O lado não tão divertido de ser um influenciador de comida

A vida dos instagrammers de comida pode parecer glamourosa, mas muitos sentem a pressão.

A vida de um influenciador de comida parece divertida. Antes da pandemia, eles comiam de graça e recebiam brindes em casa. Até mesmo nos dias de hoje alguns blogueiros recebem centenas ou milhares de dólares para simplesmente postar uma foto de endosso.

E a enxurrada de likes pode ser inebriante. Para além da iluminação perfeita e do glamour, alguns influenciadores estão descobrindo que as pressões da vida de instagrammer influente podem afetar a saúde mental.

Carly Lipkin iniciou sua conta no Instagram, Talk Foodie To Me, em 2015, depois de morar alguns anos em Nova York. A palavra “influenciador” ainda não tinha entrado para o vocabulário.

Para Lipkin, o Instagram era apenas uma forma de se expressar. Morar em Nova York lhe deu a chance de experimentar novas comidas, e ela sempre se interessou por fotografia.

Carly Lipkin e uma foto de sua conta no Instagram, Talk Foodie To Me.
Carly Lipkin e uma foto de sua conta no Instagram, Talk Foodie To Me.

Depois de uma de suas fotos ser publicada na conta The Infatuation, ela decidiu abrir uma dedicada exclusivamente a comida. Mas não havia grandes planos. “Definitivamente não foi nada de especial. Eram os lugares que eu estava experimentando em Nova York e, sempre que via algo bonito, tirava uma foto”, disse Lipkin ao HuffPost.

Em Atlanta, Nichole Wolf, da ATL Adventurer, conta uma história parecida. Ela criou sua conta em 2015 para mostrar o crescente cenário gastronômico da cidade. Wolf tinha acabado de se mudar para lá, depois de terminar a pós-graduação.

“Acho que não pensei muito a respeito, no que a conta viraria, porque não tinha nenhuma expectativa”, diz Wolf. “Foi mais para compartilhar o que eu realmente amava em Atlanta e finalmente morar em uma cidade real, onde as coisas estivessem acontecendo de verdade.”

Não demorou muito para que os convites para restaurantes e eventos chegassem. “Mas acho que a verdadeira virada [quando ela se tornou influenciadora] foi quando disseram: ‘Quero pagar’. Para mim, foi chocante. Não acredito que alguém queira me pagar só por compartilhar as coisas que gosto de fazer”, disse Wolf ao HuffPost.

No fim das contas, esse tipo de coisa virou o novo normal. Suas noites e fins de semana se dedicavam a eventos ou a visitas a restaurantes. “Começa a parecer um emprego”, disse Wolf.

Para Lipkin, ser uma influenciadora de comida (que não era seu trabalho principal) cobrou um preço mental e físico. Além disso, seu emprego oficial era cuidar das redes sociais de um grupo de restaurantes. “Todo o meu tempo era consumido pelo Instagram e pelas redes sociais. Parou de ser prazeroso, porque eu não tinha folga”, disse ela.

A existência de panelinhas no mundo dos influenciadores também não ajudou. “As pessoas competem para ver quem foi convidado para qual evento, quem tem quais contatos e quais empresas de relações públicas, quem você leva de convidado, quem receber mais comentários e likes nas fotos”, disse ela. Ir ao mesmo evento com vários outros influenciadores significava postar as mesmas fotos de todos os outros participantes, mas ela não podia deixar de se perguntar: “Por que eles conseguiram milhares de likes e eu só tenho 500, sendo que temos o mesmo número de seguidores?”

Nicole Wolf e uma foto de sua conta, ATL Adventurer.
Nicole Wolf e uma foto de sua conta, ATL Adventurer.

Ela não só estava exausta, mas também sentiu o baque na autoestima. Lipkin não está sozinha.

Um estudo recente (neste link, em inglês) confirma o que muitos de nós já sabemos: o uso excessivo do Instagram pode afetar a autoestima. Você não precisa ser um influenciador para sentir os efeitos.

Wolf também começou a sentir que o prazer de conhecer novos restaurantes foi ficando cada vez menor, conforme sua conta foi ganhando tamanho. Ela ia a quatro ou cinco lugares diferentes em um sábado ― não porque queria, mas porque a conta tinha muitos seguidores e muita demanda.

