NOTÍCIAS
24/01/2020 10:29 -03 | Atualizado 24/01/2020 16:26 -03

Índia vai demorar para se tornar uma China na relação comercial com Brasil

Com viagem programada em torno da participação de Jair Bolsonaro no dia da República da Índia, avaliação é que Brasil deve assinar 12 acordos protocolares.

Alan Santos
Encontro com o primeiro-Ministro da Índia, Norenda Modi, no Brics, em novembro de 2019, em Brasília.

A comitiva brasileira chega nesta sexta-feira (24) à Índia e vê no segundo país mais populoso do mundo - são 1,3 bilhão de habitantes - potencial para expandir e diversificar os negócios. A ONU (Organização das Nações Unidas) estima que, até 2027, o número de indianos seja maior que a de chineses - 1,4 bilhão de pessoas.

A economia da Índia vem em alta. Nos últimos anos, o crescimento passou de 8% ao ano em vários momentos. O país também tirou mais de 271 milhões de pessoas da pobreza entre 2005 e 2015, segundo o Banco Mundial.

Tudo isso faz o governo brasileiro ver no país uma grande oportunidade de expandir suas exportações. Dentro do governo há perspectivas, inclusive, de que a Índia venha a se tornar a nova China, que é atualmente o maior parceiro comercial do Brasil. 

A Câmara de Comércio Índia-Brasil afirmou ao HuffPost que “a Índia tem um potencial comparável ao da China nos negócios”. 

Contudo, há entraves para que essa relação Índia-Brasil cresça tanto assim. Apesar de todo o claro desenvolvimento da Índia nos últimos anos, enquanto a China ampliou o setor industrial que absorve muita mão de obra, o crescimento indiano se deu, sobretudo, no setor de tecnologia da informação e não tem conseguido gerar número suficiente de empregos, segundo dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho). 

Além disso, a maior parte da população do país ainda vive na zona rural e, quando migra para a cidade, o faz sem qualificação. Soma-se a isso o fator religião e castas, sistema que aos poucos vai sendo superado, mas contribui para que a Índia tenha um dos menores índices de mobilidade social do mundo. 

No ranking de países que mais compraram do Brasil em 2019, a Índia figura na 18ª posição - foram US$ 2,76 bi. No mesmo período, a China importou US$ 62,87 bi. A Índia também fica atrás de Japão e Coreia do Sul ao se analisar o comércio do Brasil com países asiáticos. 

Para o CEO da BMJ Consultoria, Wagner Parente, “a Índia não tem a pujança que houve na China há alguns anos, mas sim um padrão de consumo mais antigo”. Uma mudança no padrão de vida da população poderia mudar esse cenário.“Precisa haver uma transferência de pessoas das classes mais baixas para a classe média para aumentar o consumo”, afirmou o analista ao HuffPost.  

Acordos bilaterais ‘protocolares’

Apesar do discurso público do Brasil de que há na Índia uma grande oportunidade de ampliar o comércio, isso não deve ser efetivado na viagem de Bolsonaro. Esta é a primeira visita do presidente ao país, mas a terceira reunião entre líderes brasileiros e indianos. A primeira foi em julho de 2019, em Osaka, Japão, e a segunda, na 11ª Cúpula dos Brics, em Brasília, em novembro. 

A viagem de agora foi desenhada em torno do convite feito a Bolsonaro para participar como convidado de honra das comemorações pelo dia da República da Índia (veja a programação abaixo). É uma honraria cedida a apenas um chefe de Estado todo ano. Sendo assim, todo o resto da agenda, de reuniões bilaterais e seminários com empresários locais, foi pensado por conta desse evento. 

É o contrário do que ocorre com viagens feitas com vistas a grandes negociações, para as quais há meses de preparação. A avaliação de Wagner Parente, da BMJ Consultoria, é de que este é um dos principais fatores que fará com que os acordos a serem assinados sejam protocolares. 

“Não é uma viagem comercial, que foi precedida de meses de negociação. É o oposto, até. É para abertura de canais, para se começar a desenvolver mais comércio e diplomacia. Pela forma como a missão foi gestada, não há expectativa de nenhum acordo relevante, com anúncio de redução de subsídio ou de taxa de importação. Isso me surpreenderia.”

O Itamaraty anunciou a expectativa de fechar, no mínimo, 12 acordos em áreas como investimentos, cooperação jurídica penal, saúde, cibersegurança, cultura, bioenergia e Previdência. 

“Um dos pontos centrais da visita é a aprovação de um plano de ação para o fortalecimento da parceria, que permitirá mapear e estimular a consecução dos objetivos (dos dois países)”, afirmou Reinaldo Salgado, secretário de negociações bilaterais na Ásia, Pacífico e Rússia do Itamaraty. 

Há ainda uma perspectiva de que a Índia anuncie apoio ao Brasil como membro não permanente (nos quais há uma rotatividade) do Conselho de Segurança da ONU. Os dois países fazem parte do G4, grupo que reúne também Alemanha e Japão e advoga pela expansão dos assentos permanentes do Conselho, que hoje pertencem apenas a EUA, China, Rússia, Reino Unido e França.

