ENTRETENIMENTO
10/05/2020 02:00 -03 | Atualizado 19/05/2020 20:00 -03

'Hollywood': O que é real e o que é ficção na nova minissérie da Netflix

A série mostra figuras da vida real como Rock Hudson, Anna May Wong e Hattie McDaniel, mas qual a precisão de suas histórias?

Este texto contém spoilers da minissérie Hollywood

A mais recente colaboração do mega showrunner Ryan Murphy com a Netflix, a glamourosa e exagerada Hollywood, estreou na plataforma de streaming na semana passada cheia de pompa, mas recebeu uma recepção mista.

Enquanto muitos críticos - incluindo nós! - adorava o escapismo tão necessário que a série fornece, muitos achavam que suas tentativas de reescrever a história eram um pouco estúpidas e excessivamente bregas.

“Eu queria fazer um show sobre a história escondida”, Ryan Murphy disse anteriormente ao New York Post, quando perguntado sobre sua decisão de apresentar uma versão alternativa da “era de ouro” de Hollywood. “Eu queria fazer uma grande pergunta revisionista da história, que era: ‘Se essas pessoas que tinham permissão de ser quem eram no final dos anos 1940 e colocassem essa imagem na tela, isso mudaria a trajetória de Hollywood e muda minha vida de um garoto gay que cresceu nos anos 1970 e sentiu que não tinha modelos a se espelhar?’”

Mas essa visão acabou confundindo boa parte do público que muitas vezes fica na dúvida quais dos eventos retratados em Hollywood realmente aconteceram, e quais foram apenas criações da imaginação dos roteiristas.

Eis aqui o que conseguimos descobrir:

Os personagens principais

Netflix

Hollywood começa nos apresentando Jack Castello (David Corenswet), enquanto ele parte em sua jornada rumo ao estrelato, encontrando o diretor Raymond Ainsley (Darren Criss), o aspirante a roteirista Archie Coleman (Jeremy Pope) e as futuras co-estrelas Claire Wood (Samara Weaving) ) e Camille Washington (Laura Harrier).

No decorrer da trama, são apresentados executivos de estúdio como Avis Amberg e Ellen Kincaid (Patti LuPone e Holland Taylor) e Dick Samuels (Joe Mantello).

Embora Ryan Murphy e os atores tenham dito que muitos dos personagens são influenciados por figuras reais de Hollywood, todos são completamente fictícios. De fato, do elenco principal, apenas Rock Hudson (Jake Picking) e Henry Willson (Jim Parsons) são pessoas reais. Mais sobre eles falaremos mais tarde.

A escolha dos figurantes no portão do Ace Studios 

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Uma das primeiras vezes que conhecemos Jack, ele entra em uma aglomeração de pessoas do lado de fora do portão do Ace Studios, esperando que seja escolhido a dedo para ser figurante em algum filme famoso.

Embora o Ace Studios seja completamente fictício, essa era uma prática real que costumava acontecer fora dos estúdios da Paramount na época em que Hollywood se passa, com os esperançosos tentando ser vistos pelos executivos do estúdio.

E, para ser justo, muitas vezes funcionou. Também, com a quantidade de figurantes que se usavam nas produções daquela época...

O Posto The Golden Tip

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Antes de conseguir um papel no cinema, Jack acaba aceitando trabalhar no posto de gasolina Golden Tip. Por lá, passavam pessoas ricas de Hollywood que procuravam um “servicinho extra”.

Por trás de toda a operação está Ernie (Dylan McDermott, colaborador frequente de Ryan Murphy), que orgulhosamente dirige o negócio. Os clientes podem solicitar que sejam levados para “Dreamland” (Terra dos Sonhos). A palavra é, na verdade, um código para sexo, como quando Rock Hudson encontra Archie pela primeira vez.

Embora o posto de gasolina Golden Tip e Ernie sejam fictícios, eles se baseiam nas experiências da vida real de Scotty Bowers, um ex-fuzileiro naval que dirigia um estabelecimento semelhante em Hollywood.

