OPINIÃO
03/07/2020 03:00 -03 | Atualizado 03/07/2020 11:23 -03

Quem tem medo de investir em talentos pretos?

O debate de raça se tornou a principal pauta ao redor do mundo; já na TV aberta a impressão é que tudo avança, menos a representatividade.

Um mês e meio após o brutal assassinato de George Floyd, em Minnesota, que desencadeou uma inédita tomada antirracista global - ainda em curso -,  começamos a contabilizar medidas emergenciais tomadas em prol da igualdade racial.

O debate de raça, outrora tímido ou até mesmo inexistente em muitos países do mundo, tornou-se a pauta principal há semanas, ocupando o topo do Trend Topics mundial no Twitter. Praticamente não há um país onde esse assunto não esteja sendo pautado com toda a seriedade e protagonismo que lhe é caro.

A começar pelos Estados Unidos. Do dia 25 de maio para cá, são incontáveis as ações práticas tomadas em vários setores da sociedade para combater o racismo.

Só para ficar no ramo do audiovisual e entretenimento, na última quarta (1º), Bozoma Saint John, foi anunciada como a nova diretora de marketing da Netflix, a maior provedora global de filmes e séries de televisão via streaming.

Saint John, uma mulher negra retinta, executiva sênior com quase 20 anos de experiência, veio direto Endeavor, mas traz na bagagem experiência como diretora de marca da Uber. Ademais, ela também foi chefe de marketing de consumo global da Apple Music e iTunes. Antes foi diretora do grupo de marketing de música e entretenimento da Pepsi-Cola na América do Norte.

E não é só isso. Nesta semana, a mesma Netflix também anunciou que deve alocar 2% de seus investimentos em dinheiro - inicialmente até 100 milhões de dólares - em instituições financeiras e organizações que apóiam diretamente as comunidades negras nos EUA.  

Reed Hastings, fundador e CEO da Netflix, doou ele mesmo, um total de 120 milhões de dólares para faculdades historicamente negras, como o Spelman College e Morehouse College.  A contribuição financiará a educação universitária para estudantes negros em todo o país, ajudando a reverter gerações de desigualdades nos EUA.

Um sem-número de celebridades americanas, negras e brancas, tomaram a mesma atitude de Reed Hastings e doaram fortunas para escolas, universidades e organizações de combate ao racismo. Entre eles o ex-astro da NBA Michael Jordan, que doou 100 milhões de dólares para o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), só para citar um.

Em meados de junho último, a HBO causou comoção global com o anúncio da retirada do clássico do cinema  ...E o Vento Levou (1939), de Victor Fleming, de seu catálogo sob a justificativa de que a obra romantizava o período da escravidão americana. Voltou atrás na ideia, porém anunciando que a obra traria agora um vídeo explicativo com uma atriz negra contextualizando a obra

A Disney também não ficou atrás e já tratou de mexer seus pauzinhos. A Disney+, que reúne centenas de produções cinematográficas e televisivas, adota esse mesmo modelo de aviso desde seu lançamento, em novembro de 2019, e a partir de agora dará mais ênfase às contextualizações. 

Atrizes brancas como Kristen Bell e Jenny Slate anunciaram na semana passada que não vão mais dublar personagens negras. A decisão pode ser entendida como um ato simbólico de entendimento de seus lugares de privilégio na cadeia evolutiva do cinema.

Mais de 300 profissionais negros do audiovisual assinaram uma carta dias depois pedindo mudanças nas produções americanas. Um trecho da carta diz: “Nós exigimos que Hollywood se afaste da polícia, de conteúdos contra negros; invista em nossas carreiras, em conteúdos antirracistas e em nossa comunidade”.

Leon Bennett via Getty Images
Bozoma Saint John, a nova diretora de marketing da Netflix.

Pelo visto, ecos da carta-protesto parecem ter sido ouvidos. Nesta semana a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela entrega do Oscar, convidou mais 819 artistas e executivos para fazer parte do grupo. Deste total, 45% são mulheres, 36% deles não-brancos e 49% são de 68 países estrangeiros, inclusive o tão negligenciado sul global. Uma destas artistas é a montadora negra brasileira Cristina Amaral, que foi convidada a entrar para a Academia pelos profissionais da área de documentário.

