ENTRETENIMENTO
31/07/2019 08:06 -03 | Atualizado 31/07/2019 08:06 -03

A história por trás da famosa cena de Heath Ledger em '10 Coisas que Eu Odeio em Você'

“Trabalhar com Heath foi superespecial, e não estou dizendo isso porque ele morreu. Eu simplesmente gostava de passar tempo com ele", disse o diretor Gil Junger sobre o ator australiano.

Ilustração: Damon Dahlen/HuffPost; Fotos: Alamy
Você não consegue tirar os olhos de Heath Ledger em 10 Coisas que Eu Odeio em Você.

Calças de couro rachado verde oliva. É o que o diretor Gil Junger se recorda muito bem sobre Heath Ledger no primeiro dia no set de 10 Coisas que eu Odeio em Você.

“Um cinto de couro branco desgastado, uns sapatos brancos malucos, um chapéu e sabe-se lá que camisa”, ele prosseguiu, descrevendo os vários elementos do look de Ledger no primeiro dia das filmagens. “Olhei para ele e pensei: ‘Se eu tivesse usado qualquer uma dessas coisas, todo o mundo daria gargalhadas’. Mas, sei lá por quê, em Heath ficou cool demais. Ele era capaz de convencer com qualquer look.”

Junger se rendeu ao charme de Ledger já em seu primeiro encontro com o ator, então com 18 anos, em seu teste para 10 Coisas. Ele e sua equipe de diretoras de casting – incluindo Gail Goldberg, Donna Morong e Marcia Ross — estavam tendo dificuldade em encontrar a pessoa certa para o papel de Patrick Verona, estudante rebelde e outsider que encara o desafio de convencer a adolescente feminista Katarina “Kat” Stratford (Julia Stiles) a sair com ele. O ator precisava ser desleixado, mas carismático. Um sujeito diferente e talvez solitário, mas fácil de se gostar.

“Eu já tinha examinado uns 250 caras e ainda não estava contente com nenhum. Não tinha encontrado aquela mágica que acreditava que estava aí fora em algum lugar”, me disse Junger numa festa para marcar o vigésimo aniversário do lançamento do filme, em 31 de março de 1999. “Foi quando Heath entrou na sala. Pensei na mesma hora: Se este cara souber ler, é ele quem vou chamar para o papel.”

10 Coisas que Eu Odeio em Você é uma adaptação moderna de A Megera Domada, de William Shakespeare, centrada em um conflito agudo: devido às regras rígidas impostas pelo pai delas (Larry Miller), Bianca (Larisa Oleynik), a irmã mais nova de Kat, não vai poder sair com ninguém a não ser que Kat também tenha um encontro. Assim, os pretendentes de Bianca – seu tímido professor particular Cameron James (Joseph Gordon-Levitt) e o atleta popular Joey Donner (Andrew Keegan) – fazem um acordo com Patrick, que parece ser o único garoto da escola disposto a tentar cortejar a mal-humorada Kat.

É uma história que fascina espectadores desde 1999 e até hoje, razão por que o HuffPost reuniu Gil Junger, a atriz Julia Stiles, o empresário de Heath Ledger, Steve Alexander, e outros para relembrar uma das cenas mais icônicas do filme: a que Ledger canta e dança na arquibancada do campo esportivo do colégio. Para compensar por não beijar Kat após uma noite em que ela se embebedou, Patrick invade o treino de futebol de Kat para apresentar uma performance levemente embaraçosa de Can’t Take My Eyes Off You, acompanhado pela banda do colégio. E Kat fica encantada, é claro. 

Um elenco dos sonhos

Depois de seu sucesso como diretor do episódio de Ellen em que a protagonista sai do armário, em 1997, Junger teve uma reunião geral com a Disney. O estúdio estava procurando alguém para dirigir 10 Coisas que Eu Odeio em Você, e o entusiasmo dele pelo projeto persuadiu os produtores a lhe dar o trabalho. 

Gil Junger (diretor): Quando fui contratado para dirigir o filme, o que foi emocionante, é claro, falei: “Não vou fazer um filme colegial. Eu encaro este trabalho como um filme sobre o relacionamento entre duas pessoas que por acaso estão no colégio. Quero que meus amigos de 40 anos venham assistir e curtam o filme.” Eu me neguei a fazer um filme “colegial”, não queria adotar um ar de superioridade. Acho esse gênero altamente derivativo.

