ENTRETENIMENTO
24/05/2020 00:00 -03

'Hollywood', a série, é uma fantasia perfeita para quem quer escapar da realidade incerta dos tempos atuais

Ambientado nos anos 1940, esse drama sofisticado da Netflix não esconde a que veio.

Em 1942, Lena Horne fez história quando assinou um contrato de 7 anos com a MGM. Horne não foi a primeira artista negra a firmar um contrato longo com um grande estúdio (a MGM fechara um contrato de 5 anos com a atriz Nina Mae McKinney em 1929), mas foi a primeira a receber o tratamento completo dado às estrelas glamurosas. A intenção era que Horne se tornasse uma estrela de cinema no mesmo nível de atrizes brancas de primeira linha da época, como Bette Davis, Joan Fontaine e Ava Gardner

Quando assinou o contrato, Horne insistiu que não representaria empregadas ou escravas em filmes. Mas não demorou a ficar claro que a MGM não sabia o que fazer com ela. A atriz fez pontas como cantora “exótica” em cenas em boates, mas não recebeu papéis principais substanciais. Horne lutou muito para conseguir o papel de Julie, uma negra que se faz passar por branca, no filme de 1951 O Barco das Ilusões (Show Boat). Mas o papel acabou sendo dado a Ava Gardner, porque os executivos do estúdio tinham medo de escalar uma atriz negra para um papel principal, especialmente considerando que ela contracenaria com um protagonista romântico branco. Mais tarde, Horne diria que assinar o contrato com a MGM foi uma das coisas de que ela mais se arrependeu de ter feito na vida.

Netflix
Darren Criss (no papel de Raymond Ainsley), Laura Harrier (como Camille Washington) e Mira Sorvino em "Hollywood".

Hollywood, a nova série dirigida por Ryan Murphy na Netflix, imagina como teria sido se Horne ou alguém como ela tivesse realmente conseguido tornar-se uma das grandes estrelas de cinema na Era de Ouro de Hollywood. A série é uma fantasia que contraria os fatos e é ambientada num universo alternativo povoado por um misto de personagens originais e figuras históricas. A série indaga: o que teria acontecido se os cineastas do mainstream de Hollywood tivessem começado a defender a diversidade e a inclusão 70 anos atrás?

A verdade que a série revela ao longo de seus 8 episódios é simples, mas dolorosa: o desastre que foi o período de Lena Horne como contratada da MGM, a tragédia da carreira de Dorothy Dandridge após sua indicação ao Oscar, o fato de que Anna May Wong perdeu o papel que teria sido seu de direito em Terra dos Deuses (The Good Earth) e um milhão de outras realidades da desigualdade foram todos frutos de covardia, complacência e uma enorme falta de imaginação. Hollywood pode parecer uma fantasia, mas as situações que retrata poderiam e deveriam ter acontecido.

A série oferece várias coisas muito raramente vistas na tela, incluindo, mas não apenas, mulheres com mais de 60 anos abertamente curtindo sua sexualidade (Patti LuPone, 71 anos, faz sua primeira cena de sexo diante das câmeras), retratos de trabalho sexual que não são aviltantes e muitas cenas em que pessoas historicamente marginalizadas falam do que representatividade significa para elas. Coisas que seriam um subtexto em qualquer outra sofisticada produção de época sobre Hollywood aqui são o texto declarado.

Em um episódio, Avis Amberg (representada pela deslumbrante LuPone) vira diretora interina da Ace Studios depois de seu marido, o diretor do estúdio, sofrer um ataque cardíaco. Ela tem a possibilidade de escolher Camille Washington, atriz negra com contrato temporário com o estúdio, para atuar em um drama baseado na vida da atriz Peg Entwhistle. O drama está sendo escrito pelo roteirista negro e gay Archie Coleman e dirigido pelo cineasta meio filipino Raymond Ainsley.

“É uma pena – ela é a melhor atriz para o papel”, diz Avis à sua amiga, que por acaso é a ex-primeira-dama Eleanor Roosevelt, num almoço. “Mas é negra.”

No mundo real, ou mesmo em outro tipo de série, a conversa não passaria disso. Mas em Hollywood, Roosevelt insiste que Avis chame Camille para o papel, destacando o impacto que ver seu rosto na telona teria para uma menininha negra que nunca se vira representada no cinema.

“Às vezes acho que as pessoas desta cidade não entendem seu próprio poder”, diz Eleanor Roosevelt. “O cinema não nos mostra apenas como é o mundo – ele nos mostra como mundo pode ser.”

“Se a gente muda o modo como os filmes são feitos, se você se arrisca a criar uma história diferente, acho que você pode transformar o mundo.”

Assim, Avis aproveita o poder que conseguiu para chamar Camille para fazer o papel e para aprovar a produção do filme, que até o final da série quebra todos os recordes de bilheteria e recebe várias indicações ao Oscar. Camille se torna a primeira negra a receber um Oscar de melhor atriz, Wong finalmente recebe um Oscar também, e Archie, ao ganhar seu Oscar de Melhor Roteiro, declara seu amor por seu namorado, Rock Hudson, sobre o palco da cerimônia de entrega dos prêmios. Rock Hudson, aliás, vive abertamente como gay, e um dos maiores estúdios de Hollywood é comandado por uma mulher.

Os trabalhos de arte feitos sobre a Hollywood do passado muitas vezes falam, na realidade, do presente. Era Uma Vez em... Hollywood, outro filme de história revisionista, trata do medo caótico gerado pelos crimes de Charles Manson numa época em que o mundo vivia um clima igualmente caótico, mas de maneira diferente.

Hollywood, por sua vez, destaca a necessidade de ordem, de ética, de fazer sentido em tempos de ausência de sentido. Apesar de sua sofisticação visual, do sexo e dos escândalos, Hollywood é uma série profundamente séria. Essa seriedade pode ser interpretada como uma espécie de ingenuidade; algumas críticas da série argumentam que ela simplifica excessivamente a discussão sobre representatividade e se limita a mostrar o que gostaríamos que tivesse acontecido.

Eu entendo: a representatividade não nos salvará por si só, e a indústria do cinema tem a tendência a produzir fantasias de autoengrandecimento que deixam pouco espaço para as nuances. Mas nestes tempos bizarros de distanciamento social, em que as pessoas dependem da arte para se conectar com outras e para se tranquilizar, a sinceridade ingênua de Hollywood é simplesmente reconfortante. A fantasia nos proporciona catarse e encerra verdades.

Hollywood não sugere que tudo tenha mudado simplesmente porque um filme foi feito ou um prêmio foi ganho. O que a série explora, e o que ela defende, na realidade, é a importância do impulso, do movimento. O simples fato de uma série como essa poder existir – com seu elenco diversificado, seu romance declaradamente queer, seus produtores executivos LGBTQ+Ryan Murphy e Janet Mock – evidencia a realidade dos próprios temas que a série destaca.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.