LGBT
26/08/2019 16:51 -03 | Atualizado 26/08/2019 17:00 -03

Vasco da Gama repudia canto homofóbico da torcida em jogo contra o São Paulo

Em nota oficial, clube carioca lamentou episódio ocorrido em São Januário, neste domingo (25).

Pilar Olivares / Reuters
Após o jogo ser interrompido pelo árbitro Anderson Daronco, o técnico Vanderley Luxemburgo pediu para a torcida do Vasco parar com cantos homofóbicos.

Após o Vasco abrir o placar contra o São Paulo, neste domingo (25), com gol de Talles Magno, em São Januário, grande parte dos torcedores começou a provocar o adversário com o canto homofóbico “viado, time de viado”. Em nota oficial divulgada nesta segunda-feira (26), o Vasco pediu desculpas e disse repudiar cantos com este teor por parte da torcida do clube.

“O Club de Regatas Vasco da Gama lamenta e repudia qualquer canto ou manifestação de caráter homofóbico por parte de alguns de seus torcedores”, diz a nota. “Da mesma forma, a Diretoria Administrativa do Clube manifesta seu pedido de desculpas a todos que, corretamente, se sentiram ofendidos por este comportamento”, continua o clube em posicionamento.

Durante o jogo deste domingo, ao ouvir os cantos, o árbitro Anderson Daronco, paralisou a partida aos 19 minutos e foi até o técnico do Vasco, Vanderlei Luxemburgo. Após alguns minutos de conversa, ele virou-se para a arquibancada e pediu que a torcida parasse com a manifestação. 

Assista ao vídeo abaixo do momento divulgado pelo Globo Esporte:

Além da conversa com o técnico, a arbitragem imediatamente reportou o fato, e os auto-falantes do estádio São Januário alertaram os torcedores para que não houvesse esse tipo de manifestação. Em seguida, os torcedores pararam.

Nas redes sociais, a atitude do Vasco foi vista como algo novo no futebol ― em que as torcidas, muitas vezes, refletem um comportamento preconceituoso e violento da sociedade ao manifestar sentimento pelo oponente em campo.

Em entrevista coletiva após o jogo, segundo o Globo Esporte, Luxemburgo disse que só soube pedir calma à torcida, já que o canto poderia prejudicar o clube e o campeonato como um todo. 

“Foi naquela hora em que pedi para a torcida, porque é proibido ter canto homofóbico. Falei para a torcida ter um pouquinho de calma, porque pode prejudicar. Mas como eu ia falar para todo mundo (risos)? Eu só falei: “Calma, porra”, risos. “Os caras meio que entenderam, isso vai na rádio, têm vocês da televisão. Luxemburgo está falando isso aqui, passa na rádio e chega lá na torcida”, concluiu, analisando a atitude da arbitragem como positiva.

Cantos homofóbicos estão proibidos em estádios

Pilar Olivares / Reuters
Luxemburgo se irrita durante partida do Vasco da Gama contra o São Paulo, em São Januário, no Campeonato Brasileiro.

Após o final da Copa América deste ano, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) passou a punir com multa ou até perda de pontos os clubes cujos torcedores cantarem gritos homofóbicos durante os jogos.

A Procuradoria, caso identifique a ocorrência de homofobia ou haja o relato em súmula por parte de algum árbitro, então, poderá denunciar o clube dos autores da discriminação. 

“Suspensão de cinco a dez partidas, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão pelo prazo de cento e vinte a trezentos e sessenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código”, diz texto da legislação.

A medida atende à recente criminalização da homofobia no país estabelecida pelo Supremo Tribunal Federal e a diretrizes internacionais da Fifa. 

Ainda em nota divulgada nesta segunda, o Vasco aponta que preconceito é crime” e que “a plateia de um estádio de futebol e a sociedade de maneira geral passam por um processo de aprendizado e conscientização”.

“Preconceito é crime. E se existe um Clube no Brasil historicamente habituado a levantar a voz contra qualquer tipo de discriminação este é o Vasco da Gama, dono da história mais bonita do futebol”, diz a nota. “A plateia de um estádio de futebol e a sociedade de maneira geral passam por um processo de aprendizado e conscientização necessário para que atos de preconceito fiquem no passado – um triste passado, diga-se.”

Leia nota oficial do Vasco da Gama:

Em relação ao episódio registrado na partida deste domingo (25/08) contra o São Paulo, o Club de Regatas Vasco da Gama lamenta e repudia qualquer canto ou manifestação de caráter homofóbico por parte de alguns de seus torcedores. Da mesma forma, a Diretoria Administrativa do Clube manifesta seu pedido de desculpas a todos que, corretamente, se sentiram ofendidos por este comportamento.

O combate a este tipo de postura – iniciado ainda em campo, quando o técnico Vanderlei Luxemburgo, os jogadores, parte da torcida e o próprio Vasco da Gama, através do sistema de som do estádio, clamaram para que os gritos cessassem – não deve ser motivado pelo receio de punição desportiva (perda de pontos), mas, sim, por uma questão de cidadania e respeito ao próximo e cumprimento da lei.

Preconceito é crime. E se existe um Clube no Brasil historicamente habituado a levantar a voz contra qualquer tipo de discriminação este é o Vasco da Gama, dono da história mais bonita do futebol. Assim foi com a resposta histórica de 1924; assim é com os cantos que o torcedor vascaíno entoa orgulhosamente na arquibancada enaltecendo a luta do Clube a favor de negros e operários.

A plateia de um estádio de futebol e a sociedade de maneira geral passam por um processo de aprendizado e conscientização necessário para que atos de preconceito fiquem no passado – um triste passado, diga-se. A Diretoria Administrativa do Club de Regatas Vasco da Gama compromete-se em promover ações educativas neste sentido junto ao seu torcedor, certa de que encontrará em cada vascaíno um aliado no combate a qualquer tipo de discriminação. O Vasco é a casa de todos.