Comportamento

Estas 3 histórias vão te inspirar a fazer intercâmbio depois dos 30

Enquanto o mercado vive a demanda por programas voltados ao público mais maduro, viajantes aproveitam experiências únicas ao redor do globo.
Entenda os motivos de quem decide fazer intercâmbio depois dos 30 anos.
Entenda os motivos de quem decide fazer intercâmbio depois dos 30 anos.

Patrícia Macedo, Nina Ferreira e Ana Paula Passarelli não se conhecem, mas têm muito em comum. Motivadas por diferentes fatores, as três decidiram desmistificar a ideia de que intercâmbio é coisa de adolescente e viajaram para o exterior depois dos 30 anos para estudar.

Suas histórias fazem parte de um movimento crescente nos últimos anos. Segundo dados da STB, desde 2018 a procura por viagens entre o público com mais de 30 anos cresceu cerca de 20%.

As explicações para tamanha demanda se baseiam na consolidação dessas pessoas no mercado de trabalho. É que, normalmente, depois dos 30, há maior independência financeira e estabilidade, aumentando as condições para bancar uma experiência no exterior.

Muitos dos intercambistas nessa faixa etária também estão em transição de carreira, buscando uma melhor colocação profissional e encontram na mudança a oportunidade perfeita para investir em um curso que fará diferença no currículo.

O mesmo acontece na CI, outra gigante no setor de intercâmbios. Por lá, 30% dos clientes tem mais de 30 anos.

“O crescimento aumentou a partir da crise de 2008, quando o público passou a entender cada vez mais a necessidade de se destacar dentro do mercado de trabalho e enxergar a experiência internacional como algo decisivo”, explica Gilberto Mingrone, diretor-geral da CI.

Nessa demanda, de um modo geral, os cursos mais procurados são de idiomas com atividades relacionadas a hobbies, trabalho, cursos profissionalizantes e educação executiva.

As experiências não têm tempo definido e podem durar de três dias a três meses. O diretor explica que os destinos vão de acordo com as intenções do viajante.

“Variam desde os mais tradicionais, como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, até locais como Singapura, onde oferecemos missões para executivos e líderes empresariais. Já para trabalho voluntário, por exemplo, temos a África do Sul”, explica.

As duas empresas consultadas oferecem programas específicos para o público. Na STB é possível optar por cursos dedicados exclusivamente a turmas com alunos com mais de 30, onde eles podem fazer networking com pessoas da mesma idade.

Já na CI, existe um portfólio de educação executiva, que leva alunos para missões e cursos no exterior com aulas voltadas a temas como liderança, transformação digital, tecnologia e empreendedorismo.

Para a jornalista Daniela Azeredo, que trabalha como coach de carreira nos Estados Unidos há três anos, a clientela com 30 anos ou mais também tem crescido.

“Eles sabem da importância que é investir neles mesmos e buscar novas experiências em outras culturas. Morar em outro país é possível e eles estão conquistando seus sonhos”, conta.

Aqui, as intercambistas Patrícia, Nina e Ana Paula dividem suas histórias, objetivos e alegrias:

“Calma, não vai ter só adolescente na turma”, por Ana Paula Passarelli, 35 anos, head de operações

"Estudava das 8h às 16h e tinha pouco tempo para fazer qualquer outra coisa, mas consegui dar um jeito de conhecer a cidade e seus pontos turísticos."
"Estudava das 8h às 16h e tinha pouco tempo para fazer qualquer outra coisa, mas consegui dar um jeito de conhecer a cidade e seus pontos turísticos."

Aos 30, decidi ir para São Francisco, onde fiquei por 40 dias morando em uma casa de família e estudando em tempo integral. Na época tinha um bloqueio com o inglês e queria viver uma imersão.

Deixei marido, cachorros e fui. Muitos me questionaram sobre deixar meu marido aqui, mas sempre entendi que casar não significava não poder fazer mais nada sozinha. Ele foi meu maior incentivador.

Aquela foi minha primeira viagem para os Estados Unidos e eu queria conhecer a cultura da cidade.

