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13/04/2020 04:00 -03 | Atualizado 22/04/2020 11:23 -03

O futuro da pandemia: Por que estamos longe de atingir a imunidade coletiva

"Ou a sociedade faz um pacto social de que a gente quer sair dessa, ou a coisa complica", alerta Clarissa Damaso, professora de virologia da UFRJ.

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“Tenho muito receio de como a gente vai progredir se a população não fizer esse pacto social. Tomar como exemplo a Ásia, é bem complicado porque você não têm essa estruturação [social]", afirma Clarissa Damaso, professora de virologia da UFRJ.

Embora o relaxamento do isolamento social na China, país de origem do novo coronavírus, tenha apontado um possível caminho de como será o futuro da pandemia, os próximos meses serão de incertezas no Brasil. Apesar dos estudos em curso, ainda não se sabe exatamente como a imunidade à covid-19 é adquirida, o que revela algumas fragilidades nas apostas da chamada “imunidade de rebanho”, em um cenário em que a ampla testagem da população não é realidade.

Sem um remédio com eficácia comprovada de uso seguro em escala e sem vacina, o ritmo de contágio do novo coronavírus e seu impacto no sistema de saúde são determinantes nas previsões. O que depende diretamente das tomadas de decisão de governantes sobre restringir a circulação de pessoas e do comportamento social. “Essa é uma doença, como muitas outras, que você precisa de um comportamento da população para ajudar. Ou a sociedade faz um pacto social de que a gente quer sair dessa, ou a coisa complica, até pela forma de transmissão”, afirmou ao HuffPost Brasil Clarissa Damaso, professora de virologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Além do desconhecimento no meio científico de como age esse novo patógeno, o perigo do SARS-Cov-2 — nome científico do novo coronavírus — é a alta transmissibilidade combinada aos graves danos que causa ao organismo na forma mais grave da covid-19. As mortes, em geral, são causadas por complicações decorrentes de pneumonia (infecção nos pulmões) causadas pelo vírus.

No início da pandemia, em janeiro, acreditava-se que o SARS-CoV-2 se comportava como o coronavírus que causou a SARS (síndrome respiratória aguda grave), doença detectada pela primeira vez no fim de 2002, na China. O SARS-CoV se replicava apenas no trato respiratório inferior, próximo da região dos pulmões. O novo coronavírus, por sua vez, se replica também no trato respiratório superior, que inclui as cavidades nasal e oral. Por isso, a transmissibilidade é maior.

“Esse vírus consegue ser pior porque ele replica tanto no trato respiratório inferior, quanto no trato respiratório superior, como um vírus de resfriado, no nariz, na orofaringe, e aí qualquer espirro, tossezinha você já têm uma transmissão de vírus grande. O que tem se notado é que a carga viral nessa região é alta. Acaba transmitindo para pessoas na rua, em casa, e também no hospital, quando as pessoas pioram”, explica Clarissa Damaso.

De acordo com a pesquisadora, quando o vírus sai da China e chega a países europeus, como Itália e Espanha, se acende o sinal de alerta. “O comportamento das pessoas é de ir para rua. Não são pessoas de ficar em casa. O espanhol é assim. O italiano é assim. E o brasileiro é assim. Basta ver no fim de semana. Não são pessoas de estarem confinadas em casa. São pessoas de estar na rua. E não são pessoas disciplinadas”, afirma.

A imprevisibilidade do comportamento social é uma ressalva a usar a retomada do contato social na China como parâmetro para o Brasil. “Tenho muito receio de como a gente vai progredir se a população não fizer esse pacto social. Tomar como exemplo a Ásia é bem complicado porque você não têm essa estruturação [social]. É uma doença que depende de vários fatores. Por isso que acho que a comparação entre países de como a curva vai progredir é muito difícil”, afirma Damaso.

Após 10 semanas, a cidade de Wuhan, epicentro inicial do novo coronavírus, encerrou a quarentena na última quarta-feira (8). Embora o transporte público tenha voltado a funcionar, escolas, restaurante e bares permanecem fechados e autoridades continuam a regular a circulação de pessoas. A reabertura ocorreu após apenas três novos casos terem sido registrado na cidade nas últimas três semanas e um dia após a China não ter relatado novas mortes. O número total de infecções no país até esta sexta-feira (10) era de 81.907. Já o número de óbitos confirmados era 3.336.

