LGBT
29/01/2019 08:07 -02 | Atualizado 31/01/2019 17:08 -02

No Dia da Visibilidade Trans, conheça 4 intelectuais referência no mundo acadêmico

Elas enfrentam barreiras também dentro da universidade, mas lutam para serem produtoras de conhecimento no País.

Divulgação/URPF
Megg Rayara Gomes de Oliveira é a primeira travesti negra a conquistar o título de doutora na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A sistemática exclusão familiar e escolar vivida pela maioria das pessoas trans no Brasil faz com que ainda seja pequeno o número de transexuais e travestis no mundo acadêmico. Muitas das que conseguem romper a barreira e entrar na universidade enfrentam empecilhos, muitas vezes ligados à transfobia, para seguir estudando.

Ainda são poucas, mas sua presença cresce a cada dia nas universidades, onde se tornam também produtoras de conhecimento.

“As pessoas em geral se interessam pela gente enquanto objeto de estudo, mas não como parceiras de pesquisa”, diz Jaqueline Gomes de Jesus, primeira mulher trans a defender uma tese de doutorado na Universidade de Brasília, em 2010. 

Para ela, o fortalecimento do movimento social e iniciativas como o autorização do uso do nome social no ENEM e nas escolas e a criação de cotas para pessoas trans em universidade ajudam a abrir mais portas.

“A primeira questão é construir uma autoestima de que é possível ocupar esse espaço. A gente não tinha, há algum tempo atrás, modelos de intelectuais trans no Brasil. Agora a gente começa a ter algumas meninas e meninos que ocupam esse espaço”, afirma Megg Rayara Gomes de Oliveira, primeira doutora trans da Universidade Federal do Paraná.

O HuffPost Brasil conversou com Megg, Jaqueline, com a escritora Helena Vieira e a pesquisadora Daniela da Silva e Prado - e traz suas histórias neste Dia da Visibilidade Trans, celebrado nesta terça (29).

Essas pensadoras, cada uma a sua maneira, conseguiu ocupar um espaço no mundo acadêmico, rompendo com a narrativa de que aquele lugar não era seu.

As pesquisadoras reconhecem e comemoram que hoje cada vez mais pessoas trans estejam produzindo conhecimento, dentro e fora da universidade, mas afirmam, pela própria experiência, que a academia, assim como a sociedade, ainda é um lugar pouco acolhedor para quem não se enquadra nos padrões da cisgeneridade.

“Não existe um lugar no mundo para as pessoas trans e a gente precisa construir esse lugar. E, para mim, não existe uma prática capaz de transformar o mundo que não seja orientada por uma teoria que seja transformadora”, afirma Helena. Conheça um pouco da história e do trabalho destas pensadoras:

1. Helena Vieira 

Arquivo Pessoal

Aos 28 anos, a paulista Helena Vieira já tem um nome conhecido no Brasil. A ativista transfeminista e escritora acumula alguns anos de produção de artigos, participação em debates, palestras e colóquios filosóficos, uma candidatura ao Congresso e até consultoria para a novela Força do Querer, da Rede Globo, em 2017. Somente no último ano, publicou capítulos em três livros: Tem Saída? Ensaios Críticas Sobre o Brasil (Zouk), História do Movimento LGBT no Brasil (Alameda) e Explosão Feminista (Cia das Letras).

A jornada de produção intelectual que a trouxe até aqui teve início junto com a própria jornada pessoal, em 2014. Formada pela USP em Gestão de Políticas Públicas em 2013, Helena se mudou no ano seguinte para Fortaleza, no Ceará, e iniciou sua transição. “Até então eu me identificava como um rapaz gay afeminado e achava que, se eu me comportasse, não ia sofrer preconceito. Isso até a primeira vez que eu saí de mulher na rua”, conta ao HuffPost Brasil.

A escritora então começou a pesquisar sobre as questões trans em uma tentativa de entender o que estava acontecendo consigo. “A experiência de sofrimento para mim chegou no limite do insuportável e foi só a possibilidade de tentar produzir sentido dentro desse caos que fez com que eu sobrevivesse à transição”, diz a ativista.

Nem mestra, nem doutora, Helena conquistou o reconhecimento por seu trabalho de forma autônoma aos títulos tradicionais da academia, num processo que ela apelida de “hacktivismo intelectual”. Apesar da formação na USP e de ter atuado durante um ano, entre 2015 e 2016, como pesquisadora do Núcleo de Políticas de Gênero e Sexualidade da Unilab, sua produção intelectual tem muito mais relação com o seu processo pessoal de transição, baseado em um suporte teórico sobre gênero e identidade.

