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07/06/2020 07:31 -03 | Atualizado 07/06/2020 07:35 -03

Orientação contra aglomerações e temor de reação arbitrária dividem apoio a protestos pró-democracia

Escalada autoritária do governo Bolsonaro em meio a pandemia impõe dilema a lideranças opositoras: respeitar isolamento ou manifestar nas ruas sua indignação.

A escalada autoritária pelo governo Bolsonaro em meio à pandemia do novo coronavírus levou a reação de setores da sociedade, inicialmente mobilizados virtualmente, para as ruas. Neste domingo (7), apesar das recomendações da comunidade científica para que se evite aglomerações, protestos contra o governo e em apoio à democracia estão marcados para diversas cidades do País.   

Em São Paulo – onde a mobilização promete ser maior e onde, na última semana, houve tensão entre grupos contrários –, a Justiça proibiu que protestos antagônicos ocorressem na Avenida Paulista, o que levou os organizadores de 7 grupos pró-democracia transferirem seus atos para o Largo do Batata, no bairro de Pinheiros. 

Os grupos contrários ao governo, no entanto, racharam por causa do contexto. Em nota, líderes da Rede, do PSB, do PDT, do Cidadania, do PSD e do PT no Senado pediram que os brasileiros não saiam às ruas neste momento, “em que precisamos redobrar os cuidados sanitários e ampliar a comunicação com a sociedade em prol do distanciamento social”. O Brasil registra seguidamente mais de mil mortes pela covid-19 e há o alerta da OMS de que o País ainda não atingiu o pico da pandemia. 

Paira ainda um fantasma em relação à invocação do uso da força para repressão dos atos. O presidente Jair Bolsonaro classificou aqueles contrários a seu governo como “terroristas” e tem sugerido que as forças de segurança “façam seu trabalho”. Além disso, o Ministério Público do Distrito Federal e Território (MPDTF) afirmou, por meio de nota, que há denúncias “sobre o incentivo, por parte de integrantes da Polícia Militar, ao uso de força excessiva contra os manifestantes”. O Instituto Sou da Paz chegou a alertar autoridades em São Paulo sobre o tratamento desigual com que as polícias têm tratado os diferentes grupos ideológicos.

A nota das lideranças de oposição no Senado, que pede para que a manifestação seja adiada, também ressalta “a escalada autoritária do governo federal”, mas enfatiza que é dever “preservar a vida e segurança dos brasileiros, não dando ao governo aquilo que ele exatamente deseja, o ambiente para atitudes arbitrárias”.

Em seguida, outras personalidades e autoridades endossaram o pedido. O rapper Emicida é um dos que não apoia a ida às ruas. Ele destaca que epidemiologistas têm falado que o ato é uma espécie de “genocídio” e que o País aguarda crescimento de 150% na pandemia nos próximos dias.

“A irresponsabilidade de quem tinha que conduzir este País para um lugar melhor ainda vai matar muita gente, o contágio não chegou ao seu máximo ainda”, diz. Ele pede que se pense no contexto sanitário e chama atenção para possibilidade de infiltrados na manifestação. “A instabilidade está sendo usada para justificar uma pá de ação arbitrária.” 

As torcidas adversárias que foram às ruas no domingo passado corroboram os argumentos do rapper e também não endossam os atos deste domingo. Além da pandemia, o grupo afirma que há expectativa por conflito para que se implante planos ditatoriais no País. “Não seremos nós (Torcidas organizadas) o bode expiatório para isso acontecer”, diz texto publicado no perfil @antifa.hooligans_brasil no Instagram.

Ao HuffPost, o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, afirmou que entende quem pretende ir às ruas, mas ressaltou coerência com o momento que o País vive.

“Não criminalizo essas pessoas (que vão às ruas), eu entendo a angústia delas, o momento é muito delicado. Vivemos não só uma pandemia mundial, mas uma pandemia mais grave ainda nesse quadro brasileiro. Entendo, mas nós, entidades da sociedade civil que temos responsabilidade com coerência e questão da saúde – CNBB, SBPC, Academia Brasileira de Ciências, Associação Brasileira de Imprensa e Comissão Arns – tivemos uma posição conjunta de pedir para as pessoas ficarem em casa, que elas protestem por meio das redes, de protesto criativo, que manifestem sua indignação, mas fiquem em casa, porque o mais importante nesse momento é conter a pandemia.”

Um dos organizadores do protesto em São Paulo, o líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos (PSol), reconhece o risco de infiltrados, mas argumenta que sempre há um risco. “Devemos fazer de tudo para minimizá-lo. Mas, convenhamos, o outro lado não precisa de pretextos nossos para endurecer. Se ficarmos parados tampouco temos qualquer garantia. Eles sempre produziram os próprios pretextos”, alega.

Em complemento, o deputado Glauber Braga (PSol-RJ) levanta um questionamento. “Circulam mensagens dizendo que Bolsonaro quer aproveitar qualquer ação no domingo pra dar o golpe. A minhas perguntas são: se eu recuar, ele recua? Não. Se eu recuar, ele avança? Tudo indica que sim! Então está decidido. Não recuarei!”, afirmou no Twitter.

NurPhoto via Getty Images
No último domingo (31), torcedores de times adversários de São Paulo se uniram e foram às ruas. No dia, houve conflito com manifestantes bolsonaristas.

Arena de defesa da democracia

Ao HuffPost Brasil, o cientista político e professor da FGV Cláudio Couto ressalta que a rua, na democracia, é um espaço importante de disputa política e que deixou os grupos pró-democracia em uma situação complicada.

“Ao mesmo tempo em que tem uma posição crítica à postura do presidente de minimizar a pandemia, ver o avanço autoritário crescente levou a uma escolha difícil. Se é para resistir a esse avanço, não pode deixar as ruas exclusivamente com bolsonaristas. E aí vai às ruas, apesar do receio”, diz. 

Até então, o espaço público estava sendo constantemente tomado por atos antidemocráticos com pedidos de fechamento do Congresso e do STF (Supremo Tribunal Federal), e, em Brasília, costumavam contar com o apoio e a presença de Bolsonaro. A cena mudou no domingo passado, dia 31, em que torcedores de times adversários de São Paulo se uniram e foram às ruas. No dia, houve conflito com manifestantes bolsonaristas.

Ao longo das duas últimas semanas, entidades organizadas da sociedade civil se manifestaram em defesa da democracia, outros grupos suprapartidários nasceram para angariar apoio popular e exigir o cumprimento da Constituição. Os manifestos são reações a uma série de atitudes do presidente, de seus aliados e família, que elevaram o tom contra a independência dos três poderes.

O STF e o Congresso reagiram às declarações do presidente e estão em alerta. Na Câmara, ex-aliados do presidente também reconhecem que a democracia corre risco. Ao HuffPost, o deputado Júnior Bozzela (PSL-SP) diz que a democracia vive um momento de tensão. “O presidente invoca o tempo todo em seus discursos a ditadura e o regime militar, o filho dele lá atrás já falou em novo AI-5 e em fechar o STF com um cabo e um soldado. Vira e mexe, quando algo não sai a contento, o presidente endurece o tom para quase uma ameaça.”

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