Steve Alexander (empresário de Heath Ledger): O filme se sustenta muito bem. Eu tenho filhos, e eles assistem o filme hoje quando passa na TV ou em streaming ou alguma coisa. O filme ainda funciona. É a prova de que o material é forte e que Gil escolheu o elenco tão bem. 

Junger: A única coisa que o estúdio falou em relação ao casting foi “você deveria dar uma olhada na garotada de Dawson’s Creek, eles estão super em alta”. Basicamente, deixaram entender que gostariam que eu contratasse Katie Holmes e aquele cara bonitinho de Dawson’s Creek. Por algum motivo, acho que o nome dele era Patrick. Quem quer que fosse bonitinho ou um dos galãs de Dawson’s Creek. [Nota do editor: mencionei os nomes de James Van Der Beek e Joshua Jackson, mas Junger não estava convencido que o tal cara bonitinho fosse um dos dois.] Eu queria que confiassem em mim para encontrar pessoas relativamente talentosas que ninguém conhecesse, porque então não haveria ideias preconcebidas. Seria simplesmente um grupo novo de jovens que a América estaria vendo. Falei: “Me deem uma chance de escolher o elenco eu mesmo. Farei testes com todos e aí vocês poderão dizer sim ou não.” E eles me olharam e disseram “tudo bem”. Foi espantoso, considerando que foi meu primeiro filme.

Alexander: A primeira coisa foi o teste de tela. Fechamos um acordo de teste com ele. Se me recordo corretamente, Heath leu o teste, gostou e achou que poderia fazer bem o papel.

Junger: Marcia Ross era a diretora de casting da Disney na época. Era fenomenal. Ela chamou o cara seguinte para entrar, disse que ele era da Austrália e que ela não sabia muito sobre ele, mas que o empresário dele tinha dito que devíamos dar uma olhada. E assim que Heath entrou na sala, pensei: “Ele é um astro, ponto final”. Não foi por causa da aparência dele. Era a vibe. Havia uma autoconfiança tranquila, uma sexualidade tranquila, que me levaram a pensar “Uau, quem é esse cara?”. Ele se sentou e eu tinha umas oito páginas de texto para o personagem ler. Nem tínhamos terminado a primeira página quando eu falei: “Heath, vamos guardar essas páginas”. Ele me olhou, assustado. Falei: “Não, não, é uma coisa muito boa. Acho você um cara de muito talento. Só quero improvisar um pouco com você.” Eu queria ver se ele conseguiria mudar de atitude facilmente e quem sabe fazer alguma coisa com humor. Fizemos isso por uns 45 segundos e eu disse: “Ok, muito obrigado por vir aqui”. Ele me olhou como quem diz: “Cara, acabei de vir de avião da Austrália. Depois de um voo de 16 horas você só vai passar dois minutos comigo?”

Alexander: Acho que nem sequer olharam as imagens [do teste de tela]. Normalmente eles assistiriam ao vídeo e então decidiriam juntos. No caso dele, acho que telefonaram assim que ele saiu da sala.

Junger: Assim que a porta se fechou, eu falei: “Eu nunca quis transar com um homem, mas se fosse transar com um homem, seria com ele. Vamos contratá-lo agora mesmo.” Fechamos com ele menos de uma hora depois.

Alexander: Foi o primeiro filme americano em que eu o coloquei. Era um filme de estúdio em que ele fazia o personagem masculino principal – ou seja, justamente o que a gente gostaria.  

Junger: Primeiro escolhi Heath, depois Julia.

Julia Stiles (Kat Stratford): Me mandaram para Los Angeles de avião para fazer um teste de tela com Heath depois dos testes iniciais. Me lembro de ter ficado feliz por ter chegado até essa etapa.

Junger: Com a personagem de Kat eu queria transmitir à garotada: “Você não é obrigado a mudar quem você é só para se sentir ligado a todo o mundo. Não se comporte de um jeito xis só para que outras pessoas gostem de você – seja fiel a você mesma.” Para ser franco, sempre achei 10 Coisas um filme sobre o empoderamento feminino. Por isso, quando conheci Julia percebi que ela era a pessoa perfeita para o papel. Era exatamente a pessoa que é Kat. Bastou o jeito que ela apertou minha mão para eu perceber: “Esta não é uma garota. É uma mulher jovem e que merece ser levada a sério.”

