LGBT
05/08/2019 20:11 -03 | Atualizado 05/08/2019 20:20 -03

Polícia prende suspeito de crime homofóbico que deixou jovem sem falar e andar

Jefferson Feijó da Cruz, de 23 anos, foi estuprado, apedrejado e espancado a pauladas. Prisão acontece oito meses depois do crime.

Arquivo Pessoal
O grau de violência do crime chocou a cidade de Moreno, cidade-dormitório do Grande Recife, em Pernambuco, pela brutalidade envoldida.

A Polícia Civil de Pernambuco prendeu, em 1º de agosto, o principal suspeito de estuprar, apedrejar e espancar a pauladas o estudante Jefferson Anderson Feijó da Cruz, de 23 anos, em Moreno, cidade do Grande Recife (PE).

O suspeito Robson da Silva Alexandre, de 25 anos, foi preso preventivamente após decisão da Justiça ― oito meses após o crime, que ocorreu em dezembro de 2018. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o nome dele já havia sido apontado no inquérito policial e em denúncia do Ministério Público.

Aos policiais, Alexandre negou a participação no crime. Ele responderá por tentativa de homicídio, motivada por homofobia. 

“Recebi a notícia da prisão e senti um grande alívio. Vivi esses meses todos com muita angústia. O meu medo era que ele [suspeito] fizesse a mesma coisa com outra pessoa”, disse Etiene Feijó de Melo, a mãe de Jefferson, à Folha.

Um crime motivado por ódio

O grau de violência do crime chocou a cidade de Moreno, cidade-dormitório do Grande Recife, em Pernambuco, pela brutalidade envoldida. Jefferson, que é gay, foi estuprado, apedrejado e espancado a pauladas em 7 de dezembro de 2018, em uma pracinha do município localizado a 28 quilômetros de Recife.

O jovem comemorava a aprovação em uma prova e os preparativos para entrar na faculdade. No entanto, foi perseguido pelo agressor ao se distanciar dos amigos para ir ao banheiro ― onde ocorreu o crime. 

 Jefferson ficou com graves sequelas e precisa de cuidados específicos. Após um mês em coma e cinco meses internado, ele não anda e não fala, é alimentado por meio de sonda e respira por uma traqueostomia; com funções cognificas prejudicadas, ele não discerne fatos ou expressa emoções. 

Com a demora na prisão do suspeito, amigos e família acusam a Justiça de “letargia” e se mobilizaram para arrecadar cerca de R$ 135 mil para ajudar no tratamento do jovem; além de criar abaixo-assinado sobre o caso.

“O quarto dele já está sendo montado com toda uma estrutura de enfermaria em casa, graças à vaquinha dos internautas”, disse Robhério Limma, amigo de Jefferson, em texto para o HuffPost Brasil.

“Porém, ele precisará muito de home care, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos e outros. A recuperação é lenta, um dia de cada vez”, explica o amigo de infância da vítima.

Os números da violência LGBT no Brasil

EVARISTO SA via Getty Images
Canal oficial do governo, o Disque 100 recebeu 1.720 denúncias de violações de direitos de pessoas LGBT em 2017, sendo 193 homicídios.

De acordo com o Atlas da Violência do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), cresceu 10% o número de notificações de agressão contra gays e 35% contra bissexuais de 2015 para 2016, chegando a um total de 5.930 casos, de abuso sexual a tortura.

Canal oficial do governo, o Disque 100 recebeu 1.720 denúncias de violações de direitos de pessoas LGBT em 2017, sendo 193 homicídios. A limitação do alcance do Estado é admitida pelos próprios integrantes da administração federal, devido à subnotificação e falta de dados oficiais.

Por esse motivo, os levantamentos do Grupo Gay da Bahia, iniciados na década de 1980, se tornaram referência.

Em 2018, a organização contabilizou 420 mortes de LGBTs decorrentes de homicídios ou suicídios causados pela discriminação. O relatório “População LGBT Morta do Brasil” mostra, ainda, um aumento dos casos desde 2001, quando houve 130 mortes.

O grupo divulgou nova pesquisa que aponta 141 vítimas entre janeiro e o dia 15 de maio deste ano. De acordo com o relatório, ocorreram 126 homicídios e 15 suicídios, o que dá uma média de uma morte a cada 23 horas por homofobia.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em junho deste ano, que a LGBTfobia deve ser equiparada ao crime de racismo até que o Congresso Nacional crie uma legislação específica sobre este tipo de violência. Pena é de até 3 anos e crime será inafiançável e imprescritível, como o racismo.