No mesmo dia, no Brasil, o Ministério da Saúde registrava 1.057 mortes e 19.638 casos confirmados de covid-19. A demora no resultado de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa do óbito quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais. Há também uma subnotificação de casos confirmados devido à limitação de testes de diagnóstico.

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Além do desconhecimento no meio científico de como age esse novo patógeno, o perigo do SARS-Cov-2, é a alta transmissibilidade combinada aos graves danos que causa ao organismo na forma mais grave da covid-19, doença provocada pelo vírus. 

O atraso nos números oficiais da pandemia no Brasil

“O cenário brasileiro está escondido. Hoje quando você vê os casos notificados ou até os os óbitos já aconteceram há mais de uma semana, provavelmente há mais de duas semanas”, afirma o professor Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo). O pesquisador trabalha com cientistas de universidades no Brasil em projeções sobre a epidemia no Brasil.

Sobre o represamento de testes, Alves destaca que, de acordo com dados da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, na última semana, a 15ª semana epidemiológica, o percentual de resultados de testes foi zero. Na semana anterior, foram 2% de testes liberados. E na anterior, 14%. “Não precisa ser nenhum matemático para ver que o que se viu nessas três últimas semanas de casos e óbitos no estado de São Paulo eram pessoas que já tinham pedido o teste há mais de duas semanas, a grande maioria”, afirma.

Segundo dados do Ministério da Saúde divulgado neste domingo (12), o estado registrou 588 mortes 8.755 casos confirmados. No Brasil, eram 1.223 óbitos e 22.169 confirmações. 

O cálculo do grupo em que Alves atua, contudo, é de 240 mil casos em território nacional, com base em metodologias usadas em outros países. “As nossas inferências estão sendo feitas a partir de estimativas feitas com trabalhos publicados no Lancet [uma das mais prestigiadas revista científica sobre medicina], com estimativas comparadas com um grupo alemão que fez essas estimativas para esses países e bateu. A gente aplicou essa mesma metodologia para o Brasil, para estados e estamos aplicando agora para alguns municípios”, disse ao HuffPost Brasil.

Além do atraso, outro problema para ter uma leitura precisa do cenário é a testagem limitada. De acordo com o pesquisador, enquanto a Alemanha conta com cerca de 15 mil testes por milhão de habitantes, o indicador é de 276 por milhão de habitantes no Brasil.

Segundo boletim do Ministério da Saúde com dados até sábado (11), 451.432 reações para diagnóstico laboratorial de RT-PCR foram distribuídas às secretarias estaduais de Saúde e devem ser entregues até quarta-feira (15). Esse tipo de teste, de biologia molecular, é usado para identificar a causa da morte ou o vírus que infectou pessoas internadas com SRAG (síndrome respiratória aguda grave).

No caso do Ceará, um dos estados mais atingidos pela pandemia, a estimativa é de 12 mil casos, segundo Alves. Os dados do ministério neste domingo eram de 1.676 no estado.

“Por que essa discrepância? O Brasil, de maneira geral, não está conseguindo fazer testes. Não está conseguindo dar resultado de testes e os resultados que os testes estão mostrando são para pessoas internadas ou que vieram a óbito, o que é uma fração muito pequena das pessoas que estão ficando infectadas e que estão infectando”, explica o pesquisador.

Considerando a fragilidade dos números oficiais e o comportamento social, o cientista estima que no próximo final de semana São Paulo comece a ter dificuldade de atender pacientes. O mesmo pode ocorrer em Brasília, até o final da próxima semana, caso não se cumpra a quarentena.

“Em Manaus já começou a aparecer pessoas, inclusive idosos, nos serviços de saúde, e os médicos começaram a mandar as pessoas para casa para se despedirem. A gente vai esperar acontecer para as próximas semanas o que está acontecendo no Equador e nos Estados Unidos, de começarem a descobrir pessoas mortas em casa? Porque é isso que vai acontecer e não é para daqui um mês esse cenário”, alerta o professor. 

Em Manaus já começou a aparecer pessoas, inclusive idosos, nos serviços de saúde, e os médicos começaram a mandar as pessoas para casa para se despedirem.Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP

De acordo com o boletim epidemiológico divulgado pela pasta neste domingo , 6 unidades da Federação estão em situação crítica: São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Amazonas, Amapá e Ceará. Todas elas registraram incidência da doença 50% acima da nacional, que era de 105 para 1 milhão de habitantes.