“Estamos trabalhando em conjunto sobre como avançar na agenda das Nações Unidas e, neste ano, o Brasil tem o nosso apoio como candidato para 2022-2023 para membro não permanente do Conselho de Segurança”, afirmou a secretária para o Ocidente do Ministério das Relações Exteriores da Índia, Vijay Thakur Singh, em pronunciamento à imprensa nesta quinta.  

Bioenergia 

Índia e Brasil são fortes concorrentes no mercado de açúcar. Em julho do ano passado, o Ministério da Agricultura acionou a OMC (Organização Mundial do Comércio) por conta dos subsídios dados pelo governo indiano aos produtores locais. Não houve recuo. 

Nesta viagem, a tática é outra. Os ministros de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e da Agricultura, Tereza Cristina, chegaram antes ao país asiático para conversar sobre uma proposta alternativa: deslocar a moagem de cana-de-açúcar para a produção de etanol e assim, ampliar a cooperação na área de bioenergia. 

Essa agenda já teve início. Na quinta (23), Bento e Tereza participaram do seminário sobre oportunidades de negócios entre Índia e Brasil em energia e mineração, em Nova Déli. Há expectativa de fechar acordos para transferência de tecnologia nesse sentido.

De acordo com o Ministério da Agricultura, em encontro do qual participaram o embaixador do Brasil na Índia, André Aranha Correa do Lago, o ministro de Estado da Índia, R. K Singh, além do ministro Bento, Tereza destacou os ganhos para a Índia com o acordo de cooperação em etanol com o Brasil, que servirá para “a redução da poluição nas grandes cidades” e para aumentar o “suprimento de energia renovável”, além de reduzir a “dependência das importações de petróleo”.

Neste setor energético, a Índia é um país extremamente dependente. Importa cerca de 80% do petróleo que consome. “Hoje importa quase todo o petróleo bruto do Oriente Médio e precisa diversificar esse suprimento, porque é uma região instável. O Brasil pode se colocar como essa opção”, avaliou o CEO da BMJ, Wagner Parente. O governo aposta nesse mercado. 

Agronegócio

Outra pauta importante da viagem é o agronegócio; não à toa, a ministra Tereza chegou antes a Nova Déli. Segundo dados da pasta, em 2019, as exportações nesse setor para o país somaram US$ 676 milhões, mas a expectativa é aumentar esse volume.

Os maiores interesses giram em torno da carne e do frango, mas produtores de feijão, café, cacau, frutas, chá mate e até couro têm interesse em ampliar sua participação no mercado indiano. 

O Brasil quer que a Índia reduza a taxação sobre a importação de frango e produtos de frango — respectivamente de 30% (sobre a peça inteira) e 100%.  A ministra levou a demanda brasileira aos ministros da Agricultura e Bem-Estar dos Agricultores, Narendra Singh Tomar, e de Abastecimento, Alimentos e Distribuição Pública, Ram Vilas Paswan. 

A parceria brasileira no desenvolvimento da raça de gado zebu também foi tema da conversa. Cerca de 80% do rebanho brasileiro é composto por raças indianas bem adaptadas ao clima. O ministro indiano destacou a busca de parceiros para fomentar a produção de leite, que pode ser auxiliada com técnicas desenvolvidas pela Embrapa, conforme o Ministério da Agricultura.

Há previsão de assinar um acordo de cooperação em saúde animal e melhoramento genético prevendo que a Embrapa vai oferecer capacitação para técnicos indianos em fertilização in vitro e transferência de embriões, e também apoiar operacionalização de um Centro de Excelência em Pecuária de Leite na Índia. 

Programação  

O presidente Jair Bolsonaro desembarcou nesta sexta (24) em Nova Déli, mas sua agenda só começa no sábado (25).

Na programação, além de encontros bilaterais, que incluem conversas reservadas com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e também com o presidente e o vice-presidente do País, respectivamente, Ram Nath Kovind, e Venkaiah Naidu, o mandatário fará uma visita ao memorial do líder pacifista indiano Mahatma Ganghi. 

 

Sábado (25) *

09h30 - Encontro com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da República da Índia, Subrahmanyam Jaishankar

11h - Cerimônia oficial de chegada ao Palácio Presidencial  

11h10 - Foto oficial

11h35 - Cerimônia de oferenda floral no Memorial Mahatma Gandhi 

12h10 - Encontro com o Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi

12h40 - Reunião ampliada com o Primeiro-Ministro da Índia

13h10 - Cerimônia de troca de atos

13h20 - Declaração à imprensa

13h35 - Almoço oferecido pelo Primeiro-Ministro da Índia

14h35 - Assinatura de livro de visitas

16h30 - Encontro com o Vice-Presidente da Índia

19h35 - Cumprimentos ao Presidente da República da Índia

20h - Banquete em homenagem ao Senhor Presidente da República, oferecido pelo Presidente da República da Índia

 

Domingo (26):

10h - Cerimônia do Dia da República 

15h55 - Cerimônia de apresentação de Altos Dignitários

 

Segunda (27):

08h45 - Café da manhã de trabalho com empresários indianos sobre “Oportunidades de investimentos em Infraestrutura - transportes, mineração, energia, petróleo e gás natural”

10h30 - Abertura do seminário empresarial Brasil-Índia

15h - Partida para Agra

16h - Visita ao Taj Mahal

18h - Partida de Agra

 

Terça (28):

Chegada a Brasília

 

* Hora local (8 horas à frente do horário de Brasília)

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost