LGBT
06/08/2019 14:01 -03 | Atualizado 06/08/2019 14:15 -03

Esta jovem de 19 anos foi espancada 'igual a um menino' por ser lésbica

"Vai apanhar igual menino", disse um dos agressores. Caso foi registrado como lesão corporal e ameaça; em vez de homofobia.

Reprodução/Facebook/Praia Grande Mil Grau
Jovem foi agredida na noite de 28 de julho; até o momento agressores não foram identificados.

Uma jovem lésica de 19 anos, que não teve seu nome identificado, foi brutalmente agredida por dois homens na noite de 28 de julho ao caminhar por uma rua no bairro Sítio do Campo, em Praia Grande, no litoral de São Paulo. 

Segundo boletim de ocorrência, ao qual o HuffPost Brasil teve acesso, a jovem relatou que estava caminhando sozinha por volta das 19h quando foi abordada pela dupla. Os homens estavam em um carro azul e começaram a perguntar qual o horário a ela e a fazer comentários sobre sua aparência.

Os agressores teriam questionado se ela “gostava de ser um menino” e que, então, iria “apanhar como um”. A vítima foi agredida com socos e chutes e, em seguida, colocada dentro do veículo, aponta o boletim de ocorrência.

Os agressores, que ainda não foram identificados, fizeram ameaças e fugiram após o crime. A vítima foi abandonada na Travessa Armando Lichti Filho, próximo ao local onde foi abordada.

Ela foi socorrida e levada ao Hospital Irmã Dulce. Lá fez exames e ficou internada por cerca de três dias. A jovem foi diagnosticada com lesão na coluna e rompimento no estômago.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, o crime foi registrado pela Delegacia de Defesa da Mulher de Praia Grande como lesão corporal e ameaça. O caso não foi registrado com motivação homofóbica.

O HuffPost Brasil tentou contato com a delegada Maria Aparecida do Santos, responsável pelo caso, mas não obteve resposta. Os agressores não foram presos e o caso segue sob investigação.

 

Agressores ainda não foram identificados

Mãe da jovem, que preferiu não se identificar, contou ao G1 detalhes sobre o crime. As agressões aconteceram quando ela estava saindo do Terminal Rodoviário Tude Bastos ― próximo ao local registrado no boletim de ocorrência ― quando foi abordada pelos dois homens.

Eles perguntaram as horas a ela, que inicialmente ignorou, mas continuou a ser seguida pelo veículo. Por isso, segundo a mãe, ela acabou respondendo. A dupla então teria pedido para ela entrar no carro. A jovem recusou e um dos homens desceu do veículo e começou a agredi-la fisicamente.

Caída, a jovem foi jogada dentro do carro. “Um dos caras no carro disse: você é menino? Ela disse, sim, sou menino. Aí ele falou: então você gosta de ser menino? Então você vai apanhar igual menino”, conta a mãe.

Após ser agredida, ela foi abandonada em uma travessa próxima. “A sensação foi mais para bater porque ela falou que gostava de ser menino. Por puro ódio, pura revolta”, lamentou a mãe da jovem.

Imagens relacionadas ao caso serão disponibilizadas à Polícia Civil, caso sejam solicitadas pela autoridade policial para auxiliar nas investigações, informou a prefeitura de Praia Grande. A expectativa da investigação é de que as imagens sejam anexadas ao caso e ajudem na identificação dos agressores.

A polícia de Praia Grande está recebendo informações para encontrar os autores do crime. As denúncias podem ser realizadas de forma anônima e por meio do telefone 190 ou 181, do Disque Denúncia. 

Os números da violência LGBT no Brasil

Anadolu Agency via Getty Images
O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em junho deste ano, que a LGBTfobia deve ser equiparada ao crime de racismo.

Dados do relatório Atlas da Violência, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apontam que, entre 2015 e 2016 o número de episódios de violência física, psicológica, tortura e outras contra bissexuais e homossexuais, aumentou, sendo a maioria das vítimas solteiras e do sexo feminino.

O estudo afirma que cresceu em 10% o número de notificações de agressão contra homossexuais e em 35% contra bissexuais de 2015 para 2016, chegando a um total de 5.930 casos, de abuso sexual a tortura.

Já em relação aos autores das violências, 70% eram do sexo masculino. Ao todo, foram notificadas 5.930 situações de violência contra a população LGBT.

Canal oficial do governo, o Disque 100 recebeu 1.720 denúncias de violações de direitos de pessoas LGBT em 2017, sendo 193 homicídios. A limitação do alcance do Estado é admitida pelos próprios integrantes da administração federal, devido à subnotificação e falta de dados oficiais.

Por esse motivo, os levantamentos do Grupo Gay da Bahia, iniciados na década de 1980, se tornaram referência.

Em 2018, a organização contabilizou 420 mortes de LGBTs decorrentes de homicídios ou suicídios causados pela discriminação. O relatório “População LGBT Morta do Brasil” mostra, ainda, um aumento dos casos desde 2001, quando houve 130 mortes.

O grupo divulgou nova pesquisa que aponta 141 vítimas entre janeiro e o dia 15 de maio deste ano. De acordo com o relatório, ocorreram 126 homicídios e 15 suicídios, o que dá uma média de uma morte a cada 23 horas por homofobia.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em junho deste ano, que a LGBTfobia deve ser equiparada ao crime de racismo até que o Congresso Nacional crie uma legislação específica sobre este tipo de violência. Pena é de até três anos e crime será inafiançável e imprescritível, como o racismo.