Tamo Junto

Por que eu sinto tanto sono?

Problemas para dormir que atingem mais de 70% dos brasileiros podem causar obesidade e até acelerar câncer.
Enquanto 40% dos brasileiros sofrem de insônia, outros 33% apresentam apneia do sono.
Enquanto 40% dos brasileiros sofrem de insônia, outros 33% apresentam apneia do sono.

Sentir sono durante o dia pode ser muito mais do que apenas um sinal de que você dormiu mal na noite anterior. O sintoma, às vezes, é um alerta de que algo está errado com o seu organismo e que isso merece ser investigado para não causar um problema ainda maior.

De acordo com a neurologista Andrea Bacelar, presidente da Associação Brasileira do Sono, a privação do sono ”é o problema do século”.

“A privação, também chamado pelos especialistas de Transtorno do Sono Insuficiente certamente contribui para acelerar ou antecipar várias doenças desde obesidade até cânceres”, explica a médica.

Hoje, cerca de 40% da população sofre de insônia e outros 33% de apneia do sono, sublinha a especialista.

“Como não nos preocuparmos? Estamos adoecendo, estamos abrindo mão de uma necessidade biológica, que é o nosso sono”, alerta.

“A insônia é a dificuldade em iniciar ou manter o sono, que acontece mesmo quando o indivíduo tem oportunidade de dormir o tempo necessário e em um ambiente favorável ao sono. Os indivíduos com insônia dormem menos tempo que o necessário para ter boa saúde e qualidade de vida”, explica a neurologista.

Já a apneia do sono é caracterizada por eventos de pausas respiratórias que acontecem durante o sono, que podem levar à diminuição de oxigênio no organismo. Em resposta a eles, o indivíduo desperta. Porém, esses momentos em que a pessoa acorda são bem curtos e geralmente eles não são lembrados.

“Geralmente sujeitos com apneia também apresentam ronco. Na apneia do sono o indivíduo dorme o tempo necessário, porém os despertares ao longo da noite fragmentam o sono, reduzindo a sua qualidade e repercutindo em sonolência diurna e diversos problemas de saúde.”

A presidente da Associação Brasileira do Sono explica que a série de problemas causados pela falta de sono pode agir de duas formas — a curto e a longo prazos. Quanto mais tempo o indivíduo ficar privado do sono ideal, piores serão as consequências para a saúde.

Efeitos a curto prazo:

  • fadiga;
  • sonolência diurna;
  • diminuição do estado de atenção;
  • mudança de humor;
  • alterações de raciocínio e atenção;
  • diminuição do rendimento psicomotor;
  • tensão;
  • cefaleia;
  • julgamento prejudicado;
  • reflexos e reações a estímulos mais lentos;
  • perda da capacidade de argumentação lógica.

Efeitos a longo prazo

  • falta de vigor físico;
  • envelhecimento precoce;
  • diminuição do tônus muscular;
  • comprometimento do sistema imunológico (aumenta a chance a infecções, depressão, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares);
  • hipertensão;
  • arritmia ;
  • doenças gastrointestinais;
  • déficit de memória.

Como diagnosticar se você dorme mal

A presidente da Associação Brasileira do Sono esclarece que, apesar de se tratar de um problema recorrente em nossa sociedade, não bastam algumas noites maldormidas para que se possa afirmar que um indivíduo sofra do Transtorno do Sono Insuficiente.

“O passo inicial é reconhecer se o sono não está com a qualidade ideal e se isso está repercutindo na saúde e no desempenho das tarefas do dia a dia. Essas queixas de má qualidade do sono podem ser relatadas para o clínico geral, que a partir de uma análise e da solicitação dos exames adequados, irá encaminhar o paciente para um especialista”, informa Andrea Bacelar.

A alimentação pesada e com excesso de cafeína é um dos gatilhos para uma noite maldormida.
A alimentação pesada e com excesso de cafeína é um dos gatilhos para uma noite maldormida.

Principais causas e tratamentos de problemas do sono

Além de diagnosticar se a qualidade de sono é ou não a ideal, o indivíduo precisa ter a consciência também de que há alguns gatilhos que contribuem para uma noite maldormida e, claro, tratamentos para quem, eventualmente, sofrer do Transtorno de Sono Insuficiente.

A alimentação, segundo Andrea Bacelar, é um ponto que merece atenção especial, principalmente no horário noturno. “Devem-se evitar refeições pesadas e em excesso, com digestão mais prolongada, próximas da hora de dormir, além de estimulantes como café e substâncias que contenham cafeína, além de bebidas alcoólicas”, orienta.

Há outros hábitos considerados “não saudáveis” pela Associação Brasileira do Sono e que devem ser evitados ou minimizados para que a pessoa tenha o melhor sono possível, segundo a presidente da entidade.

“Hábitos não saudáveis para o sono são comportamentos que podem atrasar o início do sono, diminuir a sua duração ou profundidade. Esses comportamentos interferem no sono por alterar mecanismos em nosso cérebro que são responsáveis pela geração e manutenção do sono”, resume.

Além da já citada ingestão da cafeína, a neurologista enumera outros comportamentos que atrapalham a noite de sono ideal.
São eles:

  • exposição à luz artificial, como a luz ambiente ou da televisão, computador e celular, pois isso inibe a liberação de melatonina, um neuromodulador responsável por sinalizar ao cérebro a necessidade de dormir;
  • ingerir alimentos muitos calóricos e de difícil digestão perto da hora de deitar;
  • fazer exercício extenuante próximo ao horário de dormir;
  • ficar na cama pensando em problemas.

Exercícios físicos ajudam ou atrapalham?

A prática de exercícios físicos também está diretamente ligada à qualidade do sono. Uma noite maldormida fará que o indivíduo perca performance na atividade esportiva. “O principal benefício do sono para a atividade física é a recuperação muscular e celular que ocorre quando estamos dormindo. Durante o sono, o corpo promove os ganhos de condicionamento que nos deixam mais fortes. Se esse descanso for insuficiente, podemos ter queda no desempenho. A manutenção da performance aeróbica cardiovascular está diretamente relacionada ao tempo de sono. Quando dormimos menos, nosso rendimento cai”, esclarece Andrea Bacelar.

Um exercício físico feito corretamente, no entanto, ajudará a melhorar a qualidade do sono. “O exercício físico realizado de forma regular e com intensidade moderada aumenta o tempo total de sono, diminui a latência para o sono (tempo que leva para iniciarmos o sono), aumenta significativamente o sono profundo, também chamado de sono de ondas lentas, e o sono REM, que é o sono dos sonhos.”

Quem não é adepto da prática de exercícios físicos ou não pode realizá-los por possuir limitações que o impeça tem outras formas de amenizar ou neutralizar o transtorno. “Há comportamentos saudáveis para o sono, que são aqueles que irão preparar o organismo para dormir com qualidade. Evitar os hábitos que interferem negativamente no sono é o passo inicial para facilitar o início do sono. Manter uma rotina no horário de dormir e acordar, inclusive nos finais de semana, e praticar atividades relaxantes próximo ao horário de dormir, como a meditação, auxiliam na qualidade do sono”.

Qual o tempo de sono “ideal”

A National Sleep Foundation (Fundação Nacional do Sono) tem uma tabela que mostra o quanto é necessário um indivíduo dormir diariamente, de acordo com a faixa etária em que está desde o seu nascimento.

A recomendação é de que um adulto jovem (entre 18 e 25 anos) deve dormir entre 7 e 9 horas por dia, mesma carga indicada para um adulto entre 26 e 64 anos.

Um idoso, considerado a partir dos 65 anos, necessita entre 7 e 8 horas de sono diárias para não prejudicar as funções básicas do corpo.