Cole Porter

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Scotty Bowers escreveu sobre suas experiências ao dirigir seu posto de gasolina/bordel em Hollywood em um livro de memórias de 2012, que mais tarde se transformou em um documentário.

No livro, Scotty cita vários clientes de destaque, incluindo a lenda da música Cole Porter, que também foi retratada em uma cena fazendo uma visita ao Golden Tip.

Rock Hudson

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Outra celebridade citada no livro de Scotty foi Rock Hudson. Por isso é apropriado colocar o ator no Golden Tip quando somos apresentados a ele na minissérie, quando ele ainda era conhecido como Roy Fitzgerald.

Grande parte da história de Rock Hudson é realmente a mesma de Hollywood - ele recebeu seu nome artístico depois de assinar com o infame agente de talentos Henry Willson, que mais tarde o levou a trabalhar em seu físico e a fazer um tratamento em seus dentes.

Há coisas que você não espera que fossem reais em Hollywood, mas são verdadeiras. Incluindo o fato de que, em seu primeiro teste para um papel, Rock teve que fazer uma cena 27 vezes até acertar apenas uma linha de diálogo.

Archive Photos via Getty Images
O Rock Hudson real.

A única grande diferença entre o Rock Hudson real e o fictício é que ele nunca se assumiu gay. Sua sexualidade só foi revelada após sua morte por complicações relacionadas à aids em 1985.

De fato, durante sua vida, ele foi brevemente casado com um dos secretários de Henry Willson. Mas seu agente sempre se negou a revelar qualquer detalhe sobre a sexualidade de seu cliente, que vez ou outra era questionada nos jornais.

“Imagine se ele pudesse ser gay e fosse a primeira [estrela de cinema gay]. Ele não apenas teria ficado mais feliz, mas imagine todas as pessoas que teriam um modelo como Rock Hudson”, disse Ryan Murphy ao NY Post sobre sua decisão de fazer Rock sair do armário de vez no episódio final.

Anna May Wong 

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Como aconteceu com Rock Hudson, parte da história de Anna May Wong em Hollywood se desenrolou exatamente na vida real. Como quando ela foi convidada para uma audição para o papel principal em Terra dos Deuses (1937), para um papel de uma chinesa que acabou sendo dado à atriz branca Luise Rayner, que mais tarde ganhou um Oscar por ele.

Infelizmente, porém, a verdadeira carreira cinematográfica de Anna May foi bem diferente da mostrada na minissérie.

Assim como retratado em Hollywood, Anna May ficou desiludida com as limitações por conta da origem asiática, que a limitava a papéis específicos e estereotipados. Mas ela não teve uma volta por cima.

“Eu estava tão cansada das peças que tive que interpretar”, ela disse ao Film Daily, em 1933. “Por que a chinesa é quase sempre a vilã. E um vilã tão cruel. Assassina, traiçoeira... Uma verdadeira cobra. Não somos assim. Fiquei tão cansado de tudo isso.”

Donaldson Collection via Getty Images
A Anna May Wong real.

Ryan Murphy disse que Hollywood é sua maneira de “dar um final feliz a algumas pessoas que foram destruídas por Hollywood”. E não há dúvida de que Anna May é uma dessas figuras.

No final, a personagem se torna a primeira mulher de ascendência chinesa a ganhar um Oscar por atuação, embora, na realidade, isso seja algo que ninguém tenha conseguido até hoje.

Peg Entwistle

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Peg Entwistle não era realmente uma personagem em Hollywood, mas sua verdadeira história se tornou um ponto central da trama.

Originalmente do País de Gales, Peg se mudou para a Califórnia para seguir uma carreira no cinema, mas logo se decepcionou com Hollywood.

Como retratado na minissérie, Peg tirou a própria vida depois que a maioria de suas cenas foram cortada do filme Thirteen Women (1932). O bilhete que deixou escrito antes de se matar é exatamente igual ao mostrado em Hollywood.

Da mesma forma que Ryan Murphy tentou dar um final alternativo a Anna May Wong e Rock Hudson, Hollywood mostra Archie reimaginando a história de Peg, por ela finalmente não se matar, decidindo que isso seria mais empoderador para as jovens que assistissem ao filme.

