Como a internet mudou (e quais são os dilemas de estar online)

Na última década, buscamos entender o que a internet se tornou enquanto experiência humana.

Muitas relações pautaram a história do mundo nos últimos 10 anos, mas poucas tiveram tamanho impacto quanto a popularização da internet.

Até pouco tempo atrás, ter uma conta no Orkut ou estar online no MSN era questão de sobrevivência. Hoje, as tecnologias permitem compartilhar momentos ao vivo no Instagram, trocar mensagens em alguns cliques no Whatsapp e acompanhar as principais discussões do mundo pelo Twitter.

Embora seja inegável que os últimos anos foram de massificação no acesso à rede, a qualidade deste acesso é fator determinante para definir como é a experiência de quem navega.

Com a ajuda das franquias de internet - que muitas vezes possuem acesso ilimitado a aplicativos como Facebook e Whatsapp - ficou cada vez mais fácil (e viciante) passar tempo rolando o feed. Mas este não deveria ser o único uso possível da rede.

O fato é que as redes sociais se consolidaram como fatores importantes em disseminação de conteúdo, com forte impacto na organização social. É o que explica Francisco Brito Cruz, diretor do Internet Lab.

“A discussão não é só sobre acesso, mas em relação à qualidade desse acesso. Quase todo mundo tem um celular e usa a internet de algum jeito, mas a qualidade é um desafio em termos de desigualdade. Uma coisa é você acessar o Whatsapp e outra é conseguir usar outros recursos. A partir daí a experiência vai mudando”, explica o especialista.

Filtros bolhas, fake news, manipulação de dados, FOMO... Aqui, listamos como as transformações do uso da internet nos últimos anos alimentaram (e nem sempre resolveram) os dilemas de estar online.

A era das bolhas...

Cada vez mais buscamos entender o que a internet se tornou enquanto experiência humana. E nesse quesito é impossível não pensar em como as redes sociais moldaram parte do nosso comportamento.

O especialista do Internet Lab afirma que elas foram aos poucos dominando território, ganhando espaço e notoriedade. “As redes sociais foram muito hábeis em ocupar pequenos momentos da nossa vida, ao longo do nosso dia, buscando a nossa atenção para poder vendê-la aos anunciantes”, compartilha Cruz.

E se na vida real é comum que a gente escolha as nossas relações baseadas em nossas semelhanças, nas redes o processo se intensificou. Por meio de algoritmos, a seleção minuciosa ao tipo de conteúdo que cada usuário é exposto passou a reforçar ideologias e visões de mundo em grupos cada vez mais fechados e seletivos.

“Há o reforço de preconceitos e soluções prévias. As pessoas só falam com você se você pensa como elas. É uma lógica apoiada pelos próprios algoritmos em que a pessoa só recebe mais daquilo que ela já tem, faz ou vê e isso vai produzindo uma radicalização”, explica Cláudio Couto, coordenador do mestrado em Gestão de Políticas Públicas da FGV.

e a discussão sobre saúde mental.

Na era do feed perfeito e do engajamento a todo custo, seguimos sem resposta sobre como manter a mente sã em um universo em que todos parecem estar vivendo o melhor momento da vida. Em meio a tudo isso, autocuidado se tornou a palavra de ordem.

Mas será mesmo que toda essa conversa sobre cuidar da mente, da saúde e do corpo tem tido efeitos realmente positivos? Para Álvaro Machado Dias, psicanalista da Unifesp, vivemos em uma época em que a busca pelo bem-estar nunca foi tão grande, mas ela tem um limite bem claro.

“As pessoas têm disposição, energia, tempo e recursos econômicos para investir no autocuidado, mas, por outro lado, a resolução de conflitos inconscientes tem menos procura. Há pouca gente preocupada em fazer uma análise profunda de si mesmo”, explica.

Sem o autoconhecimento, às vezes fica quase impossível não cair em algumas ciladas. Em muitos casos, o feed que deveria ser inspiracional do Instagram se torna uma concentração de gatilhos para a nossa ansiedade.

Outro fator de preocupação, apontado pelo psicanalista Christian Dunker, é a nossa incapacidade de lidar com as infinitas possibilidades que se acumulam. Podemos usar o exemplo mais básico de escolher um filme na Netflix, mas não só isso: estamos a um clique de nos tornarmos quem quisermos. Mas definir o que queremos ser nunca foi tão difícil.

