MULHERES
27/05/2020 06:00 -03

Logo após o nascimento, eu não conseguia me ver separada da minha filha

A dona do 24º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe” é a produtora cultural Helena Gaia, que atravessou as dificuldades do puerpério e aprendeu muito nessa fase.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Helena Gaia e bebê Dora.

Quando penso sobre a maternidade, as minhas memórias são marcadas sempre pelo olhar: a primeira vez que olhei nos olhos da Dora, o olhar que não me deixava saber qual era o limite dos nossos corpos e o olhar que me trouxe de volta a mim.

Durante o primeiro ano da Dora, nós íamos a cada 2 meses na Casa Angela, casa de parto onde fiz meu pré-natal, participar de um encontro com outros bebês, mães e pais que tinham tido o filho na mesma época. Num destes encontros, o dos 9 meses, teve um momento em que colocamos os bebês em um colchonete em frente a gente. Tínhamos que ficar observando, sem falar nem propor nada para eles. A Dora, então, começou a interagir com muito carinho com um outro bebê que estava lá. Rolou um clique ali. 

O amor ganhou uma proporção nova. Se antes ele vinha com muita responsabilidade, peso, eu despertei e ele ficou leve, pois vivenciei ali que ela era além de mim e das pessoas com quem estávamos acostumados a conviver. Que ela tinha sua própria vida, que criaria seus próprios laços e aprendizados. Aquela história que devemos criar filhos para que criem asas, sabe? Foi isso. 

E foi muito importante para mim porque acho que o maior desafio que encontrei na maternidade foi logo após o nascimento da minha filha. Eu não conseguia me ver separada da Dora. Eu olhava para ela e não sabia onde terminava uma e começava a outra, num processo simbiótico mesmo, de pele... Ela como uma parte de mim e eu como uma extensão dela, algo inseparável. 

Hoje eu olho e acho lindo, mas enquanto eu vivia aquele momento eu só queria que a Helena de antes voltasse. Durante esse processo, eu fui entendendo que aquela Helena não voltaria e fui dando boas-vindas a essa nova que nasceu com a Dora e ao mesmo tempo ela foi entendendo também que tinha nascido e que podia SER independente de mim. 

Assim a gente foi se reconhecendo separadamente e se amando com mais segurança. 

Divulgação/Arquivo Pessoal
Helena sem cortina de voil nos olhos há 5 anos, desde que nasceu Dora.
Puerpério é foda, mas ele passa. E lutar contra esse período é a pior coisa que se pode fazer... Pode pedir ajuda, você não será menos mãe por isso. Tente não se cobrar; é o momento de adaptação de vocês 2 ao mundo de mãe e filho.

Eu sempre quis ser mãe, desde pequena. Sou a segunda de 4 filhas com uma mãe superpresente, atenta e carinhosa, o que facilitou muito para que esse desejo sempre fosse latente. Quando me tornei tia, há 10 anos, essa vontade se cristalizou ao vivenciar de perto o crescimento e desenvolvimento de uma criança. Apesar disso, tinha coisas que eu não tinha ideia sobre esse processo de maternidade. 

A mais forte para mim, que eu gostaria que alguém tivesse me contado, é que o puerpério é foda, mesmo, mas ele passa. E lutar contra esse período é a pior coisa que se pode fazer, é o jeito mais árduo de atravessar essa fase.

Pode pedir ajuda, você não será menos mãe por isso. Tente não se cobrar, é o momento de adaptação de vocês 2 ao mundo de mãe e filho. Você não precisa dar conta de tudo. Algo sempre vai ficar prejudicado, e está tudo bem. Tem um conceito de psicanálise que me ajudou muito nesse começo de vida com a Dora, que é o da mãe suficientemente boa. A mãe vai dar conta do que ela pode naquele dia, naquele momento, a criança vai se frustrar e está tudo bem. 

Neste sentido, de buscar ser a mãe que posso, sinto que o meu maior desafio hoje, além da quarentena, é determinar limites. Agora não mais o dos corpos, mas, como os limites na minha vida sempre foram muito elásticos, tenho a tendência a permitir muitas coisas. Principalmente agora em que estamos vivendo 24 horas juntos em um momento de incertezas e mudanças para todos. Mas vejo o quanto é importante e traz segurança, liberdade e autonomia para a criança esse limite. 

Quanto ao olhar - voltando a ele, o começo de tudo - lembro que a minha querida Vó Lourdes sempre dizia que antes de ser mãe parecia que ela vivia com uma cortina de voil nos olhos e que, ao nascer, o bebê retira essa cortina e podemos conhecer as cores reais do mundo.

Cinco anos depois do meu primeiro olhar sem tecido nenhum na frente, entendo que ela tinha toda a razão. Um filho chega para intensificar e tornar reais todas as nossas interações e vivências no mundo, trazendo à superfície todo o tipo de emoção. Várias boas e algumas nem tanto. E tudo bem.  

Helena Gaia é a dona do 24º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”. Tem 33 anos é produtora cultural e mora em São Paulo com a família. Vive a emoção de criar a filha no mesmo local em que cresceu com as três irmãs.

 

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