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29/03/2020 11:00 -03 | Atualizado 29/03/2020 11:00 -03

Escuta ativa e conexão emocional: As armas para 'quebrar' o isolamento dos idosos

Tratar o grupo mais vulnerável à covid-19 com piadas e como um 'peso' pode intensificar solidão e agravar questões de saúde mental.

Eric Gaillard / Reuters
Jovem francês participa de ação solidária para idosa, que recebe horas de atenção e assistência nas compras.

Se por um lado o isolamento forçado é inevitável para proteger idosos da covid-19, provocada pelo novo coronavírus, por outro, ele também pode trazer consequências psicológicas e físicas para o principal grupo de risco da pandemia. A medida é eficaz no que tange à proteção dos mais velhos, mas, segundo especialistas ouvidos pelo HuffPost, cobra um alto custo emocional para essa população e pode gerar tanto casos de transtornos mentais, como ansiedade e depressão, quanto o agravamento de problemas de saúde.

Mas, então, como protegê-los não só da doença mas dos efeitos do isolamento? Para a antropóloga Mirian Goldenberg, 63, ao invés de estigmatizar os idosos com piadas ou tratar a resistência apresentada ao isolamento como um peso, é preciso ajudá-los a enfrentar a solidão e praticar a escuta ativa

“Hoje eles [idosos] estão sendo bombardeados com a ideia de que eles estão atrapalhando, e isso só intensificou o estigma social ao qual eles estão submetidos, de que são um peso, de que são descartáveis. É preciso mudar o olhar que é cultivado sobre os idosos. A realidade atual em que vivemos é muito ameaçadora para todos eles”, afirma.

Goldenberg, que pesquisa a terceira idade há 20 anos e é autora de livros sobre o tema como A Bela Velhice (Editora Record), fez do seu trabalho um espaço de acolhimento diante da pandemia. Ela afirma que, todos os dias, passa pelo menos 10 horas se revezando em conversas com um grupo de cerca de 10 pessoas na faixa dos 90 anos. 

A letalidade do coronavírus na população em geral é de 2,3%, mas considerando a faixa etária entre 60 e 69 anos é de 3,6%. Dos 70 aos 79 anos, ela cresce para 8%. Quando passa de 80 anos, o índice chega a 14,8%, indicando ainda que é entre as pessoas com idade mais avançada que a doença se manifesta de forma mais severa.

Estes dados integram o mais completo levantamento divulgado até agora sobre o coronavírus, realizado pelo Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças (Chinese Centre for Disease Control and Prevention - CCDC) a partir da análise dos primeiros 44.672 casos confirmados no país.

ASSOCIATED PRESS
Homem passa por mensagem de cuidado aos idosos, pintada em parade da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

“Esse isolamento obrigatório é necessário, mas é quase uma morte simbólica para eles. Com essa situação, eu entrei em pânico e pensei: ‘O que vai ser dos meus amigos?’. Ao longo do anos, fiquei muito próxima deles”, diz Goldenberg, ao contar sobre o momento em que teve a ideia de se conectar com o grupo de 10 idosos, pelo menos uma vez ao dia. 

Para a antropóloga, o contexto atual também coloca em xeque valores enraizados na cultura ocidental a respeito do que é ser velho e do real significado da vida. Segundo ela, o tratamento estigmatizante dado aos idosos durante a pandemia diz muito sobre a forma como conceitos de amor e produtividade são associados apenas à juventude.

“Diferentemente do que pensam, a vida dos mais velhos é muito ativa. Eles vão ao mercado, ao banco, encontram amigos, fazem exercícios. É a rotina deles, o dia a dia. Não dá para esperarmos que eles vão associar de uma hora para outra o isolamento, assim como a maioria da população. Todos com quem eu converso estão assustados, sofrendo muito com tudo isso”, conta. 

Os números do coronavírus no Brasil

O Brasil chegou, neste sábado (28), a quase 4 mil casos confirmados de coronavírus, conforme boletim divulgado pelo Ministério da Saúde — são exatamente 3.908. Já são 114 mortes por covid-19 em 10 estados: Amazonas (1), Ceará (4), Pernambuco (5), Piauí (1), Rio de Janeiro (13), São Paulo (84), Goiás (1), Paraná (2), Santa Catarina (1), Rio Grande do Sul (2).

Na sexta, eram 3.417 casos confirmados e 92 mortes. Na comparação em relação aos números apresentados neste sábado (27), representa aumentos, respectivamente, de 14% e 20%. A taxa de letalidade nacional é de 2,8%. 

A autora de A Bela Velhice conta que um de seus amigos impressionado com a foto dos caixões enfileirados em igrejas e cemitérios na Itália. No segundo maior epicentro da doença no mundo, depois dos Estados Unidos, funerárias estão saturadas por vítimas do coronavírus e encontraram como solução acumular caixões em outros locais.