O comportamento de Henry Willson

Netflix

Os espectadores viram um lado muito diferente de Jim Parsons, de The Big Bang Theory, quando foram apresentados a seu personagem em Hollywood, Henry Willson.

Willson realmente era o agente de Rock Hudson e, segundo é relatado por muita gente que conviveu com ele, seus negócios eram tão obscuros quanto os retratados na minissérie.

A biografia O Homem que Inventou Rock Hudson: Os Rapazes Bonitos e Negócios Sujos de Henry Willson descreve muito do comportamento retratado em Hollywood, como o fato de ele se aproveitar de muitos jovens que sonhavam com o estrelato no cinema.

A revista Variety também descreveu Willson como tendo uma reputação no auge de seu sucesso por ser “predatório” e “atrair” jovens para trabalhar com ele, prometendo torná-los uma estrela apenas se fizessem “o que ele mandava”. 

Bettmann via Getty Images
O verdadeiro Henry Willson.

“Henry Willson foi um dos grandes monstros da história de Hollywood”, disse Ryan Murphy. “Ele perseguia o mesmo tipo de cara e prometia a eles o estrelato, forçando-os a dormir com ele. Ou vê-los dormir com outras pessoas.”

Outros detalhes da vida de Willson também foram ressaltados na minissérie, incluindo seu relacionamento com a máfia.

No entanto, o verdadeiro Henry Willson teve um final muito menos feliz do que seu personagem na minissérie da Netflix. Em Hollywood, Willson procura ajuda para seus vícios e comportamento predatório, entrando em um relacionamento saudável e produzindo o primeiro filme gay convencional.

Na realidade, porém, Willson lutou contra o abuso de substâncias até o final de sua vida, tendo sido denunciado por muitos de seus próprios clientes após a revelação de sua sexualidade.

As festas na mansão de George Cukor

Netflix

Grande parte da ação no terceiro episódio de Hollywood gira em torno de um jantar na casa do diretor de cinema George Cukor, onde as coisas mudam um pouco quando todos terminam de comer.

George - que dirigiu Nasce uma Estrela (1954), Núpcias de Escândalo (1940) e ganhou um Oscar por dirigir My Fair Lady (1964) - ficou famoso por suas festas vibrantes (“O Sr. Cukor tem todas essas festas maravilhosas para damas à tarde. Depois, à noite, homens malcriados vêm comer as migalhas! ”).

Uma diferença crucial entre as partes reais e ficcionais, porém, é o consumo de álcool. Na verdade, George não bebia muito e era difícil encontrar álcool em suas festas na piscina.

Vivien Leigh

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O jantar de George Cukor é o primeiro lugar que nos é apresenta uma verdadeira lenda de Hollywood, Vivien Leigh, mais conhecida por seu papel em E o Vento Levou (1939).

Na vida real, Vivien era amiga de George, mantendo-se próxima mesmo depois que ele foi substituído como diretor do agora clássico filme, incluindo uma reunião com ele para obter dicas sobre como ela deveria se apresentar como Scarlett O’Hara.

Bettmann via Getty Images
Vivien Leigh logo após de ganhar o Oscar por "E o Vento Levou".

Durante o episódio, ela fala sobre um novo papel, o de Blanche DuBois na versão cinematográfica da peça Um Bonde Chamado Desejo (1951), de Tennessee Williams. Atuação que lhe renderia seu segundo Oscar.

Ela também é retratada como uma mulher bastante perturbada, e, na realidade, Vivien lutou com sua saúde mental ao longo de toda a sua vida. A atriz foi diagnosticada com transtorno bipolar.

A Canção do Sul

Quando a diretora do Ace Studios, Avis, está pensando em escolher uma atriz negra para o papel principal de seu novo projeto, Dick e Ellen falam sobre A Canção do Sul (1946), lançado pela Disney poucos anos antes, descrito por eles como um filme que que “escravos são tão felizes que nem queriam sair da fazenda em que eram escravizados”.