“Foi meio um incômodo inesperado. Tinha o trabalho, minha vida e também a obrigação de fazer fotos nos fins de semana, ou à noite, ou pela manhã, enviando conteúdo às marcas, me preocupando com os fotógrafos, com a minha aparência, já que eu acabava aparecendo bastante”, disse Wolf. Há também o fator do isolamento.

“Acho que tem um estigma cultural quando saio para comer e tirar fotos. Estou sempre tentando criar conteúdo. Já me olharam feio e fizeram piada comigo. Para as gerações mais velhas, é tipo: ‘Por que você está fazendo isso?’ Me sinto a esquisitona. E a sensação é de solidão, porque todos os meus amigos estão lá se divertindo e eu tenho de produzir conteúdo, tenho prazos. Parece que você não é uma pessoa de 20 e poucos anos normal”

- Nichole Wolf, influenciadora de comida

Durante a pandemia do novo coronavírus, Wolf passou por diferentes fases na adaptação ao novo modo de vida. “Nas duas primeiras semanas, me sentia na obrigação de ajudar a promover restaurantes o máximo possível. Doei [para a entidade] Giving Kitchen e fiz o máximo que pude financeiramente”, disse ela.

Com o passar do tempo, porém, ela precisou de um descanso mental. Trabalhando em casa, e morando sozinha, ela sentiu o impacto do isolamento.

Mas é difícil parar de repente, pois ela não só tem renda mas também recebe mensagens de seus seguidores. “Tem esse senso de responsabilidade em relação às pessoas que conheci em Atlanta e que me consideram uma espécie de ‘recurso’”, disse ela.

Quando Lipkin largou o emprego de administradora de redes sociais, em maio de 2018, ela decidiu que era hora de se despedir dos 53 000 seguidores do Talk Foodie.

“Foi meio libertador, pois não precisava fazer mais aquilo. Não preciso sentir essa necessidade de continuar postando”, disse ela. Ela fez um post de despedida e, desde então, não colocou mais nada na conta (mas ela ainda tem uma conta pessoal). Questionada sobre a resposta ao post de adeus, ela disse: “Foi muito positiva. Era exatamente o que eu esperava.”

No início da pandemia, Lipkin postou no Stories maneiras de apoiar as empresas de Nova York durante esse período sombrio. Ela não tinha certeza se deveria fazê-lo, mas diz que sentiu a necessidade de ajudar de alguma forma. Mas foi só isso.

“Sei que tenho uma plataforma, mas o ônus de apoiar os restaurantes de Nova York é um fardo grande demais, que não posso carregar sozinha. Não tenho como ser tão influente assim. Tudo bem voltar a ser simplesmente uma cliente.”

Wolf também publicou um post emotivo no início do ano, dizendo a seus seguidores que mudanças estavam por vir. Mas ela ainda não está pronta para largar a “carreira”, mesmo que o cenário seja muito diferente agora.

Uma coisa que ela tem notado é a agressividade dos comentários recebidos. Depois que o governador da Geórgia, Brian Kemp, permitiu a reabertura de restaurantes, Wolf, que normalmente não fala de política no Instagram, pediu que seus seguidores continuassem pedindo delivery ou comida para viagem, de acordo com as recomendações científicas.

Apoiadores do governador a atacaram nos comentários e em DMs. “Tive de bloquear algumas pessoas porque elas se ficaram agressivas demais. Não vou dizer o que os outros têm de fazer. Se me atacam, não preciso deixar lá”, disse ela. Wolfe diz sentir responsabilidade de manter seus seguidores informados, mas por enquanto ela tem ficado em silêncio.

Sobre o bem-estar mental dos influenciadores, Lipkin disse: “É uma loucura pensar que há tantas crianças hoje em dia e gerações mais novas usando o Instagram e com tantos seguidores. Eles são jovens demais para perceber o que nós percebemos, que conseguir 100 ou 500 curtidas em uma foto não faz de você uma pessoa melhor ou mais bem-sucedida.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do espanhol.