“Outro dia, um deles me contou o que sentiu quando viu a foto dos caixões enfileirados na Itália e me disse: Mirian, como é que vai ser? Quanto tempo mais eu tenho? Eu não vou poder me despedir dos meus filhos?”, lembra. “A única coisa que eu pude fazer foi dizer para ele não assistir à televisão e que, se não podemos fazer nada pelas pessoas na Itália, ele ainda faz muito para todas as pessoas que ama por aqui.”

Arquivo Pessoal
Mirian Goldenberg (à dir.), ao lado de José Guedes, de 97 anos, que faz parte do seu grupo de acolhimento e pesquisa, durante o lançamento de seu livro "Liberdade, Felicidade e Foda-se", em 2019.

A antropóloga afirma que este é um exemplo do que chama de escuta ativa e que esta pode ser uma solução frente às questões que o isolamento traz; por isso, o telefone se torna um grande aliado. “Alguns, claro, têm limitações com a tecnologia. Mas mesmo os que dominam e-mail, WhatsApp, preferem ligar. Ouvir a voz, falar, é cultivar a proximidade. Outro dia, um deles que gosta muito de histórias, leu para mim um trecho da biografia de Elis Regina por telefone”, conta, emocionada.

O oposto desse tratamento seria zombar ou até fazer piada com a situação vivida pelos idosos atualmente - seja porque têm dificuldade em aceitar o isolamento, seja por estarem no grupo de risco. Desde o início da quarentena, memes e correntes de humor em grupos de WhatsApp com ideias de “gaiola para velho” e “operação catavéio” têm se disseminado. A especialista diz que essas ideias reforçam preconceitos.

Como cuidar melhor dos idosos diante do coronavírus?

  • Cuide e proteja os idosos

  • Mantenha-os em casa

  • Não é indicado suspender medicamentos de rotina

  • Vacinação contra gripe e pneumonia é recomendada

  • Consultas de rotina devem ser suspensas

  • Manter rotina de exercícios, desde que seja em casa ou em espaços abertos sem contato humano

  • Acompanhar missas e cultos pela TV

  • Evitar contato com crianças e adolescentes

  • Nada de transporte coletivo, viagens e eventos

  • Se precisar ir à rua, evitar aglomerações e locais fechados

  • Aos cuidadores, higienização das mãos e de objetos é fundamental

  • Mesmo distante fisicamente, esteja por perto

Em Porto Alegre (RS), a recomendação pelo isolamento foi reforçada pelo atual prefeito, Nelson Marchezan Jr. (PSDB). Nesta semana, ele decretou que idosos não podem circular em praças e parques até o dia 15 de abril. E que, caso sejam flagrados na rua, estão sujeitos a multa de até R$ 429,20. 

A antropóloga critica a medida. “Primeiro, que não é verdade que eles estão quebrando o isolamento. Eles sabem da importância disso. E, segundo, que estão pegando exemplos isolados para falar do todo. Essa prática é uma crueldade. Isso pode passar uma ideia de que eles estão causando o problema. Pode passar a ideia de que eles estão ‘atrapalhando’ os [que estão] em idade produtivas, que podem continuar trabalhando, e reforçar um estigma social”, avalia.

Com a necessidade da suspensão tanto da circulação externa, quanto das visitas em casa, Goldenberg, assim como outros especialistas, recomenda que o contato por mensagens, ligações e vídeo chamadas - como ela vem fazendo, ativo e diário. Além de ressaltar a atenção de possíveis cuidadores e parentes que vivem junto durante a quarentena.

É preciso quebrar esse isolamento e criar uma conexão emocional. Eles precisam sentir que são úteis, amados. E é essencial que nós nos sejamos empáticos às necessidades deles.Mirian Goldenberg, antropóloga

“É preciso quebrar esse isolamento e criar uma conexão emocional. Eles precisam sentir que são úteis, amados. E é essencial que nós nos sejamos empáticos às necessidades deles. Então, a proteção que a gente tem que dar é para o nosso amor ser mais forte do que esse cenário tão violento e preconceituoso que se apresenta para eles.”

A antropóloga, que inspirou sua pesquisa no livro A Velhice, publicado em 1970 pela escritora francesa Simone de Beauvoir, ícone do movimento feminista, afirma que ela tinha uma espécie de “receita” para cultivar o que chamou de “uma bela velhice”. 

“Ela já se sentia velha com 42 anos naquela época, imagine só”, diz, ao brincar, em seguida, dizendo que já chegou aos 63. “Ela dizia que, para se ter uma bela velhice, era preciso ter um ‘projeto de vida’. E o que é esse projeto de vida? O meu, por exemplo, é escrever sobre os nonagenários. No que vai dar? Não sei. Mas é o que quero e posso fazer para que eles tenham uma vida mais digna. Eu já fui chamada de ‘escutadora de velhinhos’, acredita? Hoje isso é o que eu faço”, conta. “Esse ‘projeto’ que ela [Beauvoir] falava não é algo corporativista. Tem a ver com aquilo que você faz com paixão e que é para o bem, que é útil para quem se ama. E se for útil para mais gente, melhor ainda.”