Stiles: Eu nunca tinha me deparado com uma personagem como Kat nas comédias para teens. Talvez tenha havido algumas precursoras, tipo Ally Sheedy em Clube dos Cinco, Molly Ringwald em Gatinhas e Gatões ou Winona Ryder em alguns filmes dos anos 1980. Mas fiquei super interessada na angústia existencial declarada de Kat.

Junger: Eu estava altamente empolgado. Era o primeiro longa-metragem de Heath. O primeiro de Joseph Gordon-Levitt. No caso de Julia, seu primeiro filme de estúdio. Então, sim, escolhemos um elenco maravilhoso. Chegamos a ter Allison Janney antes de ela ser vista como uma escolha cool. É bacana ou não?

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Ledger e Julia Stiles em 10 Coisas que Eu Odeio em Você.

Filmagem inesquecível no verão

Os atores e a equipe técnica “invadiram” Tacoma (no estado de Washington), em maio de 1998, filmando na Stadium High School em Seattle e arredores até o final de agosto. O grupo não demorou a virar uma espécie de família. 

Junger: Quando eu estava dirigindo o filme, nunca me passou pela cabeça que eu estava passando tempo com adolescentes. Éramos uma equipe e estávamos fazendo um filme.

Stiles: Estávamos todos dando tudo, totalmente envolvidos e totalmente abertos uns aos outros. 

Alexander: Quando fui lá visitá-los, todos os “jovens” estavam hospedados em dormitórios estudantis, se não me engano. Eles viraram uma espécie de pequena tribo.

Stiles (de uma entrevista anterior com o HuffPost): Estávamos todos hospedados no Sheraton, em Tacoma. Foi um período maravilhoso para todos nós. Éramos tão inocentes.

Alexander: Heath se divertiu demais fazendo aquele filme. Ele adorou. Era um grupo muito unido que incluía o produtor, o diretor, o elenco.

Junger: Trabalhar com Heath foi superespecial, e não estou dizendo isso porque ele morreu. Eu simplesmente gostava de passar tempo com ele. Quase todo dia eu pedia para o motorista me buscar um pouco antes da hora e aí eu passava para buscar Heath. Era apenas para passar aquela meia hora a mais com ele no carro, porque eu o achava tão interessante. Ele era incrível.

Alexander: Havia muita gente muito bacana no filme, e Heath realmente curtiu a camaradagem do trabalho com elas. Ele ficou muito amigo de David Krumholtz e Joseph Gordon-Levitt. E também de Andrew Keegan! E ele e Julia se deram superbem. 

Junger: O engraçado é que Julia Stiles e Joseph Gordon-Levitt ficaram juntos. Eu pensei que todas as garotas do set ficariam loucas por Heath, mas, como a cabeça independente que é, Julia tinha seu próprio favorito – o pequeno e superinteligente Joseph Gordon-Levitt.

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Ledger, David Krumholtz e Joseph Gordon-Levitt em cena de 10 Coisas que Eu Odeio em Você.

A cena que encantou os espectadores

Na metade do filme, Patrick canta e dança na arquibancada durante o treino de futebol de Kat, numa cena memorável. A ideia original era que Ledger cantasse I Think I Love You ou I Touch Myself, mas ele decidiu que Can’t Take My Eyes Off You, de Frankie Valli, seria a opção mais indicada. Os produtores chamaram uma banda escolar local para acompanhá-lo, e isso sem dúvida o ajudou a conseguir uma indicação para Melhor Sequência Musical no então prestigioso MTV Movie Awards.

Junger: Em vez de escolher atores que não sabiam tocar um instrumento, pensei na banda. Você pode cantar com uma banda e todos ficarão em sintonia. Se me recordo corretamente, enviei o pessoal de casting a alguns colégios secundários para ver se tinham bandas. Queríamos uma banda inteira.

Frank Caraan (líder da banda): A banda no filme misturava atores com membros reais da banda, eu entre eles. A escola na qual o filme foi rodado não tinha banda, então procuraram a minha escola, a Lincoln High School, e perguntaram se podíamos participar do filme. Meu professor de banda hesitou. Eu falei “você está doido? Temos que fazer este filme!” Eu já tinha sido aceito como figurante no filme, mas não queria perder essa chance de ter um papel de verdade.

Junger: O cara principal da banda era algum figurante qualquer. Não sei, de repente aquele bandleader no filme era o bandleader real. Lembro que ele tocou um apito e teve uma cena pequena no corredor onde Heath lhe entregou 300 dólares. Incluí essa cena porque precisava daquela explicação. Patrick era um cara super pária, por que a banda tocaria para ele?

