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23/02/2020 09:15 -03

Demais poderes acompanham com preocupação posição de Bolsonaro e clã sobre motim no Ceará

Governadores, ministros do STF e parlamentares disseram ao HuffPost temer que discurso bolsonarista incite mais a ação coordenada de policiais encapuzados.

diegograndi via Getty Images
Em conversas reservadas, a avaliação é de que há uma “escalada do autoritarismo” com a militarização do Planalto.

Congresso, Judiciário e governadores têm acompanhado com preocupação os acontecimentos das últimas semanas na área de segurança pública, com o motim de policiais no Ceará. Segundo o HuffPost apurou, a avaliação, em conversas reservadas, é de que o “tom de hostilidade” nas declarações de Jair Bolsonaro, seu clã e aliados têm alimentado a tensão no Ceará. 

O HuffPost conversou com governadores, ministros do STF e parlamentares sob condição de anonimato. Há um declarado temor de que o discurso bolsonarista incite ainda mais a ação coordenada de policiais encapuzados que têm espalhado medo entre a população. O movimento seria reforçado pela expectativa de que haverá, por parte do alto escalão do governo, uma proteção aos policiais em motim. 

Na última quarta (19), a tensão se elevou ainda mais quando o senador licenciado Cid Gomes (PDT-CE) avançou com uma retroescavadeira sobre um grupo de manifestantes que ocupava um quartel da Polícia Militar em Sobral e levou dois tiros. Em meio à paralisação da PM, o estado já registrou 88 assassinatos nos últimos dias.  

A escalada de violência nas ruas cearenses fez com, primeiro, Bolsonaro liberasse a Força Nacional para atuar no estado e, em seguida, desse permissão para ação da GLO (Garantia da Lei e da Ordem), fazendo com que oficiais das Forças Armadas também possam participar do reforço na segurança no estado. 

O presidente, contudo, usou o episódio para defender uma bandeira de seu governo: disse que irá insistir para que o Congresso vote o excludente de ilicitude, ou seja, a não responsabilização por atos, para os militares da GLO. Os filhos Flávio e Eduardo também seguiram a linha de manifestação típica do clã e defenderam, nas redes sociais, que os policiais agiram em legítima defesa ao atirarem em Cid Gomes. 

Militarização do Planalto

Antes de a situação no Ceará se agravar - a instabilidade no estado vem desde dezembro, mas os policiais militares tomaram as ruas esta semana -, outro fato já vinha chamando a atenção dos outros poderes: a militarização do Planalto. Neste caso, o temor é de que esteja havendo uma “escalada do autoritarismo” com a militarização do Planalto.

A avaliação nos bastidores é de que, ao se cercar dos colegas da caserna no palácio, Bolsonaro afasta-se ainda mais do Congresso e reduz sua capacidade de diálogo político, que nunca foi ampla. 

Na última semana, uma declaração do ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno, vazada em áudio na transmissão de um evento, reforçou essa ideia. Nela, Heleno acusa o Congresso de “chantagem” e em seguida trata o tema com um “foda-se”. As declarações, mesmo tenso sido feitas em particular, foram lidas como o novo tom no Executivo. 

Uma matéria do jornal O Globo afirmou que, naquela mesma terça-feira (18), em reunião na sequência, Heleno sugeriu a Bolsonaro “convocar o povo às ruas” contra o Congresso e chegou a bater na mesa de tão irritado. 

Próximos alvos

A influência militar no governo é acompanhada com atenção. Além de ocupar os postos com status de ministério do Planalto - além do GSI, com Heleno, também tem formação militar o general Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), major Jorge Oliveira (Secretaria-Geral), e Walter Braga Netto (Casa Civil) -, Bolsonaro tem colocado companheiros da caserna para dirigir locais que acredita não estar funcionando com a devida eficiência. Foi assim com a Apex Brasil no início da gestão, a EBC, e, recentemente, a Anvisa e o Inmetro.

É tamanho o poder de persuasão do grupo militar, estando o núcleo a apenas alguns passos do gabinete presidencial, que ele tornou-se o mais ouvido por Bolsonaro, tirando forças da ala ideológica, olavista. 

Embora ainda haja ministros na Esplanada com viés ideológico, se depender dos militares, alguns deles estão com os dias contados. O entendimento é que é preciso evitar mal-estar a todo custo e a ala ideológica do governo provoca “instabilidades”. 

Segundo interlocutores, entre os ministros considerados “problemáticos” por suas falas estão, nesta ordem, Abraham Weintraub (Educação), Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Ernesto Araújo (Itamaraty).