MULHERES
29/04/2020 18:16 -03

Isolamento deve provocar aumento de 20% em casos de violência doméstica no mundo

Estudo da ONU aponta que pandemia é 'catastrófica' para mulheres no mundo todo por intensificar violência e pobreza.

A pandemia do novo coronavírus terá um “impacto catástrofico” na vida das mulheres, aponta novo estudo realizado pela ONU (Organização das Nações Unidas). Segundo a pesquisa, conduzida com as universidades Johns Hopkins (EUA), Victoria (Austrália) e a organização Avenir Health, o fator agravante desta situação é o isolamento social, tão necessário para conter o avanço da covid-19, mas que coloca as mulheres ao lado do agressor e pode provocar aumento de pelo menos 20% em casos de violência doméstica em todo o mundo. 

Neste contexto, o estudo aponta que dezenas de milhões de mulheres em todo o mundo podem não ter acesso (ou ter o acesso reduzido) à contracepção e milhões de meninas podem ser submetidas ao casamento infantil ou estarem sujeitas a mutilação genital feminina como resultado da pandemia.

Cada três meses de quarentena poderia resultar em 15 milhões de casos a mais de abuso doméstico do que seria normalmente esperado, segundo o UNFPA, a agência de saúde sexual e reprodutiva da ONU que liderou a pesquisa. As projeções destacam o que as Nações Unidas descreveram como uma “pandemia sombria” que acontece paralelamente à da covid-19.

UNFPA/ONU
Trabalhadores comunitários na Síria estão preocupados com a vulnerabilidade de mulheres e meninas na quarentena.

Muitos países já relataram picos nas ligações para linhas de atendimento à casos de violência doméstica. No Brasil, dados da ONDH (Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos), do MMFDH (Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos) apontam aumento de 18% entre as denúncias formalizadas e de 9% no aumento de ligações desde que o período de quarentena foi estipulado. Ao mesmo tempo, os isolamento estão tornando mais difícil para serviços e instituições alcançarem mulheres que estão ao lado dos agressores.

“Esses novos dados mostram o impacto catastrófico que a covid-19 em breve poderá ter sobre mulheres e meninas em todo o mundo”, disse Natalia Kanem, chefe do UNFPA. “A pandemia está aumentando as desigualdades, e milhões de mulheres e meninas agora correm o risco de perder a capacidade de planejar suas famílias e proteger seus corpos e sua saúde”.

Os pesquisadores preveem que 44 milhões de mulheres em 114 países de baixa e média renda poderiam perder o acesso à contracepção, levando a um número significativo de cerca de 1 milhão de gestações indesejadas, se a quarentena durar mais de três meses e causar interrupção nos serviços. Este número aumentaria para 7 milhões de gravidezes não planejadas se as restrições persistissem por seis meses, aponta o estudo.

 

PATRICK BAZ via Getty Images
Em Beirut, no Líbano, mulheres divulgam em faixas o telefone da linha direta de denúncias e orientações sobre violência doméstica. 

“São cenários muito realistas”, disse Ramiz Alakbarov, vice-diretor executivo interino do UNFPA. “O que estamos dizendo é que, por favor, não desvalorize os serviços de saúde reprodutiva e planejamento familiar. “Esta é uma crise dentro de uma crise para as mulheres”, disse ele à Thomson Reuters Foundation.

O UNFPA disse que os serviços de saúde podem estar muito ocupados enfrentando o covid-19 para poder prestar serviços de planejamento familiar. As mulheres também podem evitar visitar clínicas devido a temores de infecção ou devido a restrições de circulação social.

A pandemia também está atrapalhando as cadeias de abastecimento de suprimentos de hospitais e serviços de saúde como um todo. Espera-se que vários tipos de contraceptivos se esgotem nos próximos seis meses em mais de uma dúzia de países mais pobres, alerta o UNFPA.

Os pesquisadores também previram que poderia haver mais 13 milhões de casamentos infantis e outros 2 milhões de casos de mutilação genital feminina na próxima década, com a pandemia que frustra os esforços globais para acabar com as duas práticas há anos. Estes dados, aliados ao contexto de recessão global imposto pela pandemia, pode levar ao aprofundamento da pobreza e levar famílias casar suas filhas mais cedo, constatou a pesquisa.