OPINIÃO
01/06/2019 00:00 -03 | Atualizado 01/06/2019 00:00 -03

O que importa mais em um hospital: Os profissionais, a tecnologia ou a hotelaria?

Essa discussão nem chega a tangenciar a realidade dos hospitais públicos, que atendem a mais de 70% dos brasileiros.

Quando você tem a chance de escolher um hospital para se cuidar, o que importa mais: os profissionais de saúde que lá atuam, a tecnologia aplicada nos procedimentos ou os quartos confortáveis?

Nas últimas semanas, a chegada de um hospital de luxo em São Paulo e o descredenciamento de uma série de hospitais por parte de um dos maiores planos de saúde do País têm aquecido o debate em torno da oferta de hotelaria e tecnologia em hospitais privados.

Estamos falando de técnicas avançadas que garantem maior precisão e menos efeitos colaterais em tratamentos cirúrgicos, por exemplo; mas falamos também de tablets, videochamadas com a enfermagem, controle de persianas, poltronas de couro e menu assinado por chefs. Consideradas amenidades supérfluas para alguns especialistas, para outros significam valor agregado ao serviço e, consequentemente, possibilidade de lucro para os acionistas.

Essa discussão nem chega a tangenciar a realidade dos hospitais públicos, que atendem a mais de 70% dos brasileiros e brasileiras.

Doutores da Alegria / Alcione Ferreira
Ala pediátrica do Hospital da Restauração, em Recife.

Ao oferecer uma proposta de saúde universal e gratuita à população, o  SUS (Sistema Único de Saúde) se ocupa de garantir o básico, ainda que haja diferenças significativas entre os hospitais.

Em alguns, faltam profissionais, infraestrutura, medicamentos. Em outros, há investimento em tecnologia e na formação de profissionais, além da interlocução com esferas privadas que trazem recursos.

Mas atuando em diversos hospitais públicos pelo País há quase 3 décadas, nunca vimos poltronas de couro macio ou menus especiais.

Ora, dirá você, se não há espaço ou tempo para o supérfluo nos hospitais públicos, por que é que tem palhaço?

A arte, oferecida aos pacientes por meio da linguagem do palhaço, seria um luxo? As intervenções artísticas – que é como apelidamos as visitas – são feitas duas vezes por semana por artistas que passam a integrar o quadro de profissionais de cada hospital durante um ano. Trata-se de um trabalho contínuo qualificado e remunerado, não voluntário, que é financiado pela doação de empresas e de pessoas.

Desde 1993, a associação Doutores da Alegria realiza pesquisas para verificar a relevância de sua atuação por meio de palhaços profissionais nestes ambientes. As avaliações apontam que o trabalho nada tem de supérfluo.

Continua pertinente na medida em que contribui com a qualidade das relações no hospital e traz benefícios ao tratamento das crianças, muitas delas em situação de risco e vulnerabilidade social – público prioritário para as nossas ações, como reafirmamos por meio de uma tarefa institucional há alguns anos.

Doutores da Alegria / Alcione Ferreira
Criança atendida pelos Doutores da Alegria no Hospital da Restauração, em Recife.

E como já dissemos em outros artigos, acreditamos que o hospital reflete o social. E reflete também o modelo econômico.

De um lado estão os hospitais privados, capturados pela lógica de mercado e por empresas que precisam de lucro para continuar a girar a roda. Nesse sentido, há concorrência, há disputa por públicos, há investimento em publicidade e há oferta de serviços para nichos específicos. De outro lado, os hospitais públicos, que são um braço do Estado e asseguram o que diz a Constituição: a saúde é um direito de todos.

Voltamos à pergunta que abriu este artigo. O que importa mais: os profissionais de saúde, a tecnologia disponível ou quartos confortáveis? Para 7 em cada 10 brasileiros, não há muita chance de escolha. Vai-se ao hospital onde a condução é mais barata, onde tem vaga ou ao único que atende na região.

Para o restante, certamente não é a presença de uma cafeteria renomada no hall que fará a diferença. Segundo o presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, Sidney Klajner, “há pesquisas mostrando que, para o paciente, o mais importante é que o profissional de saúde o escute e lhe dê confiança. Os últimos itens citados foram comida boa, requinte e outras amenidades”.

Doutores da Alegria / Alcione Ferreira
A relação com os profissionais de saúde nunca será supérflua.

Em uma situação de adversidade, não há poltrona macia que supere a sensação de cuidado e confiança entre dois seres humanos. Por mais que o avanço da ciência e as invenções tecnológicas promovam uma Medicina cada vez mais eficiente e os hospitais se aproximem de hotéis 5 estrelas, a relação com os profissionais de saúde nunca será supérflua.

Aqueles com alta capacidade técnica e olhar sensível para as questões humanas continuarão sendo o seu principal ativo. E a nós, palhaços, cabe o ofício de fazer brotar esse olhar sensível, por vezes até poético, em meio ao caldeirão de emoções que habitam os hospitais.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.