Eu queria perguntar por que sou transexual e essa pergunta não faz o menor sentido, porque as pessoas não se perguntam por que são homens ou são mulheres.

Alguns de seus artigos foram publicados no HuffPost Brasil e o conhecimento que produziu a colocou dentro da academia de uma outra forma: ela conta que já participou de mais de 300 aulas, palestras e debates em universidades pelo Brasil.

“Eu me questionava ‘por que que isso está acontecendo comigo e não com outras pessoas?’, ‘por que que eu sou assim e não de outro jeito?.’ Eu não encontrei a resposta que eu queria, mas descobri que a pergunta que eu fazia era errada. Eu queria perguntar por que sou transexual e essa pergunta não faz o menor sentido, porque as pessoas não se perguntam por que são homens ou são mulheres. Essa pergunta não serve para nada. A questão é como eu vou estar no mundo.”

No ano passado, Helena deu um um novo passo e decidiu pela candidatura a deputada federal pelo Psol no Ceará, onde obteve 7 mil votos. O movimento, explica Helena, foi para mostrar que “as pessoas trans podem ser candidatas e podem disputar a política falando sobre tudo”. Ela considera que seu próximo desafio é o de romper os limites da identidade e tratar de grandes temas, sem abandonar a perspectiva transfeminista sobre sua leitura do mundo.

2. Jaqueline Gomes de Jesus 

Arquivo Pessoal

A brasiliense Jaqueline Gomes de Jesus é uma das mais influentes referências trans no âmbito acadêmico. Aos 40 anos, a ativista e escritora acumula os títulos de mestrado e doutorado em psicologia pela Universidade de Brasília e de pós-doutorado pela Escola Superior de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

Ela iniciou sua jornada na academia há mais de 20 anos, quando entrou no curso de graduação em psicologia na UnB, mas foi só durante o doutorado, em 2008, que iniciou o seu processo de transição. A experiência, segundo a pesquisadora, foi positiva, pois ela contou com o apoio de estudantes e professores e da própria universidade.

A produção acadêmica de Jaqueline não se restringe às questões de gênero e transexualidade. Em suas mais de 60 publicações, ela escreveu sobre diversos assuntos. Em sua dissertação de mestrado, por exemplo, discorreu sobre o trabalho escravo no Brasil contemporâneo. No doutorado, pesquisou as Paradas do Orgulho LGBT. E no pós-doutorado, correlacionou os temas “trabalho” e “movimentos sociais”.

Informação é fundamental e para mudar estereótipos é preciso criar novas narrativas.

Apesar disso, ela conta que percebe a transfobia na dificuldade em ter seu trabalho que não diz respeito aos assuntos de gênero reconhecido.

“Pessoas trans me referenciam, principalmente estudantes e jovens, mas eu vejo pouca referenciação de colegas mais antigos e de pessoas cis. Quando comecei a fazer concurso para instituições públicas também percebi uma dificuldade para ser aceita”, afirma. Hoje, Jaqueline atua como professora do IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro).

Ela conta que decidiu se debruçar sobre as questões trans quando percebeu a necessidade de uma “potencialização dos saberes” dentro da comunidade. “Informação é fundamental, e, para mudar estereótipos, é preciso criar novas narrativas. Resolvi contribuir dentro desse ativismo que eu faço, que é um ativismo intelectual, trazendo alguns conceitos que ainda hoje são muito fracos da forma como são apresentados, sobre identidade de gênero”, explica.

Em 2012 publicou o artigo “Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos”, em 2014 lançou o livro “Transfeminismo: Teorias e Práticas”, e, em 2015, “Homofobia: identificar e prevenir’, ambos pela editora Metanoia.

3. Megg Rayara Gomes de Oliveira

Primeira travesti negra a conquistar o título de doutora na Universidade Federal do Paraná (UFPR), Megg Rayara Gomes de Oliveira partiu da própria vivência para escrever sua tese, apresentada em 2017.

Mas para chegar até o título de doutora em Educação, Megg percorreu um longo caminho. Nascida em Cianorte, no interior do Paraná, ela iniciou sua vida na academia nos anos 90, quando estudou desenho e história da arte na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, em Curitiba.

Entre 2006 e 2007, fez um curso de especialização sobre história e cultura africana na Universidade Tuiuti, no Paraná, onde se aproximou do movimento social de negros e negras. “Para eu poder me convencer e acreditar que era possível entrar na academia para fazer um mestrado, eu me aproximei muito do movimento social”, conta.