Caraan: Durante a filmagem da cena na arquibancada, meus amigos estavam conversando. Não sabíamos como o público perceberia que Heath tinha convencido a banda a tocar aquela música para ele. Alguns dias depois de concluir a cena na arquibancada, recebi uma ligação da produtora me pedindo para vir filmar uma cena imprevista. Eu não sabia qual cena faria, mas estava torcendo pela cena no vestiário. Quando cheguei ao set, o diretor assistente me procurou e deu uma explicação rápida. Explicou que o líder da banda era esse cara na escola que conseguia qualquer coisa para os alunos, por um preço. Alguém precisava das respostas de uma prova? Estava sem lápis? Precisava de uma produção musical elaborada para impressionar uma menina como Kat Stratford? O jeito era procurar o líder da banda.

Junger: A cena começa com dedos empurrando para cima o volume dos alto-falantes na sala de controle. Depois vemos Heath saindo de uma sala e descendo por um poste. Não havia poste no lugar originalmente, mas eu queria dar o tom, mostrando que ele era carismático por natureza.

Marguerite Pomerhn Derricks (coreógrafa): Aquele poste! Acho que peguei essa ideia de Showgirls.

Junger: Eu fiquei na dúvida inicialmente, mas a coreógrafa criou um senso de movimento belíssimo.

Pomerhn Derricks: Naquela época, por conta de Austin Powers, eu virei a coreógrafa que todo o mundo procurava para filmes. Tive uma reunião com Gil Junger e resolvemos fazer o filme juntos. Me mandaram fotos do local, e com elas eu tive a ideia de como Heath se moveria. Ele era meu Fred Astaire!

Junger: Não que eu seja aficionado de filmes antigos em branco e preto, mas eu queria que Heath se movimentasse com o charme e a leveza de Fred Astaire.

Pomerhn Derricks: Conversei com Heath sobre Fred Astaire e alguns dos passos que ele fazia, incluindo aqueles deslizamentos para o lado. Foi preciso um ator como Heath, que não tinha medo de nada, para não ficar preocupado com a impressão que ele ia passar, para não recear que ficasse antiquado.

Anos mais tarde, quando me chamaram para trabalhar em Homem-Aranha 3 com Tobey Maguire, tive uma reunião com ele e Sam Raimi, e Tobey não queria dançar. Havia uma cena toda de break que ele não estava curtindo. Eu estava criando a cena e trazendo um monte de dançarinos para ser seus dublês, e Tobey só reagia negativamente. Então um dia fui à casa dele e comecei a lhe mostrar coisas de Fred Astaire. Foi o que acabamos fazendo em Homem-Aranha 3. Mas foi graças a Heath. Falei a Tobey: “O fato de fazer isso não vai te deixar velho. Você apenas vai renovar esses passos clássicos de dança, deixá-los jovens e descolados.” Foi exatamente o que fez Heath na arquibancada. Com sua juventude e ousadia, ele fez os passos parecer tão, tão cool.

Stiles: Heath surpreendeu todo mundo com seu envolvimento com essa performance. 

Alexander: Ele sabia que não era um ótimo dançarino, e acho que o charme da cena está justamente nisso, é o fato de a dança ser ruim. Acho que Heath deve ter querido fazer bem assim, não se preparando realmente mas sendo o mais amalucado possível, correndo pelas arquibancadas. 

Junger: Ele corria para cima e para baixo depois de cada tomada. Na realidade, fiquei espantado com sua boa forma física enquanto cantava, porque foi ele mesmo quem cantou. É claro que ele também sabia cantar, certo? Ele podia usar calças de couro verde e cantar! Que pentelho! Ainda sinto inveja dele por conta disso. É tolice minha?

Caraan: Além da banda do meu colégio aparecer no filme, foi nossa banda que gravou a música, e pudemos assistir a Heath Ledger gravando seu vocal para a cena. Ele estava super nervoso, disse que nunca antes tinha cantado na frente de alguém. Mas ele acertou em cheio.

Pomerhn Derricks: O canto dele me impressionou mais que tudo. Isso porque, como coreógrafa, sempre consigo encontrar um jeito de fazer atores parecerem maravilhosos. Mas canto é algo que não se falsifica. 

Alexander: Ele soa mal, mas é super-charmoso e tem um sorriso belíssimo. Foi isso que fez essa cena funcionar.