A recomendação do Ministério da Saúde é de que não haja relaxamento do isolamento social em nenhuma dessas unidades. Até o momento, nenhum estado determinou o lockdown, em que todas as entradas de determinado local são bloqueadas por profissionais de segurança e ninguém tem permissão de entrar ou sair do perímetro isolado. A pasta prevê que essa estratégia pode ser necessária em situação de grave ameaça ao sistema de saúde.

Parte dos brasileiros, contudo, tem descumprido as orientações para ficar em casa. O objetivo do isolamento é frear o ritmo de contágio do vírus para evitar um colapso do sistema de saúde, como já ocorre no Amazonas. 

Entre a última semana de março e os primeiros dias de abril, houve aumento na circulação de pessoas, de acordo com dados de localização de 60 milhões de telefones celulares no País, compilada pela empresa In Loco. No estado de São Paulo, a adesão ao isolamento chegou a 55% neste sábado, de acordo com o Sistema de Monitoramento Inteligente (SIMI-SP), a partir de dados de telefonia de 40 cidades. O ideal é que a taxa seja de pelo menos 60%, segundo o governador João Doria. 

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Enquanto casos confirmados oficialmente de covid-19 são pouco mais de 20 mil, professor Domingos Alves, da USP estima que sejam 240 mil em todo o País.

Imunidade coletiva

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, assim como outros integrantes da cúpula do ministério, têm usado como parâmetro para fim da crise quando 50% da população entrar em contato com o vírus. “O que a gente sabe é que quando passa de 50% da população infectada, o vírus já não consegue multiplicar mais na mesma velocidade. Se vai ser 50%, 60% ou 70% da população [infectada], isso é secundário. Em saúde, dois mais dois, pode ser quatro, três e meio. Cada organismo é diferente, cada população é diferente”, disse Mandetta em coletiva de imprensa em 22 de março.

Em 4 de abril, o secretário-executivo da pasta, João Gabbardo, repetiu o raciocínio. “O vírus vai se transmitir, e a gente imagina que pelo menos 50% das pessoas vão ter tido contato e vão criar imunização. Isso vai diminuir a capacidade de transmissão, vai acontecer lentamente. O fluxo só reduz quando tem 50% das pessoas já imunizadas”, disse.

De acordo com o infectologista Julio Croda, ex-diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis da pasta, a imunidade de rebanho é uma estratégia adotada quando não há medicamento ou vacina. “A gente sabe que a taxa de mutação do vírus é menor e provavelmente você vai adquirir imunidade contra o vírus que está circulando nessa sazonalidade.  É uma hipótese bastante forte, apesar de não ter muitos estudos, e daí que deriva essa teoria de 50% da população pegar [a doença] na circulação do vírus”, afirmou ao HuffPost Brasil.

Por outro lado, o pesquisador alerta para o risco desse raciocínio devido à transmissibilidade elevada da covid-19. “Se a gente libera a circulação para todo mundo, todo mundo vai pegar a doença ao mesmo tempo e vai sobrecarregar o serviço de saúde. A ideia maior do isolamento é que todo mundo chegue a 50%, 70% de imunidade, mas não ao mesmo tempo. Parece contraditório, mas é complementar porque você quer que as pessoas peguem [o vírus] ao longo de um período maior, entre 6 a 12 meses e não que todo mundo pegue entre um e dois meses, que você não vai ter leito de UTI [unidade de tratamento intensivo]”, completa.

Para Domingos Alves, da USP, esse cenário de imunidade coletiva está distante. “Quando a gente tiver os tais 50% de pessoas imunizadas, a gente já vai ter passado, de longe, dessa crise que estamos vivendo hoje”, afirma. Para o pesquisador, o foco do debate agora não é na imunidade coletiva. “Estamos em todos estados brasileiros e em cidades importantes no Brasil com uma curva de ascensão do vírus. As novas curvas para muitas cidades são similares às cidades americanas. A diferença é que estamos atrasados em relação a eles. Mas o caos que está acontecendo lá, que está todo mundo acompanhando na televisão, vai acontecer aqui e não é daqui um mês ou dois meses. Vai ser agora”, completa.

Quando a gente tiver os tais 50% de pessoas imunizadas, a gente já vai ter passado, de longe, dessa crise que estamos vivendo hoje.Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP

Já a professora de virologia Clarissa Damaso, afirma que esse tipo de valor é referência para se pensar imunidade adquirida por vacinas. “Isso é um cálculo que se faz baseado na transmissibilidade do agente, na população e na quantidade de pessoas suscetíveis. Normalmente, para grande parte das vacinas, você tem [imunidade] acima de 95%. O vírus não circula na população porque você simplesmente só encontra pessoas já imunizadas. Por isso é importante se manter uma alta cobertura vacinal”, afirma.

