OPINIÃO
13/04/2020 02:00 -03 | Atualizado 13/04/2020 02:00 -03

'Acabei de sair da UTI. Foi assim que superei a covid-19'

Este depoimento mostra o que há além do sofrimento físico e mental durante a recuperação da infecção causada pelo novo coronavírus.

Apesar de ter 51 anos, ainda moro num apartamento que divido com duas pessoas que não são meus parentes, tenho dois empregos “normais” (enfermeiro e trabalho com estudantes secundaristas) que sustentam minha arte (sou humorista), e até 15 dias atrás eu odiava o governador de Nova York, Andrew Cuomo, por uma série de razões políticas refletidas e argumentadas, mas agora não sei se estou apaixonado por ele ou se queria que ele fosse meu pai.

Em outras palavras, sou um nova-iorquino típico.

Apesar dos mais de 15 anos passados vivendo nos cinco “boroughs”, há dias em que minha alma nascida no Wisconsin se manifesta inesperadamente – e inconvenientemente – na minha vida no Brooklyn. Como na semana passada, quando eu estava encostado numa maca numa sala de emergências pediátricas de um hospital local, transformada em sala de emergências de covid-19. Eu estava ofegando, sem conseguir respirar direito. Estava apavorado, pensando “que merda, isto daqui é sério mesmo”, mas também morrendo de vergonha, tipo “calma, não vamos fazer tempestade em copo d’água! E daria para você parar de me olhar?”

É uma coisa típica do Meio-Oeste americano. Fazer as outras pessoas se preocuparem com você é considerado falta de educação.

Mas eu tinha tido tosse forte por vários dias e aí começado a sentir cada vez mais falta de ar. Num primeiro momento, não pensei que pudesser ser a covid-19, porque não cheguei a ter febre de verdade. Mas então, morrendo de vergonha porque, meu Deus, eu precisava de ajuda, e com os lábios azulados por falta de oxigênio, fui para um hospital de Manhattan onde já recebi atendimento médico altamente competente no passado.

Entrei no hospital com uma camisa de flanela vermelha amarrada em cima do rosto, dos olhos para baixo. Se alguns dos primeiros enfermeiros e médicos que me avaliaram acharam que eu parecia um assaltante de faroeste queer e de meia-idade, eles tiveram a gentileza de não dizer nada. Em vez disso, a enfermeira de triagem falou apenas “aplaudo seu esforço”, me entregou uma máscara descartável que ninguém mais havia usado na última meia hora e mediu minha temperatura e batidas cardíacas.

Por um instante, pareceu uma manhã qualquer de quinta-feira numa sala de emergência hospitalar. Mas então uma funcionária trajada dos pés à cabeça em roupas protetoras de plástico chamou meu nome e fez sinal para eu segui-la. Passamos por uma porta pesada.

“Oh”, falei. “É aqui que vocês contêm a pandemia.”

Tentei ficar com os olhos fixos na minha ficha enquanto a funcionária me conduziu por uma enfermaria, passando fileiras e mais fileiras de leitos separados por divisórias de plástico opaco puxadas para fora de colunas isoladas, como se fossem telonas de vídeo portáteis deitadas de lado. Cada cubículo improvisado estava cheio de vários tipos de equipamentos, com um paciente que fazia um esforço enorme para respirar, mais um ou dois funcionários em seus uniformes de astronauta.

E então chegamos ao meu cubículo, e lá estava eu, encostado numa maca, com uma médica de emergência me olhando fixamente. Ainda não eram 9h da manhã, mas ela parecia exausta, como se tivesse acabado de concluir a maratona de Nova York.

“Estou preocupada com sua respiração ofegante.”

“Ah... tá...”, falei, tentando elevar o astral, se bem que meu timing cômico estivesse prejudicado por aquela história toda de estar ofegando, tentando inspirar ar nos meus pulmões. “Também... estou.”

A Médica Cansada e Gentil (não consigo me lembrar do nome dela, apesar de ter perguntado umas três vezes) perguntou se tudo bem para mim eu ser entubado. Me lembro de ter achado que era um momento estranho para termos uma discussão teórica sobre um assunto tão sério. O que ela estava fazendo – uma pesquisa? Mas então notei um grupinho de funcionários de saúde diante do meu quarto, vestindo seus trajes de proteção e pairando à minha volta como um bando de chacais usando EPI e tremendamente prestativos. Foi alarmante.

De repente me dei conta de que ninguém tinha sequer pedido os dados do meu convênio médico.

Aquilo me assustou ainda mais.

Tive sorte: reagi bem aos esforços não invasivos. Os Chacais Prestativos foram ajudar em outras dezenas de situações semelhantes que eu podia ouvir ocorrendo à minha volta.

Arquivo Pessoal
Alguns pacientes acham isso arejado demais”, explicou o terapeuta respiratório, falando da cânula nasal de alto fluxo, “como se você estivesse com uma mangueira de jardim enfiada no nariz.”

Nenhum visitante é autorizado a entrar na área do setor de emergências reservada aos pacientes cujos sintomas os colocam na categoria de “provavelmente com covid”. Mandei mensagens a várias pessoas para informar onde eu estava, pedindo à minha irmã e minha namorada transmitirem a mensagem a outras pessoas, já que eu tinha esquecido de trazer uma bateria extra para meu celular. Desliguei o celular e então tive tempo para pensar.

Pensei no sorriso de minha namorada.

Pensei em como meus alunos deviam estar lidando com a pandemia. Pensei até, ou talvez especialmente, no garoto que tira mais sarro de minhas tatuagens.

Pensei em minha mãe, que está com 86 anos e faz quimioterapia há quase cinco anos devido a um problema sanguíneo raro. Pensei em como ela ficaria brava se eu morresse antes dela.

