MULHERES
02/04/2019 01:00 -03

Eu sou indiana, educadora sexual e homens acham que devo sexo a eles

"Nos meus primeiros meses no trabalho, minha família reagiu com hostilidade."

O trabalho de Barnwal envolve ouvir, ensinar e aconselhar.

Mais de uma década atrás, quando eu era estudante universitária em Pune, na Índia, um homem partiu meu coração. Ele nunca estava emocionalmente disponível para mim. Quando o relacionamento acabou, eu estava desiludida, magoada e com dificuldades em abraçar o conceito de mulher submissa, tão fortemente inscrito pelo patriarcado na Índia.

Tentei superar minha confusão mergulhando imediatamente em outro relacionamento, que também terminou mal. A imposição cultural de sofrer tormentas sexuais e emocionais em silêncio simplesmente porque sou mulher acabou falando mais alto. Sem conseguir lidar com o trauma, quase tirei minha própria vida.

No ano passado, nove anos depois de tudo isso, me matriculei em um curso de educação sobre sexualidade da ONG Tarshi, que faz um trabalho amplo no campo da saúde sexual no meu país. No final do curso, que durou quatro meses, comecei a trabalhar como educadora sexual ― um trabalho que a maioria de minhas amigas, meus familiares e meus conhecidos não entenderam.

Diante de como é incomum as mulheres na Índia sequer falarem de sexo sem inibições, não foi uma decisão fácil de ser tomada. Mas, cada vez que eu hesitava, voltava uma década atrás e me recordava de ser uma mulher jovem que até então equacionava o sexo apenas com a obrigação de estar em um relacionamento, por mais que ele fosse opressor ou pouco inspirador.

Quem sou eu? Uma colunista sentimental? Uma 'médica do sexo', como aquelas cujos artigos lemos nas revistas de fim de semana? Uma terapeuta? Quando tento explicar exatamente qual é meu trabalho, as pessoas ficam confusas.

A mortalha de silêncio e reprovação que recai sobre a sexualidade havia afetado mais vidas à minha volta, não apenas a minha. Uma colega abandonou a faculdade, deixando seus estudos pela metade, quando fotos de seu encontro sexual com outro colega foram “vazadas”.

Será que minha amiga teria abandonado a faculdade se nós, como sociedade, encarássemos o sexo como algo totalmente natural? Nunca saberei.

Mas o que sei, sim, é que, especialmente em um país como a Índia, a repressão sexual já prejudicou muitas vidas. Mesmo assim, ainda não estamos dispostos a falar disso.

 

O que faz uma educadora sexual?

Quem sou eu? Uma colunista sentimental? Uma “médica do sexo”? Uma terapeuta? Quando tento explicar exatamente qual é meu trabalho, as pessoas ficam confusas.

Como educadora sexual, meu trabalho é preparar adultos jovens para as transformações psicológicas, físicas, emocionais e sexuais pelas quais as pessoas passam em diferentes fases da vida. A educadora constrói saberes, habilidades e comportamentos para empoderar os jovens a fazer escolhas responsáveis em seus relacionamentos íntimos. Meu trabalho envolve ouvir, ensinar e aconselhar.

Meu primeiro contato com o que chamamos de “educação sexual abrangente” se deu, no início de 2018, por meio de diretrizes técnicas internacionais divulgadas pela Unesco que a definem como uma habilidade que visa ajudar jovens a se tornarem mais responsáveis em seus comportamentos e atitudes relativos à vida sexual e reprodutiva.

Eu promovo workshops para universitários e adolescentes e entro em contato com grupos de jovens através de páginas no Facebook. Quando escrevo posts explicando meu trabalho e casos com os quais lido nas redes sociais – faço isso regularmente ―, utilizo hashtags com as quais pessoas à procura de educadores sexuais podem me localizar facilmente. As pessoas geralmente me procuram nas redes sociais e por meio da seção de contatos do meu blog.