Tentou quatro vezes até ser aceita, em 2010. “Nunca reprovei em nenhuma prova escrita, mas era sempre barrada na entrevista. E depois que fui aprovada, tinha que provar o tempo todo para todo mundo que aquele espaço era meu”, desabafa.

Ao longo do mestrado, não teve o uso do nome social e nem sua identidade de gênero respeitados. “Em todo o meu trajeto acadêmico antes do doutorado, a Megg não é a figura que assina essas produções e isso é muito doloroso”, afirma. A UFPR só permitiu o uso do nome social em 2015.

E depois que fui aprovada, tinha que provar o tempo todo para todo mundo que aquele espaço era meu.

A aprovação para o doutorado veio na primeira tentativa, mas o processo também teve seus obstáculos. “Cheguei a ouvir de uma professora que não existia racismo e homofobia no sistema educacional, porque, se isso existisse, eu não estaria no doutorado.”

Ela conta que sua própria produção acadêmica era posta em xeque, pela sua proximidade com o assunto. A tese foi baseada na própria trajetória de vida e de outros 4 professores negros homossexuais.

Sua tese de doutorado questiona “por que uma bicha preta decide se aventurar pela carreira docente”. De acordo com Megg, esse retorno representa “um acerto de contas com o passado” e uma forma de empoderamento. Depois de atuar como professora substituta no Setor de Educação da UFPR durante dois anos, Megg agora aguarda a nomeação como professora adjunta. Ela também dá aulas de desenho e pintura para crianças na Fundação Cultural de Curitiba.

“A bicha preta migra dos cantos escuros da escola, do fundo da sala de aula para a mesa da professora”, diz a doutora no texto.

 

Daniela da Silva Prado

Arquivo Pessoal

Há oito anos, a pesquisadora e professora Daniela da Silva Prado, 43 anos, era uma das poucas, se não a única mulher trans, defendendo uma tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Os 16 anos que passou na universidade, entre o bacharelado e a licenciatura em letras, mestrado em língua e literatura francesa e, finalmente, o doutorado, não foram fáceis.

“A USP foi meu céu e meu inferno. Lá fiz grandes amigos, que me apoiaram, mas também enfrentei muito preconceito. As pessoas escreviam mensagens de ódio sobre mim no elevador, nos banheiros. Fui muito perseguida”, conta. E continua: “Não se falava em transfeminismo, cisgeneridade. Por ser uma das raras pessoas trans naquele ambiente inóspito e preconceituoso que é a USP, paguei um preço alto por ter uma visibilidade compulsória e involuntária.”

O sonho de morar no exterior e a transfobia que vivenciava diariamente a fizeram buscar uma oportunidade fora do país. Logo após o doutorado, Daniela mudou-se para o Canadá, onde vive até hoje e concluiu seu pós-doutorado na Universidade do Québec. Lá, escreveu sobre a presença do humor na escrita feminina do Québec no século 19.

A USP foi meu céu e meu inferno. Lá fiz grandes amigos, que me apoiaram, mas também enfrentei muito preconceito.

A maioria da sua produção intelectual é voltada para a crítica literária e literatura comparada. Na tese de doutorado, analisa a recepção da literatura francesa pelo crítico e cronista brasileiro Brito Broca. No mestrado, falou sobre o suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo.

Na época da sua licenciatura, o tema do seu trabalho final foi a docência trans, a partir da própria experiência na sala de aula. “Na sala de aula também fui vítima de transfobia. Mas acho que aprendi a conquistar os alunos mostrando que uma trans ou travesti é uma pessoa como qualquer outra e que também tem competência e profissionalismo para atuar em qualquer área”, conta.

No Canadá, Daniela continua trabalhando como professora e não pensa em voltar para o Brasil, apesar das saudades e de seguir enfrentando alguns tipos de preconceito no país estrangeiro. “Aqui, como em todo lugar, também tem transfobia. Minha luta agora é redobrada, já que além de trans, sou imigrante, sou latina, sou brasileira”, afirma.

A pesquisadora comemora que cada vez mais intelectuais trans ganhem reconhecimento no Brasil. Diz que gostaria, mas não sabe se a sua trajetória abriu portas para outras mulheres travestis e transexuais no ambiente acadêmico. “Eu tive que trilhar sozinha meu próprio caminho. Recentemente eu soube que tem outras pessoas trans estudando na USP,  mas infelizmente não pude ter contato pois já não estava mais lá. Eu espero que, para elas, tenha sido mais fácil do que foi para mim.”