OPINIÃO
02/05/2020 07:19 -03 | Atualizado 02/05/2020 07:19 -03

'High Maintenance' é a crônica de uma vida que parece ter acontecido há décadas

Algo especial aconteceu na 4ª temporada da série da HBO, o último e nostálgico registro da nossa vida como ela era.

Yara quer emplacar uma pauta sobre a relação de seus pais em um programa de rádio enquanto Arnold, que ganha a vida fazendo telegramas cantados busca desesperadamente por um banheiro em um dia escaldante. Kim, coordenadora de intimidade em sets de filmagem, conhece um simpático mágico que tem aversão ao toque. Já de noite, Keesha e Roman se metem em um mal entendido no karaokê.

Histórias que à primeira vista parecem banais são, na verdade, a alma de uma das melhores e (infelizmente) menos vistas séries da atualidade: High Maintenance. Uma sensível, e por vezes bem mordaz, crônica sobre a vida na metrópole. 

Em sua essência, a quarta temporada - que foi ao ar na HBO do dia 8 de fevereiro a 3 de abril de 2020 - não traz nada de muito diferente do que já havíamos visto em temporadas anteriores. Porém, mesmo que involuntariamente, algo de especial aconteceu aqui.

High Maintenance acabou se tornando o último registro de uma vida que não existe mais na prática, mas é bem real em nossos corações e mentes. Aqueles dias pré-pandemia. Quando nos amávamos, xingávamos alguém pela janela do carro no trânsito parado, curtíamos um dia de sol, ríamos com os amigos em uma mesa de bar... Em resumo, vivíamos uma vida que não sabíamos que estava com seus dias contados.

David Giesbrecht
O mau humorado Arnold (Larry Owens) é apenas um dos diversos tipos de gente como a gente que cruzamos em "High Maintenance".

Originalmente produzida como uma websérie do Vimeo, High Maintenance foi criada pelo casal (hoje separado) Ben Sinclair e Katja Blichfeld. O título foi comprado pela HBO em 2016. A trama é bem livre. Parece não falar de nada, mas, na real, fala de tudo.

Ela segue um tipo meio hipster sem nome definido, apresentado apenas como “o cara da maconha” (Ben Sinclair), que, claro, vende maconha para clientes espalhados por Nova York usando sua bicicleta. Nessas andanças, ele cruza com os mais diversos personagens que são retratados em pequenos contos/crônicas que variam entre a comédia e o drama, algumas pitadinhas de non sense e diálogos inspirados e cheios de atitude.

Há muita nudez e sexo, mas esqueça corpos idealizados. A série, que transborda humanidade, aliás, não perde uma oportunidade de tirar um sarro da vida de mentira do Instagram. As pessoas retratadas na série são como eu ou você, ou totalmente diferentes da gente. Elas fazem o que nós fazemos, ou não, e sofrem dos mesmos dilemas que nós.

Divulgação
Na nova temporada, o Cara (Ben Sinclair) ganha uma nova companheira, a cachorrinha Fomo.

O “cara da maconha” não é um super-herói ou um anti-herói. É só um cara. Um cara gentil, simpático e cheio de empatia, verdade, mas um ser humano com seus problemas pessoais também. Ele nem é o protagonista de High Maintenance. Pensando bem, os protagonistas da série somos nós. 

Não há uma trama central. Há gente gorda, magra, alegre, triste, solitária, apaixonada, que ama seu trabalho, que odeia seu trabalho... Nós nos identificamos com suas histórias ou achamos aquilo tudo muito patético. 

Poucas séries teriam a coragem e ousadia de, por exemplo, desenvolver todo um episódio ao redor de um isqueiro que passa de mão em mão por anos. Aliás, esse EP em particular, Backflash, o 4º da temporada, é um verdadeiro primor.

Por isso mesmo, você nem precisa ver a série em ordem cronológica. O que faz o ato de assistir essa temporada algo ainda mais necessário mesmo para quem nunca ouviu falar de High Maintenance. Mesmo isso traz em si uma carga de melancolia e nostalgia de uma vida que vivíamos não faz dois meses, mas que parece ter acontecido há uma eternidade.