Também dou atendimento pessoal a pessoas com problemas psicológicos ligados ao sexo. O curso que fiz me formou em educação sexual abrangente, sexualidade, gênero e temas relacionados à imagem corporal, tecnologia e sua influência sobre os jovens, entre outros tópicos. Promovo eventos e workshops e também dou atendimento pessoal a casais e indivíduos.

Quando se trata de buscar a ajuda de educadores sexuais, vejo mais homens do que mulheres procurando ajuda.

Os primeiros passos

“Tenho vontade de transar com toda mulher com quem tenho qualquer ligação. Podem ser minhas vizinhas, amigas, colegas de trabalho, qualquer mulher. O único fator que me pode aproximar delas será a dor. Só consigo me relacionar com as pessoas através da dor.”

Foi o que me disse um homem no Tongue Tied (Incapaz de Falar), um evento que conduzo offline para permitir diálogos francos sobre o “tabu do sexo”. Conduzo esse grupo fechado para ajudar os participantes a soltarem sua voz sexual em um espaço seguro e compassivo. As pessoas geralmente me procuram através de membros de um grupo fechado que criei no Facebook para participar de eventos e fóruns online.

Quando o assunto é acesso e consciência da saúde mental, as coisas já melhoraram muito na Índia, mas quando realizei sondagens online em faculdades e locais de trabalho, através de redes sociais, percebi como a desinformação e a repressão sexual ainda dominam.

Desde adolescentes que estão ansiosos por explorar sua sexualidade mas não sabem a melhor maneira até casais que vivem sem sexo no casamento e se envolvem em casos extraconjugais que os deixam infelizes, a insatisfação em torno do sexo parece ser enorme. Tome-se o caso, por exemplo, deste médico que me escreveu alguns dias atrás:

“A ironia de viver passando fome de sexo é agonizante. Os dias passam e você fica na espera, torcendo para que hoje seja um dia bom. A espera parece interminável. Sua companheira ignora completamente seu sofrimento. Ela não tem interesse nenhum em sexo. A fome de sexo prejudica seu desempenho social e profissional. Você tenta sair sem sua mulher e acaba se sentindo mais desmoralizado ainda. Sentindo-se infeliz, isolado.”

Quando eu tinha 27 anos, meus pais acharam que um casamento curaria as mágoas deixadas por um relacionamento ruim e me persuadiram a fazer um “casamento arranjado”. Tendo pouco senso de autonomia, me casei com um homem de família profundamente tradicional, cujos membros me discriminavam implacavelmente pelo fato de eu ser mulher. O casamento fracassou, e eu saí dele oito anos mais tarde.

Em uma sociedade onde o sexo ainda é, em grande medida, um “tabu”, o médico acima citado provavelmente poderia receber assistência jurídica, mas nunca poderia tentar identificar a origem de seus problemas. É aí que eu entro: eu ofereço um espaço de empatia para as pessoas se abrirem sobre suas dificuldades.

Me recordo do primeiro atendimento que dei como orientadora – foi com um homem de 30 e poucos anos, engenheiro de software que costumava viajar pelo mundo a trabalho. Sua mulher teve um bebê há pouco tempo e por isso não pode acompanhá-lo em todo lugar. Ele volta para casa uma vez a cada seis meses mas encontra sua mulher completamente desinteressada em sexo. Depois de muitas súplicas, ela concorda, mas insiste que a transa seja rápida e acabe logo. O homem lamenta:

“Tenho um fetiche de urofilia (em que a pessoa sente prazer carnal ao ver o outro urinar), mas minha mulher me desanca, me chamando de infantil”. Ele estava se sentindo tão ameaçado que a todo momento parava para perguntar se eu estava ofendida com as confissões sobre seus fetiches sexuais. Eu lhe disse que é tudo bem ter fetiches sexuais diferentes. Afinal de contas, todos fazemos xixi. Comparada com outros fetiches, como ficar deitado de barriga para baixo e se fazer espancar, ao mesmo tempo implorando por misericórdia, a urofilia me parece algo mais ou menos inofensivo e fácil.

FatCamera via Getty Images
Imagem representativa.