Acabou sendo muito solitário, senti falta da família, dos amigos e cachorros, mas aproveitei meu tempo livre para preencher a agenda, conhecer gente nova e treinar meu inglês.

Visitei os escritórios do Twitter, LinkedIn, Evernote e várias universidades. Estudava das 8h às 16h e tinha pouco tempo para fazer qualquer outra coisa, mas consegui dar um jeito de conhecer a cidade e seus pontos turísticos.

Fiz duas colegas com quem falo até hoje, uma de São Paulo e a outra da Turquia. Lembro que eu esperava só ter jovens na turma, mas as pessoas tinham idades próximas à minha e isso fazia toda a diferença nos assuntos em sala.

“Fui buscar propósito e voltei empreendedora”, por Nina Ferreira, 33 anos, dona de uma agência de viagens

"Saí da bolha e considero como a melhor decisão da minha vida."
"Saí da bolha e considero como a melhor decisão da minha vida."

Fiz meu primeiro intercâmbio aos 29 anos. Fui para Brisbane, na Austrália, com a intenção de ficar cinco meses, mas acabei renovando o visto para mais um ano.

Na época, queria muito viver uma nova experiência, conviver com outras pessoas e repensar alguns planos de vida. Depois de morar três anos em São Paulo, na maior correria, queria encontrar mais sentido para as minhas escolhas.

Eu já tinha viajado antes para Portugal e Colômbia, mas sempre acompanhada. Essa foi a minha primeira viagem internacional sozinha. Fiquei as seis primeiras semanas em casa de família e depois me mudei.

Minha rotina era de uma estudante que precisava trabalhar para se manter. Ouvi de muitos amigos que era velha para fazer a viagem, mas completar 30 anos lá nunca foi uma questão.

Mergulhei em uma experiência de vida muito maior do que eu podia imaginar. Aprendi a conviver com o inesperado e a aceitar as diferenças que antes não cruzavam meu caminho. Saí da bolha e considero como a melhor decisão da minha vida.

Fui certa de que voltaria ao Brasil, e terminar meus estudos foi como fechar um ciclo. Quando voltei tudo mudou. Abandonei a psicologia e abri minha empresa de viagens. Depois disso já fiz outros três intercâmbios e grande parte dos meus clientes na empresa hoje tem de 30 a 60 e poucos anos.

“Queria perder o medo de falar e vivi experiências maravilhosas”, por Patrícia Macedo, 40 anos, especialista em gestão de qualidade

"Às vezes ia ao bar com alguns colegas. Lá, tomando uma cervejinha, a conversa rolava com mais facilidade e eu nunca estava sozinha."
"Às vezes ia ao bar com alguns colegas. Lá, tomando uma cervejinha, a conversa rolava com mais facilidade e eu nunca estava sozinha."

No último mês de agosto fui para Vancouver, no Canadá, onde fiquei por quatro semanas. Trabalho em uma empresa global, então além de querer aprender a falar inglês para me comunicar com outras pessoas, a língua se fazia necessária no trabalho. Queria muito perder o medo de falar.

Fiquei em casa de família e minha “mãe” e sua sobrinha eram ótimas companhias. Amigáveis e interessadas, tomávamos café da manhã juntas e eu sempre estava em casa para jantarmos também. Eu amava conversar com elas todas as noites.

Na escola não encontrei alunos com idades próximas à minha, mas isso não foi um problema. A maior parte da turma tinha entre 18 e 25 anos. Da minha sala eu era a mais velha, tinha a idade do professor, mas foi ótimo, fiz muitos amigos.

Aproveitei para conhecer a cidade, perder o medo de andar sozinha e passear muito. Às vezes ia ao bar com alguns colegas. Lá, tomando uma cervejinha, a conversa rolava com mais facilidade e eu nunca estava sozinha.

No fim, voltei querendo ficar mais. Consegui perder o medo, conversei sobre coisas que jamais imaginei e indico para todos, é uma experiência única na vida.