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30/11/2019 02:00 -03 | Atualizado 30/11/2019 02:00 -03

As contradições do inquérito usado para prender brigadistas em Alter do Chão

Em vez de interesse em colocar fogo na floresta, conversas apontam que brigadistas de paraíso no Pará buscavam aprimorar o trabalho.

Reprodução/Instagram
Imagem do Instagram da Brigada de Alter do Chão com os voluntários em ação. 

O inquérito policial usado para pedir a prisão dos quatro brigadistas em Alter do Chão (PA) apresenta uma série de contradições. No relatório, os investigadores argumentam que os ativistas ambientais usavam as queimadas para se beneficiar, no entanto, os diálogos não são contundentes para chegar a essa conclusão. As conversas e mensagens interceptadas pela polícia transcritas no documento, ao qual o HuffPost teve acesso, indicam que os rapazes estavam interessados em aprimorar os serviços da brigada e em se manter no estado.

Como o próprio inquérito diz, com a repercussão internacional dos incêndios, o grupo buscava apoio financeiro para beneficiar a brigada, cuja função é a de apagar e evitar o fogo. No entanto, há possibilidade de fazer uma interpretação diferente da que foi feita pelas autoridades. Essa inconsistência fez que o material passasse a ser questionado pelo próprio governo do estado do Pará e também pelo Ministério Público Federal.

As prisões endossaram o discurso do presidente Jair Bolsonaro de que ONGs teriam ligação com as queimadas. Os brigadistas foram presos na terça-feira (26) e tiveram a prisão alongada por dez dias pelo Tribunal de Justiça do Pará. Mas depois da repercussão do caso e da troca do delegado responsável pelo pedido de prisão, eles foram soltos pelo mesmo juiz que havia decidido pela prisão preventiva, Alexandre Rizzi. 

No documento que pediu à Justiça a prisão dos brigadistas, a polícia sustenta que “foi registrada conversa cujo conteúdo deixa compreensível o objetivo do grupo de brigadistas de Alter do Chão em obter vantagem financeira a título de patrocínio e outras formas de contrato, tendo como contraprestação fornecer conteúdo exclusivo de imagens do combate às queimadas, fazendo alusão ao patrocinador”.

Os brigadistas voluntários de Alter do Chão haviam sido incubados pelo Instituto Aquífero da cidade, uma ONG dirigida pelos ativistas que foram presos. Um dos principais diálogos das conversas interceptadas trata sobre uma parceria que estava sendo feita com a WWF, na qual os brigadistas cederiam imagens do trabalho em campo de combate ao incêndio e em contrapartida receberiam R$ 70 mil em equipamentos para aprimorar o trabalho da brigada.

Em trechos da conversa, fica claro que a brigada é um projeto que “tá começando”, como diz o relatório. A falta de dinheiro e a necessidade de capacitação são temas constantes nas conversas. Em uma delas, um dos brigadistas reclama para a mãe dele da precariedade da preparação para o trabalho. Ele afirma ainda que conseguiram arrecadar R$ 100 mil em uma vaquinha e que há possibilidade de fechar contrato de R$ 70 mil com a WWF e com um doador internacional, de US$ 20 mil.

Na ligação, ele comenta, segundo o inquérito, que “a ONG, da qual é integrante, estava devagar, não havendo recurso sequer para fazer um curso de interesse dos integrantes, referindo-se ao curso de preparação de brigadistas voluntários, mas que tomou outra proporção em decorrência dos incêndios”.

As queimadas na região este ano foram além do registrado nos últimos anos. Dados apurados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) apontaram crescimento de 29,5% no desmatamento da Floresta Amazônica brasileira nos últimos 12 meses, encerrados em julho. Atingiu o maior nível em 11 anos, com 9.762 quilômetros quadrados de área desmatada.

Neste cenário, ele também diz que tinha intenção de fazer cursos, “mas estavam com dificuldade de levantar fundos para custeá-los, contudo, veio aquela leva toda de queimadas e ‘pum’ (sinal sonoro) conseguimos fazer o curso, daí daqui a pouco veio o fogo que teve aqui em Alter do Chão”. A mãe do rapaz demonstra preocupação sobre como o filho vai se manter, já que “esses institutos ‘não dão muita grana’”.

O filho diz que é voluntário, mas tem possibilidade de ter salário no futuro. A mãe completa e diz que tem tudo para crescer, “pois a Amazônia gera um interesse até internacional”. Países como Alemanha e Noruega têm histórico de ajudar financeiramente o Brasil em políticas de preservação do meio ambiente.