“São muitas escolhas relacionadas à quantidade de possibilidades disponíveis. É o número de canais que você pode escolher, o número de sites que pode frequentar, tudo isso aumentou exponencialmente e hoje a gente entende que tomar muitas decisões é um indutor de ansiedade”, explica o psicanalista Christian Dunker.

Estamos abrindo mão da nossa privacidade?

Reflita por alguns minutos na quantidade de informações pessoais que você deixa por aí, seja ao disponibilizar o seu CPF em uma compra online ou até mesmo ao permitir o acesso ao seu perfil em um teste engraçado do Facebook.

Pois é, possivelmente essas informações estão sendo coletadas para uma base de dados que será manipulada e convertida em anúncios mais inteligentes. Não é à toa que a discussão sobre o valor da privacidade online marcou um dos debates mais acalorados da década.

“A gente às vezes olha para a privacidade de um jeito anacrônico, como o direito de estar só e de não ser visto. Isso até pode ser verdade quando falamos do mundo real, mas começou a ficar cada vez mais evidente que, quando se está online, essa abordagem não é suficiente. Entendemos que não é sobre estar só, mas sim sobre coletarem informações sobre nós e sobre quais são as consequência deste processo”, explica Francisco Brito Cruz.

Aqui, o raciocínio é muito similar ao que ocorre com os algoritmos que criam “filtro-bolhas” nas redes sociais. Suas informações são coletadas por empresas e você passa a ser impactado cada vez mais por conteúdos, produtos e serviços com alguma conexão aos temas de sua preferência.

A discussão, no entanto, ganhou outro contexto quando a manipulação de dados passou a ser identificada não mais para anúncios de compras online, mas também para manipular os processos políticos.

Em 2016, a eleição de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, foi um divisor de águas na coleta de dados digitais. Com pouca visibilidade na TV, o político fez uso das redes sociais como seu principal canal de comunicação com os eleitores.

Mais tarde, após investigações dos usos das ferramentas, foi entendido que a empresa Cambridge Analytica, que atuou na campanha do presidente, usou dados sigilosos de 50 milhões de pessoas sem consentimento.

No Brasil, as discussões sobre o tema resultaram na Lei Geral de Proteção de Dados, que promete limitar a atuação das empresas.

“Começamos a década sem nenhum tipo de reflexão sobre o tema e terminamos formulando a legislação. De alguma forma estamos entendendo que informação sobre alguém é poder e, se eu sei sobre você, consigo sugerir algo que você está mais propenso a aceitar, consigo te discriminar, manipular ou chantagear”, conclui Cruz.

O que ainda precisamos enfrentar

Os últimos 10 anos trazem constantes questionamentos sobre os reais benefícios de estarmos todos o tempo inteiro online.

Mas é impossível pensarmos em retroceder tantas transformações (e benefícios) com a chegada de serviços como Uber, iFood, Netflix e Spotify.

Em contrapartida, o final dos anos 2010s deixam para trás aquela ideia ingênua de que as mudanças tecnológicas não trariam conflitos para a nossa vida em sociedade.

“Na década anterior existia a impressão de que o processo tecnológico traria só coisas boas e hoje a gente percebe que ele também tem consequências que precisamos encarar. Notamos que algumas coisas e encaixes que funcionavam antes não servem mais ou perderam o sentido”, conta Cruz.

E, talvez, o principal desses sintomas seja a nossa falta de tolerância ao que não nos agrada, uma vez que a internet permite uma presença impessoal e distanciada em relação à realidade.

“As pessoas se sentiram à vontade para dizer coisas agressivas e radicalizar o discurso em um nível que dificilmente fariam pessoalmente. Nas redes acontece a pancadaria virtual e isso é bem ruim como sociedade, pois abre cada vez mais espaço para a violência”, explica Couto.

A saída para isso tudo? Coerência. O professor explica que, por mais naturalizado que os ambientes digitais sejam, é importante lembrarmos que eles são um reflexo de tudo o que acontece para além das telas.

″É preciso criar mecanismos que evitem bolhas e radicalizações, seja no discurso político ou sobre o que deveria ser autocuidado”, completa.