A maioria do educadores sexuais na Índia e no mundo é formada por mulheres, porque o tema exige uma abordagem que exemplifica o que as pessoas enxergam de forma estereotipada como “valores femininos”.

Mas, quando se trata de buscar a ajuda de educadores sexuais, vejo mais homens do que mulheres buscando ajuda. Já me ocorreu muitas vezes que pode ser porque as mulheres são passivas, sexualmente reprimidas e culturalmente condicionadas a minimizar o papel do sexo em seu relacionamento.

A sexualidade vigorosa sempre foi vista como o ponto forte dos homens. Especialmente na Índia.

 

Orgulho e preconceito

Iniciei meu trabalho e já orientei casais que vivem sem sexo. Geralmente há sessões de retorno, após a primeira consulta, em que eu vejo avanços. Lido com cada caso diferentemente, mas o primeiro passo do meu trabalho é fazer com que a ideia do sexo deixe de ser vista como tabu e destacar a importância dele para a intimidade de longo prazo e a qualidade de vida como um todo.

As mulheres que atendo são, em sua maioria, inibidas e desligadas de seu corpo; elas encaram o sexo como mero “dever” a cumprir. Algo que precisa ser feito, ao lado das outras tarefas domésticas, ou então banido completamente de sua vida. Explico a elas que essa é uma maneira pornográfica de abordar o sexo. Ajudo-as a conhecer e entender técnicas de sedução, excitação, como obter prazer sozinhas, e a anatomia da resposta sexual.

Sinto orgulho de meu trabalho, mas ainda enfrento bastante preconceito.

As pessoas não correm para me procurar, porque a maioria delas vive em estado de negação e é reprimida. Mas fomento a conscientização com colunas e artigos na mídia. No último ano escrevi extensamente na minha página pessoal sobre questões ligadas à religião no casamento, poliamor, desejo. Isso não deixa de acarretar problemas – postar sobre sexo em redes sociais, especialmente se você é mulher ―, mas é um risco que preciso correr para poder entrar em contato com as pessoas.

Tenho conseguido conscientizar as pessoas sobre o tema, e isso está abrindo portas nas cabeças das pessoas que estavam fechadas. As pessoas se abrem quando veem minha expressão não censurada de meus problemas sexuais, as coisas que aprendi e minha jornada para me tornar hábil em curar problemas sexuais, não por meios médicos, mas através de apoio psicológico.

Sinto orgulho de meu trabalho, mas ainda enfrento bastante preconceito. Numa sociedade sexualmente reprimida, trabalhar como educadora sexual é difícil. A maioria dos homens imaginou imediatamente que, já que sou capaz de falar livremente sobre sexo, eu não me incomodaria em ir para a cama com eles.

Esses homens estavam à procura da gratificação instantânea, do extravasamento imediato. Tentaram me seduzir com ofertas de viagens a outros países, presentes caros, jantares e até mesmo a oferta de pagar por um lançamento de livro meu. É uma verdade sombria: quanto mais a pessoa é sexualmente reprimida, mais ela fica sexualmente obcecada.

Numa sociedade sexualmente reprimida, trabalhar como educadora sexual é difícil. A maioria dos homens imaginou imediatamente que, já que sou capaz de falar livremente sobre sexo, eu não me incomodaria em ir para a cama com eles.

Nos primeiros meses depois que iniciei meu trabalho, minha família reagiu com hostilidade, como eu já imaginava que fosse acontecer. Meu companheiro criticou meu trabalho e disse que meu filho, quando crescer, terá vergonha de sua mãe. Mas eu perseverei; estou engajada com a causa da expressão e educação sexual. É o que digo a ele e a meus detratores:

“O sexo não é um simples ato, é o início da vida, a semente primal. Estamos aqui hoje porque nossos pais fizeram sexo. Por que viver ignorando algo que está na origem de nossa existência? O sexo é a base de instituições como o casamento e o amor. É a arte da sedução, uma expressão de amor profundo, uma experiência a ser valorizada e curtida.”

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost India e traduzido do inglês.