A Canção do Sul é inquestionavelmente o filme mais controverso da Disney, e notavelmente nunca foi lançado em vídeo - ou mesmo no novo serviço de streaming da Disney - embora um passeio baseado em seus personagens animados, Splash Mountain, ainda exista em três parques de diversão da empresa.

Embora muitas vezes se tenha afirmado falsamente que o filme só foi criticado ou considerado ofensivo pelos críticos modernos, na verdade, ele foi criticado na época por sua representação de personagens negros, que muitos achavam que era brincadeira com estereótipos racistas.

Hattie McDaniel

Netflix

Em Hollywood, Queen Latifah interpreta Hattie McDaniel, a primeira mulher negra a ganhar um Oscar, contando a história chocante de sua noite na cerimônia de entrega do prêmio.

Foi quase a mesma coisa que aconteceu na realidade. A principal diferença é que Hattie foi autorizada a entrar na sala para a cerimônia, mas ela foi proibida de se sentar com seus colegas de elenco de E o Vento Levou.

Lamentavelmente, após a vitória de Hattie, o resto do elenco passou a noite em uma festa em que ela não tinha permissão para participar.

Bettmann via Getty Images
A verdadeira Hattie McDaniel com sua estatueta do Oscar.

A minissérie mostra Hattie - que foi casada com quatro homens em sua vida - como amante da estrela Tallulah Bankhead, figurinha carimbada nas festas de George Cukor.

“Tallulah Bankhead já falou algumas vezes sobre isso”, disse Ryan Murphy recentemente. “Não fazemos grande diferença no fato de que Hattie ou Tallulah eram bissexuais, mas eram. Hollywood só queria que você fosse uma coisa. Em público, elas tinham que fingir ser apenas essa pessoa, mas a portas fechadas eram muitas outras coisas. Eu queria ser fiel a isso.”

O Mágico de Oz

Já no final da minissérie, um editor revela que salvou o destino de Peg copiando o filme, para impedir que o filme sofresse muitos cortes ou fosse destruído.

Ele afirma que fez a mesma coisa quando trabalhava em O Mágico de Oz (1939), sugerindo que a MGM queria cortar a música que virou a marca registrada do filme: Over The Rainbow.

Isso aconteceu de verdade. Os chefes do estúdio achavam que o número de abertura diminuía o ritmo do filme. Mas a canção acabou sendo mantida e acabaria sendo a vencedora em sua categoria no Oscar. Uma das duas estatuetas que a produção ganhou, junto com um para Judy Garland.

O Oscar de 1948

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Hollywood termina com uma versão reimaginada do Oscar de 1948. Embora Peg tenha varrido o quadro de premiações na minissérie, a premiação daquele ano foi bem espalhada.

Todos os filmes mencionados na sequência foram nomeados naquele ano, e Edmund Gwenn realmente ganhou por interpretar o Papai Noel em De Ilusão Também se Vive.

Em Hollywood, porém, são feitos vários momentos históricos de um Oscar fictício, incluindo Archie se tornando o primeiro vencedor negro na categoria Melhor Roteiro Original. Nenhum roteirista negro ganharia esse prêmio até 2018, quando Jordan Peele conquistou a estatueta por Corra!.

O mesmo acontece com o prêmio de Melhor Atriz a Camille Washington por Peg. Não houve sequer uma vencedora negra nessa categoria por 50 anos.

Halle Berry se tornou a primeira (e, lamentavelmente, única) mulher negra a ganhar o Oscar de Melhor Atriz em 2002, por A Última Ceia.

ASSOCIATED PRESS
Halle Berry levou o Oscar de Melhor Atriz em 2002.

Ela, aliás, mencionou isso em seu discurso de aceitação na época, dedicando sua vitória a “todas as mulheres negras sem nome e sem rosto que agora têm uma chance, porque esta porta foi aberta”.

No entanto, em 2016, ela disse: “Eu acreditava de todo coração que isso iria provocar mudanças, que essa barreira havia sido quebrada. E ver, 15 anos depois, que nenhuma outra mulher negra superou essa barreira é de partir o coração. Pensei que aquele momento era maior do que eu. Talvez não tenha sido.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.