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06/05/2020 02:00 -03 | Atualizado 06/05/2020 08:32 -03

4 interesses da família Bolsonaro em investigações policiais no Rio de Janeiro

Presidente deve indicar nome para substituir superintendente da Polícia Federal no Rio. Ele alega interesse no cargo por ser "seu estado" e ter seu nome implicado no caso Marielle.

Ueslei Marcelino / Reuters
Presidente nega interferência na PF, se irrita com a imprensa e manda repórteres calarem a boca. 

O primeiro ato do novo diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre de Souza, na última segunda-feira (4), foi retirar o superintendente da corporação no Rio de Janeiro, Carlos Henrique Oliveira de seu posto. A justificativa foi sua promoção para a secretaria-executiva da corporação, o cargo número 2 da PF, mas que não lida com investigações. Sem Oliveira, o comando da PF no Rio — objeto de interesse de Jair Bolsonaro, como testemunhou o ex-ministro Sergio Moro — fica vago para um nome que agrade à família do presidente.

Por mais de uma vez, Bolsonaro tentou mudar essa cadeira. Nesta terça (5), ao justificar os motivos de sua insistência para substituir o superintendente da Polícia Federal do Rio de Janeiro, o mandatário disse que se trata de seu estado. E afirmou ainda ter sido “acusado de matar [a vereadora] Marielle [Franco]”. 

“Quer algo mais grave? O presidente da República ser acusado de assassinato? A Polícia Federal tem que investigar. Por que não investigou com profundidade?”, completou, quando rebatia afirmações feitas pelo ex-ministro Sergio Moro em seu depoimento à PF e ao Ministério Público no último sábado (2) — as declarações do ex-juiz foram divulgadas nesta terça

Bolsonaro e os filhos negam que haja qualquer tipo de interferência ou interesse da família na Polícia Federal. Dizem, inclusive, que nenhum deles é alvo de processos ou investigações. 

“Não tem nenhum parente meu investigado pela Polícia Federal, nem eu nem meus filhos, zero. Uma mentira que a imprensa replica o tempo todo, dizer que meus filhos querem trocar o superintendente [da PF no Rio]”, disse o presidente nesta terça. 

Pela manhã, irritado com a manchete da Folha de S.Paulo de que “Novo diretor da PF assume e acata pedido de Bolsonaro”, gritou com repórteres, mandando que calassem a boca por 3 vezes. 

No ano passado, o presidente já havia tentado intervir na substituição da superintendência do Rio. “Se ele [Moro] resolver mudar, vai ter que falar comigo. Quem manda sou eu”, disse Bolsonaro, em agosto, sobre a ida de Carlos Henrique Oliveira de Pernambuco para a superintendência do Rio. Na época, Bolsonaro tentava emplacar Alexandre Saraiva, superintendente no Amazonas. 

Saraiva voltou a ser um dos nomes prediletos agora, ao lado do delegado Rodrigo Piovesan Bartolomei, para assumir a superintendência do Rio. Ambos contam com a simpatia dos filhos de Bolsonaro. 

Veja o que o Rio tem de especial para levar Jair Bolsonaro a querer interferir na Polícia Federal de lá: 

Rivalizar com o adversário Witzel

Bolsonaro acusa com frequência o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), de interferir na Polícia Civil do estado e de plantar provas para tentar atingir a si e a seus familiares. Em uma entrevista concedida ao apresentador José Luiz Datena em 24 de dezembro de 2019, o mandatário disse, sem apresentar provas, que há “um agente político” armando uma busca e apreensão com intenção de plantar provas na casa de um de seus filhos. 

“A nova intenção deles agora, eu não tenho como comprovar, mas querem fazer uma busca e apreensão na casa de um outro filho meu, pelo que tudo indica, fraudando provas, plantando provas falsas dentro da casa dele”, acusou.