Junger: Eu estava me preparando para fazer uma tomada quando vi uma pessoa deitada na arquibancada. Um dos dois policiais que estavam supostamente correndo atrás dele na arquibancada acharam que a pessoa tinha sofrido um enfarte. O cara tinha uns 50 anos, era gordo e estava com falta de ar. Chamaram os paramédicos. Era a ironia perfeita para formar um contraste com a força e exuberância juvenil de Heath. O sujeito era na realidade o cara em quem Heath deu um tapa no bumbum quando passou correndo por ele.

Alexander: Heath sempre era divertido e falava bobagens. Muita coisa da personalidade dele próprio aparece naquela cena. Mais tarde em sua carreira ele passou boa parte do tempo tentando encontrar maneiras de desaparecer e de não compartilhar tanto de si em seus papéis, enquanto procurava criar os personagens. Mas acho que há muito de Heath Ledger em Patrick Verona, pelo menos em certos momentos.

Junger: Heath tinha um magnetismo incrível. Mas adoro aqueles olhares que Julia Stiles lhe dava, desde uma cara de “eca, que mala esse cara” até “ele tá cantando para quem? Para mim?” até “meu Deus, amo esse homem”. Ela fez tudo.

Stiles: Muito legal ouvir Junger dizer isso. Não era difícil reagir ao que Heath estava fazendo. 

Junger: Quando Julia fez uma leitura para mim, eu mal consegui acreditar. Percebi na hora: “Uau, esta garota é profunda”. E era! Julia é inteligentíssima. Acho que uma das razões por que a cena funcionou tão bem foi a ginástica e o charme de Heath, é claro, mas também a reação de Julia e como ela ficou comovida com o esforço dele. Digamos que foi um belíssimo trabalho a dois.

Nascem duas estrelas

As atuações de Heath Ledger e Julia Stiles em 10 Coisas os colocaram no mapa de Hollywood, para a alegria geral. Heath apareceu depois em O Patriota e Coração de Cavaleiro, enquanto Julia ganhou papéis principais em Louco por Você e No Balanço do Amor

Stiles: Eu já tinha feito algumas participações pequenas e um filme independente [Wicked], mas 10 Coisas foi meu primeiro papel principal num filme de estúdio e o primeiro que realmente levou as pessoas a me enxergarem. E é um privilégio raro fazer um filme do qual as pessoas ainda se lembram 20 anos mais tarde. 

Junger: Falei a Heath: “Quero que você saiba que quando este filme sair, você vai ficar sobrecarregado. As pessoas vão começar a implorar para trabalhar com você. Aposto que sua próxima oferta será para um trabalho de um milhão de dólares”. Como amigo novo, eu estava apenas aconselhando Heath a fazer o melhor possível, a continuar sendo quem ele era: uma alma antiga, uma pessoa madura, que não se deixava distrair por drogas. Ele me disse: “Agradeço muito o conselho, mas em vez de nos preocuparmos com o que vai acontecer depois, me ajude a fazer o melhor possível hoje.” Para um cara de 18 anos que estava fazendo seu primeiro longa – e ainda por cima era para o estúdio Disney ―, e o diretor de seu primeiro filme de verdade lhe estava dizendo que ele ia virar um grande astro, qualquer outro jovem que eu conheço teria dito “Uau, cara, que demais! Tomara!”. Mas não Heath. Ele só queria fazer o melhor que conseguisse no momento. Isso mostra tão bem quem ele era.

Alexander: Já se escreveu muito sobre essa ideia de Heath ser uma alma antiga. É verdade que ele possuía uma maturidade. Heath saiu de casa muito jovem e acabou vivendo muito em pouco tempo. Então, mesmo sendo um cara de pouco mais de 20 anos, ele se sentia mais velho por seu jeito de se comportar e de encarar as coisas. Acho que era isso que o tornava especial, mesmo no começo. Ele diria que apenas mais tarde se tornaria um ator mais competente, mas ele fez um trabalho fantástico em 10 Coisas que Eu Odeio em Você, seduzindo a todos nós. E, de quebra, se divertiu para valer.

Pomerhn Derricks: A coisa que mais me lembro de trabalhar com Heath foi ficar sentada na arquibancada com ele. Estava um dia lindo. Passei horas sentada com ele. Conversamos sobre a Austrália, sobre ele ter vindo para cá, seus desejos e sonhos. Estou chorando agora quando me recordo daquela filmagem.

