O que importa mais em um hospital: Os profissionais, a tecnologia ou a hotelaria?

Essa discussão nem chega a tangenciar a realidade dos hospitais públicos, que atendem a mais de 70% dos brasileiros.

Quando você tem a chance de escolher um hospital para se cuidar, o que importa mais: os profissionais de saúde que lá atuam, a tecnologia aplicada nos procedimentos ou os quartos confortáveis?

Nas últimas semanas, a chegada de um hospital de luxo em São Paulo e o descredenciamento de uma série de hospitais por parte de um dos maiores planos de saúde do País têm aquecido o debate em torno da oferta de hotelaria e tecnologia em hospitais privados.

Estamos falando de técnicas avançadas que garantem maior precisão e menos efeitos colaterais em tratamentos cirúrgicos, por exemplo; mas falamos também de tablets, videochamadas com a enfermagem, controle de persianas, poltronas de couro e menu assinado por chefs. Consideradas amenidades supérfluas para alguns especialistas, para outros significam valor agregado ao serviço e, consequentemente, possibilidade de lucro para os acionistas.

Essa discussão nem chega a tangenciar a realidade dos hospitais públicos, que atendem a mais de 70% dos brasileiros e brasileiras.

Ala pediátrica do Hospital da Restauração, em Recife.
Ala pediátrica do Hospital da Restauração, em Recife.

Ao oferecer uma proposta de saúde universal e gratuita à população, o SUS (Sistema Único de Saúde) se ocupa de garantir o básico, ainda que haja diferenças significativas entre os hospitais.

Em alguns, faltam profissionais, infraestrutura, medicamentos. Em outros, há investimento em tecnologia e na formação de profissionais, além da interlocução com esferas privadas que trazem recursos.

Mas atuando em diversos hospitais públicos pelo País há quase 3 décadas, nunca vimos poltronas de couro macio ou menus especiais.

Ora, dirá você, se não há espaço ou tempo para o supérfluo nos hospitais públicos, por que é que tem palhaço?

A arte, oferecida aos pacientes por meio da linguagem do palhaço, seria um luxo? As intervenções artísticas – que é como apelidamos as visitas – são feitas duas vezes por semana por artistas que passam a integrar o quadro de profissionais de cada hospital durante um ano. Trata-se de um trabalho contínuo qualificado e remunerado, não voluntário, que é financiado pela doação de empresas e de pessoas.

Desde 1993, a associação Doutores da Alegria realiza pesquisas para verificar a relevância de sua atuação por meio de palhaços profissionais nestes ambientes. As avaliações apontam que o trabalho nada tem de supérfluo.

Continua pertinente na medida em que contribui com a qualidade das relações no hospital e traz benefícios ao tratamento das crianças, muitas delas em situação de risco e vulnerabilidade social – público prioritário para as nossas ações, como reafirmamos por meio de uma tarefa institucional há alguns anos.

Criança atendida pelos Doutores da Alegria no Hospital da Restauração, em Recife.
Criança atendida pelos Doutores da Alegria no Hospital da Restauração, em Recife.

E como já dissemos em outros artigos, acreditamos que o hospital reflete o social. E reflete também o modelo econômico.

De um lado estão os hospitais privados, capturados pela lógica de mercado e por empresas que precisam de lucro para continuar a girar a roda. Nesse sentido, há concorrência, há disputa por públicos, há investimento em publicidade e há oferta de serviços para nichos específicos. De outro lado, os hospitais públicos, que são um braço do Estado e asseguram o que diz a Constituição: a saúde é um direito de todos.

Voltamos à pergunta que abriu este artigo. O que importa mais: os profissionais de saúde, a tecnologia disponível ou quartos confortáveis? Para 7 em cada 10 brasileiros, não há muita chance de escolha. Vai-se ao hospital onde a condução é mais barata, onde tem vaga ou ao único que atende na região.

Para o restante, certamente não é a presença de uma cafeteria renomada no hall que fará a diferença. Segundo o presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, Sidney Klajner, “há pesquisas mostrando que, para o paciente, o mais importante é que o profissional de saúde o escute e lhe dê confiança. Os últimos itens citados foram comida boa, requinte e outras amenidades”.

A relação com os profissionais de saúde nunca será supérflua.
A relação com os profissionais de saúde nunca será supérflua.

Em uma situação de adversidade, não há poltrona macia que supere a sensação de cuidado e confiança entre dois seres humanos. Por mais que o avanço da ciência e as invenções tecnológicas promovam uma Medicina cada vez mais eficiente e os hospitais se aproximem de hotéis 5 estrelas, a relação com os profissionais de saúde nunca será supérflua.

Aqueles com alta capacidade técnica e olhar sensível para as questões humanas continuarão sendo o seu principal ativo. E a nós, palhaços, cabe o ofício de fazer brotar esse olhar sensível, por vezes até poético, em meio ao caldeirão de emoções que habitam os hospitais.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.