A declaração indicava que o presidente se referia a Witzel, que apoiou Bolsonaro durante a campanha de 2018, mas se tornou adversário político dele no ano passado. “Chegou a meu conhecimento, eu não tenho como provar, esse mesmo agente político, lá do Rio de Janeiro, acertou gravações entre bandidos citando o meu nome para divulgar em uma grande rede de televisão depois. Isso acabou sendo abortado porque estourou essa intenção deles”, seguiu. 

Witzel já ameaçou entrar na Justiça contra o presidente, e chamou as acusações de Bolsonaro de “levianas e absurdas”. 

Citação do porteiro

Volta e meia o presidente recorda o episódio do depoimento do porteiro do condomínio onde tem uma casa na Barra da Tijuca, no Rio, o Vivendas da Barra, que o citou em depoimento. O caso está com a PF do Rio. O funcionário disse que foi Jair Bolsonaro quem autorizou a entrada do ex-policial militar Élcio de Queiroz no local horas antes da morte da vereadora Marielle Franco. 

Em fevereiro, a Polícia Civil do Rio concluiu que foi o miliciano Ronnie Lessa, vizinho de Bolsonaro no Vivendas da Barra, quem autorizou a entrada de Élcio. Tanto Ronnie quanto Élcio estão presos por supostamente terem participado do assassinato de Marielle e de seu motorista, Anderson Gomes. 

Bolsonaro reitera que a Polícia Federal investigou a menção a seu nome “com muito custo”, bem como a informação de que seu filho mais novo, Renan, teria namorado a filha de um dos acusados. “Eu descobri tudo, informei ao Moro e precisei insistir pra ele investigar”, afirmou nesta terça.

O esquema de rachadinha de Flávio 

Primogênito do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) é investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro no esquema de “rachadinha” quando era deputado estadual na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). Sua defesa já fez ao menos 9 pedidos ao Judiciário, em diferentes instâncias, para tentar arquivar o procedimento. 

A suspeita é que dinheiro desviado do salário de servidores do gabinete de Flávio, à época, tenha sido lavado em aplicações imobiliárias. O MP fala em “lucratividade excessiva” em operações de compra e venda de imóveis de Flávio. É neste inquérito que aparecem repasses de cerca de R$ 2 milhões para seu ex-assessor Fabrício Queiroz, que realizou também saques e transações em dinheiro vivo. 

Os crimes em apuração são peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e organização criminosa.

A Polícia Federal no Rio chegou a abrir inquérito para apurar o esquema da rachadinha, mas acabou pedindo arquivamento do caso. A Polícia Civil fluminense e o MP do Rio, porém, mantêm suas investigações.

O caso esbarra ainda no ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, morto em fevereiro em uma ação policial na Bahia. Flávio homenageou o ex-PM em ocasiões diversas e empregou em seu gabinete na Alerj a mãe e a ex-mulher de Adriano, apontado como chefe da maior milícia do Rio, o Escritório do Crime. 

Em 4 de janeiro deste ano, ao comentar o andamento das investigações sobre Flávio, Bolsonaro disse que, se tivesse poder, “teria anulado, cancelado” qualquer processo ou apuração. 

“Um dia vai chegar ao final esse processo”, disse o presidente. “Muito obrigado, governador Witzel, pelo trabalho que está sendo feito. Justiça vai ser feita, mas não essa justiça tua”, disse numa live transmitida neste dia em suas redes sociais. 

Carlos, o 02, também é investigado

Carlos, vereador na Câmara Municipal do Rio pelo PSC, também teria se valido da prática de funcionários fantasma em seu gabinete, segundo reportagem do Estadão do ano passado. 

O jornal destacou que Claudionor Gerbatim de Lima e Márcio da Silva Gerbatim nunca tinham emitido crachá ou registrado entrada na Câmara como visitantes, embora estivessem lotados no gabinete do 02. Eles são sobrinhos da mulher de Fabrício Queiroz. 

O Ministério Público do Rio abriu procedimento para investigar a prática de funcionários fantasma e também da rachadinha em setembro de 2019. 

Segundo a Folha, aliados de Bolsonaro por vezes afirmam que a investigação sobre Carlos está com a Polícia Federal.

 
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