Na Europa, a discussão racial, atrelada a tão abafada pauta colonial, segue a todo vapor. No último dia 20 de junho, o Parlamento Europeu e todos os seus eurodeputados  se posicionaram em sessão histórica a favor do movimento americano Black Lives Matter e contra a prática do racismo e violência nos EUA, Europa e toda parte do mundo. 

Numa resolução aprovada com 493 votos a favor, 104 contra e 67 abstenções, o Parlamento Europeu condenou veementemente a “morte deplorável” de George Floyd nos EUA, bem como mortes similares em outras partes do mundo.

O Parlamento Europeu ainda reconheceu oficialmente as injustiças e os crimes contra a humanidade cometidos no passado contra pessoas negras e não brancas. Com isso, passa a incentivar a inclusão de suas histórias nos currículos escolares de todos os países da União Europeia, tendo declarado a escravidão “um crime contra a humanidade”.

E além de iniciativas concretas nos setores da educação no que tange, sobretudo a imigração, vimos na última terça (30) Filipe, Rei da Bélgica, se pronunciar, pela primeira vez na história, com as seguintes palavras: “meus mais profundos arrependimentos pelas feridas infligidas durante o período colonial belga no Congo”. 

O pedido de desculpas foi endereçado ao presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, durante as comemorações dos 60 anos da independência da República Federativa do Congo. O monarca europeu ainda completou: “Gostaria de expressar os mais profundos pesares por essas feridas do passado, cuja dor agora é reacendida pela discriminação ainda presente nas nossas sociedades”. Não é nada, mas já é alguma coisa.

Mas… e o Brasil?

No Brasil, a classe artista e formadores de opinião nunca se engajaram tanto nas pautas antirracistas desde o assassinato de George Floyd para cá. Nem com o assassinato de Cláudia, com os cem tiros disparados contra o carro com cinco jovens negros em Costa Barros, com a execução durante a quarentena do adolescente João Pedro em São Gonçalo ou mesmo com a infame morte do menino Miguel, de cinco anos, morto num condomínio de luxo do Recife ao cair do parapeito de uma altura de 35 metros em decorrência do negligenciamento da primeira-dama do município de Tamandaré (PE), Sari Corte Real, indiciada por abandono de incapaz. Nunca haviam se engajado tanto.

Na TV, a GloboNews precisou se esforçar bastante para conseguir reunir praticamente todo o seu time de jornalistas negras para debater sobre racismo no Em Pauta, ação inédita em 60 anos de TV brasileira. 

Ainda assim tal feito só se deu devido às duras críticas do público durante o auge da cobertura das manifestações antirracistas nos EUA nesse mesmo programa que, até o dia anterior, era realizado somente com comentaristas brancos. Desde então Flávia Oliveira e Zileide Silva passaram a integrar a bancada fixa do programa. 

Já na TV aberta a impressão é que tudo avança, menos a representatividade. Atualmente estão no ar três reprises de novelas cuja direção, autoria e elenco são 99,9% brancas. Com o agravante de uma delas glorificar de maneira irresponsável o período colonial e com isso romantizar a escravidão negra e indígena. 

Todavia, anteriormente estava no ar a novela Nos Tempos do Imperador que, pasmem, exaltava o mesmo tema e a figura de Dom Pedro II. A gravação da novela foi interrompida pela covid-19. Em tempos de BLM e narrativas decoloniais tais produções fazem com que ...E o Vento Levou seja fichinha em termos de narrativas racistas. Com o diferencial de que a produção do clássico americano data de 1939 e as novelas da Globo de 2017 e 2020, respectivamente.

Luana Génot, diretora de idealizadora do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) e da campanha Sim à Igualdade Racial, em suas redes sociais provocou multinacionais americanas com filiais no Brasil e empresas brasileiras com a seguinte e definitiva fala: “Antirracismo é colocar a mão no bolso”. 

E investir em talentos pretos. Os únicos capazes de mudar o trágico destino de desigualdades que amaldiçoam o Brasil há 530 anos.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.