Alexander: Depois desse filme ofereceram a Heath muitos papéis em comédias teen, em dramas, histórias desse tipo. Mas ele tinha feito um filme desse gênero, e para ele já era o bastante. Quando ele resolveu buscar outros desafios, foi impressionante quantas ofertas ele recusou. Me lembro do ano que fomos ao Festival de Cinema de Veneza. Passamos uma semana lá, e cada dia Heath falava de um filme diferente. Ele fez O Segredo de Brokeback Mountain, Casanova e Os Irmãos Grimm. Sem falar em Os Reis de  Dogtown. Foi um conjunto incrível de filmes e personagens muito diferentes. 

Caraan: Antes da morte dele, fiquei super empolgado quando soube que Heath faria o papel do Coringa em Batman: O Cavaleiro das Trevas. Muitas pessoas ficaram apreensivas com essa decisão, sem ter certeza de que Heath estaria à altura de um papel tão icônico. Me lembro de ter visto o filme no cinema. Todas as cenas dele eram tão intensas que eu me sentia dentro das cenas. Quando ele recebeu o Oscar pelo papel do Coringa, eu chorei um pouco. Foi uma coisa que me forçou a ser modesto, vendo que eu fiz uma parte minúscula do legado dele. Mas foi um momento agridoce.

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"Encontrei uma cartinha que Heath escreveu. Foi muito doce. Quase chorei. Foi a cartinha de despedida dele para mim", disse Julia Stiles.

Uma vida curta, mas bem vivida

Heath Ledger morreu de overdose acidental de medicamentos em 22 de janeiro de 2008. Ele tinha 28 anos e era pai de Matilda, de 2 anos, sua filha com a atriz Michelle Williams. Ele atuou em 16 filmes e recebeu duas indicações ao Oscar, tendo ganho postumamente o Oscar de melhor ator coadjuvante por O Cavaleiro das Trevas, em 2009. 

Junger: Duas semanas antes da morte de Heath, eu estava terminando o roteiro de um filme que eu queria que ele estrelasse. Liguei para Steve Alexander e lhe pedi para falar a Heath que me ligasse, para que eu pudesse compartilhar com ele esse projeto empolgante. Steve me disse que Heath não ia atender a nenhuma ligação sobre trabalho enquanto estivesse filmando Cavaleiro das Trevas, porque estava tão mergulhado no personagem que não conseguia sair e estava tendo dificuldade enorme para dormir. Aquele papel o deixou abalado. Ele o levou tão a sério, foi tão profissional e profundo que não conseguiu escapar do papel. Fiquei arrasado porque sabia que era uma vida desperdiçada. Eu sabia que Heath não estava brincando com fogo. Ele não era assim.

Pomerhn Derricks: Já trabalhei com muitos atores incríveis, mas eu queria ter podido trabalhar com Heath outra vez. Eu era grande fã dele e acompanhei sua transformação em um ator incrível. Teria adorado fazer algo mais profundo com ele. Nós todos o amávamos, e não apenas por seu trabalho – ele era uma alma muito doce. Como fã, acho que perdemos muito mais ainda. O que mais ele ainda teria nos oferecido como ator? Ele tinha tanto para dar.

Alexander: Sinto orgulho enorme da carreira que construímos juntos. Obviamente o trabalho incrível na tela era dele, mas há muita reflexão envolvida nas escolhas que esses artistas fazem, e eu me sinto honrado por ter contribuído para essa carreira. Olhando para o trabalho dele hoje, é um trabalho impressionante. O currículo de Heath não é muito longo porque ele teve apenas um período breve de vida, mas seu trabalho é muito forte.

Stiles (de uma entrevista anterior dada ao HuffPost): Encontrei uma cartinha que Heath escreveu num papel de carta do hotel. Esqueci o começo, mas o que ele escreveu foi alguma coisa como “dance como se você nunca tivesse ouvido a música antes, ame como se você nunca tivesse sido magoada”. Foi muito doce. Quase chorei. Foi a cartinha de despedida dele para mim.

Alexander: Tenho tantas lembranças e coisas com as quais me recordo de Heath. Mas tenho uma tatuagem no braço que diz “eu queria que você estivesse aqui”, que é uma coisa que Heath tinha no corpo. É um lembrete constante. Heath faz parte de minha vida até hoje de muitas maneiras diferentes.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.