ENTRETENIMENTO
22/04/2020 15:51 -03

Em tempos de pandemia do coronavírus, 'Invasão Zumbi' é quase um filme realista

Em nossa 3ª edição do Cineclube HuffPost, o escritor e roteirista Raphael Montes falou sobre um dos grandes hits de terror da Netflix.

Uma pequena caminhonete rural é obrigada a parar em um posto de controle em uma estrada. Na placa do posto lê-se “quarentena”. Nela, dois homens devidamente vestidos com roupas especiais para isolamento biológico, espirram uma solução para limpar o veículo. O motorista reclama. Um dos homens pede desculpas, mas informa que o local está passando por um período de quarentena obrigatório.

Essa cena poderia estar acontecendo neste exato momento em estradas do mundo todo, mas é apenas a cena de abertura de Invasão Zumbi (2016), assunto da terceira edição do Cineclube HuffPost.

Só para explicar quem não faz ideia do que estamos falando, o Cineclube HuffPost foi uma ideia que tivemos para dar uma amenizada nesses dias de distanciamento social fazendo algo que adorávamos fazer quando era legal sair de casa: bater um papo sobre um filme depois de assistí-lo.

Dividido oito temas, o Cineclube traz, uma vez por semana, dois filmes que serão votados em nossas redes sociais. O escolhido será debatido com um convidado especial em uma live no Instagram toda sexta-feira, sempre às 21h.

“Ver Invasão Zumbi na quarentena é bem louco. Em tempos de coronavírus, ele é quase um filme realista. E é até muito atual. E se existir um vírus sei lá onde que nos transformaria em outra coisa? Aliás, é um filme que eu recomendo para quem está em casa triste, porque poderia ser muito pior”, disse nosso convidado da vez, Raphael Montes.

Autor de livros como Suicidas, Dias Perfeitos, O Vilarejo, Jantar Secreto e roteirista de séries como Espinosa e SUPERMAX, ele sabe do que está falando quando se trata de suspense/terror e bateu um ótimo papo com a gente sobre o filme dirigido pelo sul-coreano Sang-ho Yeon, que ele confessou ter visto pela primeira vez ao ser convidado por nós para participar do Cineclube.

“Achei curioso o convite porque eu escrevo suspense/terror, mas o terror que eu escrevo é um terror que não vai tanto para o sobrenatural e filme de zumbi é sobrenatural. Tem filmes de zumbi que confesso que não sou tão fã, então fui ver já pensando: Lá vou eu ir para a live falar mal do filme. Mas eu adorei Invasão Zumbi!”

“Desde [do diretor] George Romero, os zumbis sempre foram usados como metáfora social e política e isso de algum modo ficou um pouco desgastado. O que eu achei muito legal do Invasão Zumbi especificamente em relação aos clássicos é uma repaginada na figura do zumbi. Até uma mudanças de regra. Aqui, os zumbis são rápidos, ágeis. Mas também há a criação de verossimilhança daquele universo, como, por exemplo, eles não enxergam no escuro e não conseguem abrir portas. Achei muito interessante essa pegada. Claro que tem ainda a crítica social, ou seja, é uma metáfora social”, explicou Montes.

Divulgação
Dong-seok Ma (esq.), a pequena Su-an Kim e Yoo Gong em cena de "Invasão Zumbi".

Sobre o fascínio do público com os zumbis, um sub-gênero do terror que nunca saiu de moda, Montes discorre sobre a semelhança que temos com esses seres monstruosos. “Histórias de zumbi mostram ou relembram que todos nós temos um lado animalesco. Eu acho que a grande pergunta do filme é: Quem é pior, os zumbis ou os humanos? Quem é o verdadeiro inimigo?”

“Mas ao mesmo tempo, o grande debate, e isso é uma tendência em suspense/terror, é essa coisa de que na superfície é uma história de terror ou suspense, mas embutido nela há uma discussão social, política. Vide O Poço, que está fazendo muito sucesso agora na Netflix. O Corra!, que discute o racismo. E Invasão Zumbi discute alguns temas sociais de uma maneira bem legal. Tem até um bolsominion no filme [risos]!”

O comentário social, aliás, é uma tradição nesse sub-gênero que foi inaugurado com A Noite dos Mortos Vivos, de 1968. dirigido pelo papa do terror George Romero (1940–2017), o filme foca muito mais nos humanos do que nos monstros, mostrando exatamente que a maior ameaça à sociedade somos nós mesmos. O filme quebrou até uma barreira importante, como colocar um ator negro como protagonista em uma época que isso era quase inexistente. 

“O objetivo de um diretor, de um escritor é contar uma boa história. Só que, poxa, se você vai usar um meio tão potente como a literatura ou cinema, vai só contar uma boa história? Além de contar uma boa história, você pode discutir assuntos. Outro filme de terror recente que me veio à cabeça agora é O Homem Invisível (2020). Que discute abuso, machismo... E nesse sentido Invasão Zumbi é muito interessante, não só pela ação. Ele faz um comentário sociopolítico importante”, comenta o escritor/roteirista carioca.

“Confesso que gosto muito desse tipo de filme que propõe um ambiente fechado e explora a humanidade das pessoas na medida que elas estão confinadas naquele lugar. E Invasão Zumbi vai além, porque pega um trem, que dá essa ideia de velocidade, de thriller, da coisa andando sem parar, mas em um ambiente fechado, extremamente apertado. Achei uma sacada genial”, conclui.