A especialista entende que não se deve aplicar a mesma lógica sem termos vacinas que funcionam. “Para doença, no meu ponto de vista, como virologista, não faz sentido querer que a população chegue a esse nível tendo a doença porque você também vai ter um número elevado de mortes. Isso é uma imunização em massa às custas de muitas mortes”, afirma.

Do momento em que cientistas chegam a uma fórmula para vacina até ela entrar no mercado o prazo é de 18 a 24 meses. Nesse período são feitos testes clínicos. “Tem que ver o nível de proteção, de soroconversão da população, até mesmo para ajustar dose, idade, várias coisas para ter uma vacina segura para população”, explica a virologista.

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 “Esse passaporte da imunidade é uma coisa muito forte. Ninguém têm como virar para o indivíduo e dar garantia de que está imune. Não há estudo para isso ainda. Isso é concordância geral entre os pesquisadores", afirma Clarissa Damaso, professora de virologia da UFRJ.

Passaporte da imunidade 

A professora da UFRJ também aponta limitações à ideia de uma “passaporte da imunidade”, defendida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Seria um tipo de teste para detectar se a pessoa está imune ao novo coronavírus e pode voltar ao trabalho. “Esse passaporte da imunidade é uma coisa muito forte. Ninguém têm como virar para o indivíduo e dar garantia de que está imune. Não há estudo para isso ainda. Isso é concordância geral entre os pesquisadores. Não têm como”, afirma.

Ninguém têm como virar para o indivíduo e dar garantia de que está imune. Não há estudo para isso ainda. Isso é concordância geral entre os pesquisadores.Clarissa Damaso, professora de virologia da UFRJ

Embora não haja conclusões científicas, baseado no que se sabe de outros vírus, a tendência é que uma segunda infecção seja mais branda porque o organismo vai ter algum nível de anticorpo. “É como se você imaginasse vacinas que precisam de mais de uma dose para proteger bem. Você pode não ter feito a soroconversão completa, mas pode fazer uma proteção parcial”, explica Clarissa Damaso.

Por essas incertezas, acredita-se que haverá uma segunda onda de covid-19. “Enquanto você tiver organismos suscetíveis, você pode ter ondas de infecção. Para se calcular isso, a gente teria de ter testagem em massa da população. Sem isso, a gente vai ficar só no cálculo teórico, pelas estimativas de qual a proporção de pessoas infectadas e não infectadas quando o vírus entra em contato com as populações. São cálculos estatísticos . Não é experimental”, afirma.

Essa testagem experimental seria com testes sorológicos, mas ainda há entraves técnicos para que sejam aplicados em massa. “Esse teste vai ver se você fez anticorpos por uma infecção que você já teve. Tem várias marcas produzindo testes novos. Isso precisa ser validado para você ter certeza de que vai realmente só verificar anticorpo contra o SARS-Cov-2, que você não vai detectar cruzadamente anticorpos contra outros coronavírus porque a gente têm coronavírus endêmicos. Isso é muito importante, para não dar falso positivo”, explica a virologista.

Além das dificuldades de produção, também é necessário que sejam aplicados no tempo adequado. “Com quase duas semanas [da infecção], você detecta a primeira onda de anticorpos. A gente faz a proteção em duas ondas. Uma chamada IgM, são as imunoglobulinas M, e a segunda imunoglobulina G, que é IgG. Se positivar na primeira, indica infecção recente. Quando passa mais tempo, quase um mês, você está positivado na outra. Mostra que você já têm esses anticorpos mais duradouros”, afirma Damaso.

O tipo mais preciso de teste sorológico é chamado ELISA [do inglês Enzyme-Linked Immunosorbent Assay ou ensaio de imunoabsorção enzimática], usado atualmente em laboratórios para saber se a pessoa está com dengue, por exemplo. Eles têm uma sensibilidade maior, mas são mais caros e demoram mais do que os chamados “testes rápidos”. Esse outro tipo de teste sorológico, menos preciso, tem sido aplicados em profissionais que estão na linha de frente do combate à doença, como agentes de saúde e de segurança. A análise é feita após o sétimo dia de apresentação de sintomas e serve de parâmetro para que voltem ao trabalho.