Preocupação com incêndios

A polícia também considera suspeita uma conversa na qual uma pessoa se diz preocupada com o incêndio e um dos brigadistas responde: “Se você tiver um tempinho, a gente pode conversar, EU TÔ POR TRÁS DE TUDO, NÉ. Eu sou da brigada de Alter e a gente é do Instituto Aquífero Alter do Chão que incubou a brigada, né, um ano e meio atrás e estamos recebendo apoio de todo mundo”.

As conversas detalham a burocracia para cessão de imagens, o engessamento dos contratos que as ONGs podem fazer e a preocupação em fazer parcerias de forma correta. Há temor de que a WWF apareça como se fosse “a salvadora da Amazônia através da brigada, como se a brigada fosse mantida pela WWF”.  “Acho desproporcional que eles queiram usar nossa logo para sempre…”, diz um dos trechos dos diálogos interceptados.

Outras críticas em relação à WWF também aparecem. A entidade usa as imagens de combate ao fogo para prestar conta aos doadores.

Um dos ativistas diz que “não tem nada a ver vincular (sic) imagens de Instagram, ter que marcar eles... Eles só querem saber de imagens”, em tom crítico à WWF.

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Trecho do inquérito que demonstra preocupação dos brigadistas com o tipo de contrato que estavam assinando. 

Em um das conversas interceptadas pela polícia, há um trecho em que eles falam sobre a compra e uso do equipamento.

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Trecho do inquérito que os brigadistas confirmam a compra do equipamento. 

Há ainda um diálogo em que um cabo do Corpo de Bombeiros sugere que os integrantes do Instituto Aquífero Alter do Chão, que incubou a brigada, “não se limitem somente à brigada de combate aos incêndios, e sim criar uma entidade de Defesa Civil em Alter”. Diz ainda que se eles fizerem determinado curso, vão “melhorar ainda mais o desempenho dos brigadistas, apoiando o 4º REDEC e o Corpo de Bombeiros Militar.

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Trecho do inquérito sobre curso de capacitação e críticas à distribuição de pessoas no combate às chamas.

O relatório da polícia inclui conversas com amigos, familiares e relatos de divergências internas. Uma das brigas é sobre a dificuldade de trabalhar voluntariamente.

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Trecho do inquérito que destaca que a brigada está "só começando". 

“Queimar mato”

O principal argumento da polícia é que os rapazes provocavam queimadas para fazer imagens e vendê-las. Como o HuffPost mostrou, a polícia chegou a confundir uso de maconha com queimadas. Em um trecho do documento, assinalado a seguir, uma declaração que faz alusão ao uso de maconha é usada para justificar envolvimento dos líderes da brigada nas queimadas. Falas sobre uso da droga são destacadas do inquérito, que tem 111 páginas. 

“Uma vez que os diálogos estão sendo explicitados cronologicamente, foi captada conversa incidental entre João [um dos brigadistas] e interlocutor não identificado, átimo em que este, jocosamente, rotula João como o fotógrafo ‘que mais queima e apaga fogo do Amazonas’.

Essa conversa patenteia os rumores que ouvimos desde o início das investigações, que consiste no envolvimento direto dos líderes da brigada na queimada que assolou a APA (Área de Proteção Ambiental) de Alter do Chão, com o fito de ganharem notoriedade para angariar recursos.”

Entre os usuários de maconha, é comum a expressão “queimar”, no sentido de fumar. Em outros momentos, a polícia transcreve áudio em que um dos brigadistas pergunta ao outro se vai com “o ‘tabeck bolado’ ou cê bola daí”. Um dos brigadistas, então, diz: “acho que eu vou com ele ‘bolado’, já fumando, aí eu te encontro aí”. Beck é uma forma de se referir à erva.

Geralmente, este tipo de informação sobre a vida pessoal dos investigados que não está ligada ao cerne da investigação, no caso as queimadas, não costuma ser registrada nesse tipo de documento oficial.

O HuffPost também já havia apontado que o texto do inquérito policial é repleto de ilações, com termos como “certamente”, “é cógnito” (no sentido de que algo é notório), “perceptível”. Aponta também como indício de que eles arquitetavam os crimes o fato de os brigadistas chegarem primeiro nos incêndios — sendo que a função deles é apagar o fogo. 

Apuração do Ministério Público Federal no Pará vai na contramão da polícia local. Alega que investigações federais conduzidas desde 2015 indicam assédio de grileiros, ocupação desornada e especulação imobiliária como causa da degradação ambiental em Alter do Chão.