E como ela sorriria se soubesse que eu estava preocupado com isso.

E então, sem ter outras distrações, e cercado pelos sons alarmantes de sofrimento respiratório (incluindo o meu), não consegui mais deixar de pensar naquilo que eu vinha evitando.

Sou enfermeiro há mais de duas décadas, mas a maior parte de minha experiência com problemas respiratórios graves tem sido em minha vida pessoal, não a profissional.

Em 2010 minha então companheira Cheryl recebeu o diagnóstico de linfoma de Hodgkins, que, com o tratamento, tem prognóstico de sobrevida de 86%. Num exemplo altamente irônico (de verdade desta vez, Alanis) de a cura ser pior que a doença, o tratamento quimioterápico padrão dado a Cheryl a levou a apresentar efeitos colaterais pulmonares.

Quando os sintomas ficaram tão graves que ela precisou ser internada num hospital, eu me “internei” junto, dormindo em cima de um cobertor sobre o radiador ao lado da cama dela. Tive sorte por poder fazer isso: eu tinha amigos que me ajudavam e tenho pernas curtas.

Cheryl passou três meses lutando para respirar, movendo-se entre a UTI, a unidade intermediária e depois de volta à UTI. A lembrança de ficar diante do quarto dela no hospital gritando “estou aqui, meu bem! Olhe para meu rosto!” enquanto a colocavam para respirar com um aparelho de BiPAP, com uma lágrima escorrendo pelo rosto dela fora da máscara, é uma das mais dolorosas de minha vida, talvez até mais dolorosa do que o momento quando ela morreu nos meus braços.

Naquele instante de separação física, me senti totalmente impotente, como se eu não estivesse fazendo nada por ela.

Depois de deixar minha respiração num ritmo mais compatível com a continuação da vida, os funcionários me levaram para o piso de cima, a UTI. Os dias seguintes foram tão desagradáveis quanto você pode imaginar – lutando para conseguir respirar, revivendo na minha cabeça aqueles momentos lancinantes no hospital com Cheryl e tentando processar todas as preocupações aleatórias, ligadas à morte, que ficavam passando por minha cabeça.

“Que saco, eu devia ter dado minha senha do Facebook a alguém, para fecharem minha página”, pensei. “Não quero ninguém escrevendo coisas bregas no meu mural.”

Arquivo Pessoal
A primeira regra do piso reservado à covid-19 é que visitas não são permitidas.

Mas, apesar do isolamento logístico e do sofrimento físico muito real, houve momentos de conexão humana que não me deixaram sentir que eu estava verdadeiramente só.

Minha namorada me telefonou e disse: “Você não precisa falar. Vamos ficar ao telefone, só isso.”

Meus colegas de apartamento me mandaram fotos de nossos gatos ridículos fazendo coisas ridículas.

Alguns amigos mandaram videomensagens das coreografias que eles estavam dançando na quarentena.

Uma enfermeira tirou um momentinho para olhar nos meus olhos, e não apenas para meus dados vitais no monitor.

Um terapeuta respiratório que ajustou meu fluxo de oxigênio para cima começou nossa interação dizendo “sei que isto é assustador, mas...”

O diretor de atendimento pulmonar riu da minha tentativa de contar uma piada (que não chegou a ser engraçada).

Depois de quase uma semana, consegui respirar suficientemente bem para poder receber alta do hospital, e agora tenho consciência aguda de como tenho sorte – e como seu privilegiado. Tive acesso econômico e logístico a um nível de atendimento médico que provavelmente ficará muito mais difícil de se conseguir em Nova York nas próximas semanas. Falo a linguagem do atendimento médico e me sinto suficientemente à vontade num ambiente hospitalar para poder dizer o que quero e preciso, mesmo quando eu estava muito mal. Tenho um emprego e um apartamento para os quais voltar.

Arquivo Pessoal
Com toda sua dramaticidade habitual, Nova York oferece um pôr-do-sol vislumbrante por cima do horizonte de Manhattan, visto da UTI.

Como a maioria das crises, a covid-19 amplificou as desigualdades sociais e econômicas e deixou os cidadãos mais vulneráveis do planeta em situação exponencialmente mais vulnerável ainda. Ao nível macro, se realmente acreditamos que todo o mundo merece o tipo de atendimento e apoio dado ao príncipe Charles e a Tom Hanks, cabe a todos nós, humanos decentes, coletivamente falando, lutar com tudo para converter isso numa possibilidade.

Para ser totalmente franco, eu esperava por uma crise global de um tipo um pouquinho diferente, talvez uma crise envolvendo um gorila gigante, uma trilha sonora fantástica, muitos figurinos sexies e The Rock vindo salvar todo o mundo no final.

Ou, no mínimo, uma crise na qual ainda pudéssemos trocar abraços.

Mas, para citar minha mãe, que é do Meio-Oeste, não podemos trabalhar com a pandemia que gostaríamos de ter – temos que trabalhar com a pandemia que nos é dada. E isto passa a ser nosso desafio diário: o que significa estar presente e dar apoio às pessoas que amamos, quando a natureza da crise requer que fiquemos fisicamente distantes?

Duvido que alguém que mencionei acima entenda como foi profundo o efeito positivo que suas ações pequenas teve sobre mim, assim como eu, até a semana passada, não entendia como deve ter sido profundo o efeito que teve para Cheryl, no meio do sofrimento dela, o fato de eu estar presente, mesmo que fora de seu alcance físico.

Não podemos dizer que esses pequenos momentos de conexão humana através de plástico, máscaras ou wi-fi mitiguem a tragédia humana concreta. Mas esses momentos podem reforçar nossa humanidade abalada. E, embora isso esteja longe de ser o bastante, é profundamente melhor do que conexão nenhuma. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.