do lançamento dos mísseis, que um ataque iraniano era iminente nas horas seguintes.  

Uma reportagem do New York Times que detalha a tensão entre o momento em que o aviso chegou até a hora do ataque afirma que as discussões iniciais sobre a estratégia de prevenção foram conduzidas pelo vice-presidente Mike Pence e o assessor de segurança nacional da Casa Branca, Robert C. O’Brien.

Eles desceram à Sala de Situações assim que foram informados pelo alerta. Em seguida, chegou o presidente Donald Trump. Logo que as informações de um iminente ataque chegaram, funcionários americanos e iraquianos da embaixada dos EUA em Bagdá deixaram o local em direção a abrigos antibombas. Ainda de acordo com a reportagem, uma hora mais tarde os mísseis que atingiram uma das bases sobrevoaram a embaixada.

Anadolu Agency via Getty Images // AL BAGHDADI TOWNSHIP / HANDOUT
Partes de mísseis encontrados na área rural de Al-Baghdadi, no Iraque, depois do Irã atacar a base Ain al-Asad.

O texto afirma que, desde cedo, satélites espiões captavam movimentos do arsenal iraniano e indicavam que um ato de vingança poderia ocorrer naquele dia. A base de Ain al-Asad, uma das atingidas, já tinha sido anteriormente alvo de diversas ameaças. O local que abrigava cerca de mil soldados americanos, estava vulnerável, por ter tido seu sistema antimísseis transferido para outra localidade.

A área distante 200 km de Bagdá, assim, era uma das mais vigiadas pelos EUA, contava com preparo americano para ser evacuada e a maioria dos militares remanescentes haviam sido transferidos para abrigos reforçados para resistir a atentados. 

No entanto, nos dias seguintes ao assassinato de Suleimani, o governo americano passou a enfrentar uma série de informações conflitantes. Uma delas era a de que um campo de treinamento militar ao norte de Bagdá poderia ser o alvo. A direção da CIA, de sua sede na Virgínia, e o Pentágono também acompanhavam as movimentações.

No momento em que o grupo arquitetava o plano para se defender do ataque, o presidente Donald Trump concedeu uma breve coletiva de imprensa. Aos repórteres, afirmou que se o Irã fizesse qualquer coisa que não deveria, iria sofrer as consequências de modo muito forte. “Estamos totalmente preparados”, disse.

Estamos totalmente preparados.Donald Trump, em coletiva de imprensa

Quando os ataques terminaram, o presidente e Pence procuraram líderes do Congresso, que pressionaram por uma resposta. Ao NYT, o senador republicano Lindsay Graham relatou que Trump disse que iria recuar por alguns dias para ver o que acontecia. 

Em um pronunciamento de dez minutos no dia seguinte aos ataques, Trump manteve o tom de evitar a escalada do conflito. Disse que o Irã parecia estar se acalmando.

A coordenadora de projetos do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Monique Sochaczewski, em entrevista ao HuffPost na última terça (7), disse acreditar que o ataque americano que matou o general iraniano representava mais o fim de um conflito maior do que o início de um.

“Minha leitura é que na realidade o atentado foi o ponto final de uma série de ações que o Irã  já havia feito contra os Estados Unidos. Foi muito mais uma resposta a várias implicâncias do Irã do que o começo de algo maior. O Irã é um país forte na região, mas meio fraco estrategicamente”, avalia.

A tensão, contudo, continua

Apesar da interpretação de que o clima de conflito arrefeceu, integrantes da Guarda Revolucionária do Irã afirmaram nesta quinta que, em breve, o país vai promover uma “vingança mais dura”. Abdollah Araghi, comandante sênior da Guarda, assim como o vice-geral da instituição, Ali Fadavi, prometeram retaliação brusca.

“A operação foi apenas mais uma manifestação de nossas capacidades. Nenhum país já fez um ato tão grande contra os Estados Unidos como nós. Nós jogamos dezenas de mísseis no coração da base dos EUA no Iraque e eles não puderam fazer coisa nenhuma”, disse Fadavi, segundo o jornal O Globo.

A reportagem do jornal destaca que é comum a diferença entre o tom das autoridades iranianas, e costuma depender do público-alvo da mensagem — se interno ou externo.